
Entre a Casa Verde e o Bixiga: Ademir, o compositor que fez do samba sua morada
por Daniel Costa
Quando falamos em samba, mesmo no singular, é impossível não perceber o seu caráter plural. Nascido de uma mesma raiz, ele se reinventou em cada canto do país, ganhando sotaques, cadências e jeitos próprios. E foi exatamente dentro dessa árvore frondosa que pudemos ver o florescimento de inúmeros ramos: o samba-enredo, o samba-canção, o pagode, o partido-alto e tantas outras vertentes que multiplicaram sua força. É nesse universo diverso que se inscreve nosso personagem, um dos grandes nomes do samba paulista. Mais do que um intérprete de sua tradição, ao longo de sua trajetória vem se aventurando por diferentes caminhos do ritmo, levando sua música a lugares que aquele menino da Casa Verde, na zona norte paulistana, jamais poderia imaginar.
Ademir da Silva, conhecido no mundo do samba simplesmente como Ademir, figura entre os personagens marcantes do samba paulistano; sobretudo do Vai-Vai, agremiação à qual pertence como integrante da Velha Guarda Musical. Compositor, arranjador, instrumentista, pesquisador e produtor, nosso personagem pode ser visto como um verdadeiro “operário da música”: daqueles que sustentam o samba com os pés firmes na tradição, mas sem deixar de voltar o olhar para o presente e para o futuro. Nascido em São Paulo, em 27 de março de 1953, Ademir é cria da região da Casa Verde, um dos redutos históricos de sambistas da capital. Seu pai, o maestro Lázaro da Silva, foi sua primeira referência musical, ainda em casa. Essa influência tornou-se uma herança que ele soube transformar em arte.
O interesse despertado ainda na infância levou Ademir a estudar violão clássico no Conservatório Carlos Iafelice. Já adulto, integrou como barítono o Coralusp, da Universidade de São Paulo, onde também recebeu formação em Técnica Vocal e Interpretação. Essa base sólida e, ao mesmo tempo, eclética, transitando entre o clássico e o popular, permitiu que circulasse com naturalidade por palcos distintos: do samba feito nas quadras das escolas à atmosfera das convenções empresariais internacionais. Paralelamente à carreira de compositor, Ademir atuou como palestrante no projeto MotivaArt, realizando conferências em grandes empresas como Bosch, Siemens e Unibanco. Dessa experiência surgiu a inspiração para idealizar o projeto O Caminho do Sucesso, uma apresentação em que estabelece um paralelo entre a história do carnaval e as estratégias corporativas. O êxito da iniciativa fez com que seu trabalho atravessasse o oceano, chegando a países como França e Suíça.
Apesar de toda a versatilidade musical, é no samba que Ademir encontra sua verdadeira morada. Ingressou na Ala de Compositores do Vai-Vai em 1984, após se destacar entre os primeiros colocados na tradicional disputa de sambas de quadra. Como integrante da ala, conquistou o carnaval de 1987 com o antológico samba-enredo “Volta ao mundo em oitenta minutos–À busca da paz”, em parceria com Nadão e Mariano. A obra, que garantiu mais um título para a alvinegra do Bixiga, foi apontada por críticos como um dos melhores sambas da década, inscrevendo desde então seu nome entre os grandes compositores da história do carnaval paulistano. Ao longo de sua trajetória, Ademir também assinou sambas para outras escolas, como as paulistanas Rosas de Ouro, onde ganhou três disputas de samba, Mocidade Alegre e Unidos do Peruche. Em 1995, viveu uma experiência inusitada ao conquistar a vitória com a escola de samba japonesa Barbados de Tóquio, com o enredo “Encanto da Sereia”. Um feito que evidencia como sua obra tem o poder de atravessar fronteiras geográficas e culturais.
Além dos sambas-enredo, é fundamental relembrar o envolvimento de Ademir com o movimento do pagode de raiz surgido nos anos 1980, na esteira do sucesso de grupos como o Fundo de Quintal, reforçando, assim, seu compromisso com a preservação e a renovação do samba. Em sua trajetória, Ademir também integrou o grupo A Cor do Samba e produziu discos de outros conjuntos, como Serra Samba, Pura Sedução, Grupo Kerubim, além de artistas como Di Galvão e Osmar Sorriso. Seu talento como produtor musical é tão destacado quanto sua obra como compositor. Nessa seara, ele construiu uma extensa e rica produção, com composições interpretadas por nomes consagrados como Arlindo Cruz e Sombrinha, Sem Compromisso, Capri, Elizeth Rosa, Thobias da Vai-Vai, Demônios da Garoa e Negritude Jr.
