10 de junho de 2026

Fernando Penteado: é tradição e o samba continua, por Daniel Costa

Reconhecido como Embaixador e Mestre do Samba Paulista, ele é também Acadêmico-Mor da Academia dos Baluartes do Samba de São Paulo
São Paulo (SP), 22/03/2024 - O sambista emérito Fernando Penteado da velha guarda da Escola de Samba Vai Vai. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Fernando Penteado, representante da tradição do samba paulista, personifica a herança cultural e o compromisso com a continuidade do legado.

Nascido em 1947 no Bixiga, Penteado dedicou-se ao samba, atuando como Diretor no Vai-Vai e contribuindo para a preservação da identidade da agremiação.

Reconhecido como Mestre do Samba Paulista, Penteado é Acadêmico-Mor da Academia dos Baluartes do Samba de São Paulo, mantendo viva a tradição e história do carnaval.

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Fernando Penteado: é tradição e o samba continua

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por Daniel Costa

No mês de novembro, além de celebrarmos o Dia da Consciência Negra, é nosso dever relembrar a trajetória daqueles que pavimentaram o chão para que pudéssemos chegar até aqui. Da política aos esportes, da universidade às artes em geral, foram muitos os que lutaram contra o racismo e exigiram respeito às nossas raízes. No universo do samba não seria diferente: inúmeros mestres e mestras dedicaram suas vidas para que, hoje, apesar de todas as dificuldades ainda enfrentadas, o samba e o carnaval sejam reconhecidos e respeitados como expressões legítimas da nossa cultura popular.

Poderíamos citar diversas figuras que marcaram essa história, mas o nosso homenageado, além de representar uma verdadeira dinastia do samba paulista, é também uma das grandes referências quando se pensa no Vai-Vai, a escola de samba alvinegra do Bixiga e uma das mais tradicionais da cidade. Neto de Fredericão Penteado – um dos fundadores do então Cordão Vai-Vai -, filho de João Penteado, irmão de Cleuzi Penteado (a nossa querida Tia Cleuzi) e pai da porta-bandeira Paula Penteado, nosso personagem, Fernando Penteado, personifica a força da ancestralidade e o compromisso com a continuidade de um legado que atravessa gerações. Sua trajetória é a prova viva de que o samba e o carnaval, além de alegria e festa, também são herança e pertencimento. Com esse breve perfil, pretendemos não somente homenagear o nosso grande mestre Penteado, mas também celebrar a memória e a identidade negra que mantêm o Bixiga e o Vai-Vai como verdadeiros quilombos paulistanos.

Nascido em 1947, no bairro do Bixiga, o então garoto cresceu cercado pelo universo do samba, fato determinante para a construção de sua trajetória marcada pela dedicação à cultura popular e à valorização das tradições do carnaval paulistano. Jornalista e compositor, Penteado atuou como Diretor de Harmonia, de Carnaval e Diretor Cultural do Vai-Vai, funções nas quais teve papel essencial na preservação da identidade e do legado da agremiação, além de contribuir para a formação de novos componentes para atuarem nesses cargos.

Reconhecido como Embaixador e Mestre do Samba Paulista, Fernando Penteado é também Acadêmico-Mor da Academia dos Baluartes do Samba de São Paulo, iniciativa pioneira da Liga que nasceu para reverenciar aqueles que fizeram do samba sua vida e sua missão. Ao longo das últimas décadas, esteve presente ainda nas principais decisões do carnaval paulistano, sempre guiado pelo compromisso de fortalecer essa tradição. Foi diretor de Cultura da UESP, fundador da Ala de Compositores e integra com orgulho a Velha Guarda do Vai-Vai, onde segue transmitindo ensinamentos, histórias e valores que ultrapassam gerações. Participou ainda da criação da Liga das Escolas de Samba de São Paulo e hoje coordena o Departamento das Velhas Guardas da Liga, reafirmando, a cada gesto e palavra, seu amor pelo samba e pelo carnaval. Em 2012, recebeu o título de Cidadão Samba, a mais alta honraria concedida àqueles que dedicam suas vidas à preservação e à celebração dessa expressão maior da cultura negra brasileira.

A história da família Penteado está profundamente enraizada no Bixiga. O avô de Fernando, Fredericão, chegou ao bairro vindo da cidade de Amparo em 1898, apenas dez anos após a abolição formal da escravidão. Ainda menino, começou a se envolver com a música e, com o tempo, tornou-se conhecido como “Fredericão da zabumba”, o mesmo celebrado por Geraldo Filme na emblemática Batuque de Pirapora. Foi ali, entre negros e italianos, que os avós de Penteado se conheceram e deram início a uma linhagem que, ao longo dos anos, se confundiu com a própria história do samba paulistano.

Quando Fredericão chegou ao Bixiga, no final do século XIX, São Paulo ainda respirava os ares da abolição recente. O bairro, formado por negros libertos e imigrantes italianos, tornou-se um espaço de convivência e disputa, onde práticas culturais negras – como o samba de bumbo e as rodas de batuque – resistiam às tentativas de repressão e higienização urbana. Nesse ambiente fértil de cultura e resistência nasceu o Vai-Vai, desdobramento do clube de futebol Cai-Cai, criado por jovens negros que, após desentendimentos internos, decidiram fundar seu próprio cordão – aquele que se tornaria uma das mais importantes escolas de samba do país.

Músico talentoso e símbolo da ligação entre o samba, o futebol e as tradições populares negras, Fredericão ajudou a erguer as bases de um cordão que se tornaria um espaço de afirmação da cultura afro-paulistana no coração de uma metrópole em formação. Ao lado de nomes como Benedito Sardinha, Dona Casturina, Dona Iracema, Guariba, Livinho, Tino e Henricão, construiu um legado que atravessou gerações. A trajetória familiar de Fernando Penteado expressa, portanto, uma herança marcada pela musicalidade e pelo pertencimento a uma comunidade forjada às margens do Saracura.

No século XIX, a região onde hoje se localiza a Praça da Bandeira, próxima ao metrô Anhangabaú, era um importante ponto de passagem para tropeiros e comerciantes que seguiam pela Estrada do Piques – atual Rua da Consolação. Ali funcionava um entreposto onde se negociavam produtos e também pessoas escravizadas. Algumas dessas pessoas conseguiam escapar e encontravam abrigo nas margens do rio Saracura, dando origem ao Quilombo Saracura, reconhecido como um dos primeiros quilombos urbanos da cidade de São Paulo. Dali, muitos partiam em direção ao Quilombo do Jabaquara, seguindo para outros lugares em busca da tão sonhada liberdade.

De acordo com o memorialista Ernani Bruno, em 1831 já constavam nas atas da Câmara Municipal de São Paulo pedidos para que fossem fechadas as passagens próximas ao rio Anhangabaú. Entre as justificativas, destacava-se o argumento de que naquela área viviam “ladrões”, “escravos fugidos” e “aquilombados”, evidenciando a presença de comunidades negras resistentes muito antes do fim da escravidão.

Décadas mais tarde, uma reportagem publicada pelo Correio Paulistano em 1907 descrevia as margens do rio Saracura como “um pedaço da África”. A matéria relatava uma “linha de casebres” à beira do riacho, onde “cabras soltas, crianças descalças e velhos de carapinha embranquecida” davam ao local “ares do Congo”. Também mencionava um morador conhecido como Pai Antônio, famoso por suas “mandingas” e por despertar a curiosidade dos supersticiosos. Esse território seria reconhecido, posteriormente, como um dos berços do samba na capital paulista.

Filho de um homem negro e de uma mulher branca descendente de italianos, Fernando Penteado simboliza o encontro desses dois mundos que marcaram a história do Bixiga: de um lado, os africanos trazidos à força; de outro, os imigrantes europeus que chegaram no pós-abolição, impulsionados pelas políticas de branqueamento que moldaram a sociedade brasileira no início do século XX.