Entre suas criações, destaca-se a música “Menina de Aruanda”, composta em parceria com Nadão. Gravada pela primeira vez pelo grupo Samba Lá de Casa no álbum Tarda, Mas Não Falha, lançado pela gravadora RGE em 1986, a canção teria sua versão definitiva registrada pelo Grupo Redenção em 1995, no disco A Lua e o Sol. Esse samba tornou-se um exemplo de composição que atravessou gerações e estilos, permanecendo como um dos clássicos das rodas de samba de São Paulo e do Brasil. Com um repertório autoral de impressionante diversidade, Ademir assina ainda músicas como “Samba da Garoa”, em parceria com Nei Melodia, Ney do Cavaco, Xavier e Carlão Maneiro; “Feito Colibri”, com Carlão Maneiro; “Você, Meu Mundo”, com Edson e Nadão; “Cavaco e Pandeiro”, com Marco Antônio; “Sinherê, Sinherá”, com Nadão; e “Filho do Quitandeiro”, com Luizinho SP e Edson, entre muitas outras. Sua produção é marcada por uma ampla variedade de temas, do social ao lírico, passando por sátiras, homenagens e exaltações, refletindo dessa forma a multiplicidade de seu talento e das vivências que o samba abriga.
Outro momento marcante em sua trajetória como compositor foi a participação no Primeiro Festival de Sambas de Quadra do Estado de São Paulo, onde defendeu a canção “Meu Samba da Garoa”, composta em parceria com Emerson Baiano. O festival, considerado um momento chave para a retomada da abertura de espaços para a apresentação de sambas autorais, contou ainda com a participação de nomes como Roberto Capri, Marco Antônio, Dedé Paraizo, Luverci Ernesto, Patusca da Mocidade, Chapinha, Maurílio de Oliveira e Mazinho do Salgueiro. Em 2013, lançou o projeto intitulado Mais um bamba, no qual também assinou os arranjos e a produção musical. O trabalho foi acompanhado de um espetáculo homônimo, em que Ademir revisitou sua trajetória, reforçando sua versatilidade como artista. Por fim, no que diz respeito à sua discografia, destaca-se ainda a gravação, no Japão, do álbum “Tributo a Tom Jobim”, com a banda Prismática Overdrive de Tóquio, em 1999.
Caso o leitor acredite que o trabalho de Ademir se restringe à produção musical e à composição, terá uma grata surpresa, pois sua trajetória também é marcada por passagens como pesquisador e educador. Em parceria com seu constante colaborador Nadão, realizou o projeto Arte nas Ruas, no qual apresentavam um show didático contando a história dos cem anos do samba. Essa dimensão educativa soma-se à sua atuação artística, fazendo dele um verdadeiro guardião da memória e do saber popular.
Como integrante da Velha Guarda Musical do Vai-Vai, o compositor ocupa hoje um lugar de respeito e reverência dentro da escola, posto alcançado graças a uma trajetória reconhecida não somente por seus pares, mas também pelo público. Sua figura simboliza a ponte entre a tradição, presente em suas criações, e as possibilidades futuras de reinvenção.
Em cada samba de Ademir há o peso da tradição e a leveza da criação popular. Suas composições, carregadas de lirismo, crítica social e beleza melódica, atestam sua importância. Sua trajetória mostra que a resistência do samba também se constrói aliada à consciência política e social. Infelizmente, apesar de ter nascido sob o signo da resistência, hoje muitos sambistas rejeitam esse passado ou preferem a omissão. Ademir, ao contrário, sempre que possível, deixa claras suas posições, mostrando que o sambista deve estar ao lado do povo e com o povo.