Em sua juventude, Penteado testemunhou de perto a transformação do Vai-Vai, que passou de um cordão popular a uma escola de samba estruturada, acompanhando também a transição dos desfiles de rua para o sambódromo e a crescente profissionalização do carnaval paulistano. Segundo ele, ser do Vai-Vai é mais do que desfilar: é um modo de existir. O pertencimento à agremiação representa fazer parte de uma linhagem de resistência negra e de solidariedade coletiva, forjada em um bairro marcado pela exclusão, mas também pela criatividade. Essa identidade se expressa na convivência entre os membros da chamada “Família Vai-Vai” – termo utilizado pelo sociólogo Reinaldo Soares para designar aqueles cuja vida cotidiana é profundamente marcada pela sociabilidade no interior da escola.

Ao comentar as transformações do carnaval paulistano, Penteado traça um paralelo com sua própria trajetória, recordando o tempo em que convivia com figuras fundamentais da história do samba em São Paulo. “Eu ficava ali junto do falecido Macalé, da Nenê de Vila Matilde, do Betão, sobrinho do seu Nenê. Lá estava a nata do samba paulistano: Mala do Tatuapé, Inocêncio Tobias, Seu Nenê, Pé Rachado, Madrinha Eunice, Seu Carlão, Toniquinho Batuqueiro, entre outros.” Segundo ele, ao longo dos anos foi possível testemunhar as mudanças ocorridas – do fim dos cordões à consolidação das escolas de samba – em um contexto marcado por profundo respeito entre os sambistas. Havia uma coirmandade em que as escolas eram rivais, mas não inimigas. Uma ordem dada por um diretor de harmonia tinha peso e era respeitada por todos. “Por exemplo, uma ordem dada pelo senhor Mercadoria, diretor de harmonia de outra escola, tinha o mesmo valor que uma ordem de alguém da nossa”, recorda.

Penteado ressalta que viveu um tempo em que o diretor de harmonia pedia para a passista sambar e sambava junto com ela. Sem desqualificar a nova geração, ele enfatiza a importância de preservar a tradição mesmo diante das transformações: “Não sou avesso à modernidade, mas não se pode perder a tradição; é preciso trabalhar de forma conjunta.” Para ele, muita coisa se perdeu com o passar dos anos. Antigamente, a cidade se vestia de Carnaval: havia festa em todos os lugares, as pessoas se fantasiavam e saíam às ruas para se divertir – algo que, segundo observa, se perdeu nos moldes atuais.

Entre as principais perdas para a tradição das escolas de samba, Penteado destaca o falecimento dos baluartes, pois com eles desapareceram também boa parte das tradições e práticas que sustentavam o samba paulistano. Muitas dessas tradições caíram no esquecimento. Ele lamenta, sobretudo, a perda das cores das escolas – símbolos de identidade e pertencimento que antes permitiam reconhecer de imediato cada agremiação. “Gostaria de ver a ala das baianas vestida e desfilando como baianas, fazendo o seu ritual”, afirma, revelando a saudade de um tempo em que o carnaval era vivido com autenticidade, respeito e devoção à tradição.

Se o relato de Penteado apresenta ao público aspectos de um tempo áureo do carnaval paulistano, o mestre também recorda as dificuldades enfrentadas durante os desfiles na Avenida Tiradentes, além do descaso do poder público, que relutava em apoiar financeiramente as agremiações. A repressão policial e o preconceito eram constantes. Em suas palavras: “A gente esperava, porque tinha que tirar os carros alegóricos correndo dali… vinha o tenente Nakahara com uma motosserra, serrando as alegorias no meio.” O relato é contundente: o samba, expressão da população negra, era tratado como desordem pública.

Essa lembrança revela como o Vai-Vai e, por extensão, seus integrantes precisaram lutar não apenas por espaço no carnaval, mas também pelo direito de existir culturalmente. Para Penteado, o Vai-Vai é mais que uma escola de samba – é uma família. O pertencimento à agremiação representa integrar uma linhagem de resistência e solidariedade, forjada em um bairro que, mesmo diante da exclusão, soube se reinventar pela cultura. Seu depoimento ajuda a compreender por que o Vai-Vai se tornou símbolo da tradição e da negritude paulistana. Mesmo diante da mercantilização e do embranquecimento do carnaval, a escola segue lutando para preservar o vínculo com o povo negro e com o bairro do Bixiga, mantendo vivas suas raízes.

Outra lembrança evocada por Penteado destaca a garra daqueles que constroem a agremiação alvinegra. Ele recorda que o Vai-Vai sempre foi uma escola diferente – nada nela acontece de forma totalmente previsível. Como diz o ditado, “quando está tudo certo, é porque algo está errado”. Essa característica se manifestou de forma marcante no Carnaval de 1982, com o enredo Orum Ayê – O Eterno Amanhecer.

Na véspera do desfile, o então presidente José Jambo Filho, o saudoso Chiclé, concedia uma entrevista à Rádio Bandeirantes afirmando que tudo estava pronto – o que, para os integrantes da escola, já era motivo de desconfiança. Pouco depois, surgiu o aviso desesperado: havia acabado o espelho necessário para finalizar o carro abre-alas, todo decorado com o material.

Com sua habitual tranquilidade, Chiclé acalmou a todos dizendo: “Calma, calma, que agora está começando a dar tudo certo!”. A repórter transmitiu o ocorrido ao vivo, e em poucos minutos começaram a chegar pessoas trazendo espelhos de casa para ajudar. Logo havia material suficiente para cobrir duas alegorias. Às oito da noite, o carro estava pronto – e o Vai-Vai venceu o Carnaval daquele ano. O episódio tornou-se símbolo do espírito da escola: da incerteza e do improviso nasce a força que permite ao Vai-Vai realizar o improvável e conquistar o impossível.

Por fim, entre tantas passagens, não se pode deixar de destacar a paixão de Penteado não somente pelo Vai-Vai, mas também pelo bairro onde nasceu – dois amores que, ao fim e ao cabo, se tornam um só. Com as obras da futura Linha Laranja do metrô, que ligará a Brasilândia, na zona norte, à Estação São Joaquim, na zona sul, a escola perdeu sua tradicional sede e o espaço de ensaios na Rua São Vicente.

Embora não resida mais no bairro, no momento em que aquele espaço – que guardou por tantos anos inúmeras memórias – foi demolido, Penteado fez questão de levar consigo um símbolo significativo: um paralelepípedo. Ele acredita que foi seu avô quem ajudou a colocá-lo na rua. Ao acompanhar a reconstrução do espaço da escola, decidiu pegar uma das pedras e levá-la para sua casa, na zona norte paulistana. “Quando às vezes estou aqui em casa, sento na cadeira e coloco meu pé no paralelepípedo; para mim, parece que estou no Bixiga.”

Assim, Fernando Penteado não é somente o herdeiro de um dos fundadores do Vai-Vai: sua trajetória representa a continuidade do samba como prática comunitária e expressão de dignidade, reafirmando o papel da escola como espaço de memória e resistência – onde o amor ao pavilhão continua sendo, nas palavras dos próprios vaivaienses, “classe, dignidade e tradição”. A história de Penteado e de sua família permite ainda compreender a importância do Vai-Vai como espaço de sociabilidade e autorreconhecimento. A agremiação não é “apenas uma escola de samba”, mas um espaço onde seus membros reafirmam sua identidade negra e popular, em contraposição a uma cidade que historicamente marginalizou seus corpos e suas expressões culturais.

No mês da Consciência Negra, lembrar de Fernando Penteado é reconhecer que a história da população negra em São Paulo – e no Brasil – é também a história da arte, da resistência e da alegria. Celebrar sua trajetória é celebrar todos aqueles que, como ele, mantêm viva a chama daquele cordão fundado oficialmente em 1930 e que segue lutando para preservar sua tradição e sua história.

Daniel Costa é historiador, pesquisador, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo diá Piratininga.

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Daniel Costa

Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK – Centro de Documentação e Memória – José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).

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