Um passeio por suas composições
É a partir dos anos 1980 que Ademir se consolida como um dos grandes nomes do samba paulistano. Sua consagração ocorre em 1986, com a vitória na disputa de samba-enredo do Vai-Vai, ao lado de Nadão e Mariano, com o antológico “Volta ao Mundo em 80 Minutos–A Busca da Paz”, gravado no LP Sambas de Enredo das Escolas de Samba do Grupo 1 – Carnaval 1987 (Continental). Em 1990, voltaria a vencer a disputa na alvinegra com “Sessenta Anos no Reino das Bananas”, dessa vez em parceria com Necks e Showxão. O samba, interpretado por Thobias da Vai-Vai, reafirmava para o público e para a comunidade a força de seu estilo épico e crítico.
Durante esse período, Ademir também vê suas composições serem gravadas por artistas como o grupo Samba 6, demonstrando sua versatilidade. É o caso de canções como “A Mais Pura das Paixões”, feita com Nadão, Luizinho SP e Mário Sérgio; e “Adversidade”, em parceria com Fernando Bom Cabelo. Estas duas últimas foram lançadas pelo Samba 6 no disco A Mais Pura das Paixões, também da gravadora Continental.
O LP Forte Emoção, produção independente do grupo A Cor do Samba, lançado em 1994, é uma verdadeira coletânea de obras de Ademir produzidas entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990. Destacam-se “Aquele Adeus”, parceria com Necks e Nadão; “Fonte de Desejo”, com Edson; “Feito Pra Aprender”, com Nadão e Reginaldo; “De Madalena a Irajá”, também com a dupla Edson e Nadão; e “Tô Indo Pro Samba”, novamente assinada pelo trio. Essas músicas revelam ao ouvinte o talento do compositor e de seus parceiros na elaboração de sambas com densidade melódica, permeados por toques de crônica cotidiana e pela já mencionada crítica social, feita de forma sutil.
É também nesse período que músicas como Menina de Aruanda atingem ampla circulação, sendo regravadas por diferentes artistas, entre eles o Grupo Redenção, Naninha e Samba Lá de Casa. A canção se tornaria um de seus maiores sucessos e símbolo de sua lírica afetuosa e ancestral. A obra de Ademir revela ainda um lirismo suave, como em “Me Deixa Mulher”, parceria com Nadão; “Louco para Amar”, feita com o trio Nadão, Necks e Reginaldo; e “Pra Nunca Mais Chorar”, com Luizinho SP, criações gravadas, respectivamente, pelos grupos Juventude do Pagode, Gamação e Sem Compromisso.
No entanto, se o lirismo é uma marca de sua produção, há também um interesse constante pela história afro-brasileira, pelas questões sociais, pela crítica ao consumismo e pela exaltação da vida popular. Canções como “Canto de uma Senzala”, em parceria com Nadão e Coqueirão, lançada pelo grupo Negritude Jr.; “Filho do Quitandeiro”, com Luizinho SP e Edson, conhecida nacionalmente pela gravação da dupla Arlindo Cruz e Sombrinha; e “Pensando na Fome”, parceria com Luizinho SP e gravada pelo cantor e compositor Dudu Nobre, demonstram seu engajamento ao compor sambas que denunciam, mas também emocionam o público.
A trajetória de Ademir confirma que o samba, mais do que um gênero musical, é um espaço de memória, renovação e criação. Entre a Casa Verde, região onde nasceu, e o Bixiga, onde forjou sua identidade de sambista, ele construiu uma obra que atravessa fronteiras, dialogando com a tradição e renovando a linguagem do samba paulista, mantendo vivo o elo com a ancestralidade sem deixar de conversar com a contemporaneidade. Seja através do lirismo, da crônica cotidiana ou da crítica social que permeia suas composições, sua música reafirma a força do samba como expressão cultural e política. Desse modo, Ademir não somente inscreveu seu nome na história do gênero ao longo de sua trajetória, mas vem fazendo do samba sua verdadeira morada, construindo um legado que continuará a inspirar e emocionar gerações, assim como o menino nascido na zona norte paulistana foi inspirado em sua infância.
Daniel Costa é historiador, pesquisador, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo Diá Piratininga
Leia também:
Cyrlene M Castro
26 de setembro de 2025 5:20 pmAdemir….Grande Poeta…
Pessoa muito especial, que tive o prazer de conhecer.
Carismático,simples,enfim..
Meu Poeta…é assim que eu o chamo..
Tudo de Bom👏🏻👏🏻👏🏻😉❤️