10 de junho de 2026

Do tronco ao asfalto: a consciência que confronta a história oficial, por André Araújo

Um panorama das continuidades do racismo estrutural, da necropolítica e da hierarquização racial que moldam o país até hoje
Reprodução

– 13 de maio de 1888 marca a abolição da escravidão no Brasil, mas a exclusão social persiste nas periferias, hospitais e presídios.

– O racismo estrutural mantém privilégios e transforma a liberdade prometida em exclusão social, desemprego e favelização.

– A verdadeira abolição exige ação antirracista, reparação, redistribuição e a reimaginação radical do Brasil para romper com a exclusão histórica.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Do tronco ao asfalto: a consciência que confronta a história oficial

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por André Augusto Araújo Oliveira

O dia 13 de maio de 1888 é lembrado oficialmente como o dia da Abolição da Escravidão no Brasil. Mas, afinal, abolição para quem? Nas periferias, nos becos, nos morros, nos corredores de hospitais, delegacias e presídios; nos porões das universidades e nos tribunais, o que persiste é a continuidade da chibata — menos visível, mas igualmente cruel. Como alertou Gonzalez (1988, p. 80), “a democracia racial é uma ideologia que mascara as desigualdades”. Aquela assinatura no papel foi, na verdade, um ponto de inflexão que deu início a um novo cativeiro — o da exclusão social, da humilhação institucional, da negação cotidiana da humanidade negra.

Do tronco ao asfalto, seguimos em marcha. Marchamos sob o peso do racismo estrutural que Munanga (2004, p. 30) denuncia como um “sistema que se reinventa continuamente para manter privilégios”. A liberdade prometida foi uma armadilha, um papel mofado sem política de reparação, sem terra, sem teto, sem escola. O açoite virou desemprego, a senzala virou favela. E a princesa virou símbolo de uma grande farsa: a da redenção branca que fundou os alicerces do privilégio da branquitude. É uma nova forma de opressão. Quebraram as correntes, mas mantiveram as algemas sociais. Libertaram os corpos, mas tentaram apagar as histórias, a cultura e os direitos. Trocaram os navios negreiros pelos ônibus lotados. O tronco virou camburão. A Casa-grande se blindou em condomínios com cercas elétricas e segurança armada. O disfarce da liberdade é arquitetado na paisagem urbana — e nela, seguimos resistindo.

Como pontua Souza (2017, p. 49), o Brasil naturalizou uma “ralé estrutural” — um contingente de pessoas tratadas como descartáveis. Coincidentemente — ou não — essa ralé tem cor, território e herança. Não se trata de vitimismo, mas de uma constatação brutal. Como destaca Ribeiro (2019, p. 13), “quem parte do privilégio sempre pensa que igualdade é opressão”.

Nascimento (1982, p. 15), no entanto, já gritava que a abolição real só viria com a reestruturação profunda da sociedade brasileira. Mas quem, de fato, quer abrir mão de privilégios em um país construído sobre a exploração racial?  Gonçalves (2006), em Um defeito de cor, revela os escombros emocionais e políticos deixados por séculos de opressão — um Brasil que apaga a memória da dor negra e ainda cobra gratidão por uma “libertação” inconclusa.

Quando Ramos (2021, p. 45) escreve sobre o peso de ser negro no Brasil, ele não fala de mágoa, mas de exaustão. Ser negro aqui é ser multifunção: herói, sobrevivente, espelho, resistência e, muitas vezes, alvo. E quando enfim conseguimos nos erguer com os joelhos calejados pela história, o sistema nos acusa de sermos “radicais demais”.

Santos (2008, p. 95), então, afirmava que o espaço geográfico é produto das relações sociais. O asfalto, portanto, não é neutro: é racista, seletivo, segregador. Nas cidades, os fluxos são desenhados para manter distâncias — entre o branco que planeja e o negro que executa, entre o centro que consome e a periferia que apodrece. Que liberdade é essa que permite ao corpo negro circular, mas não pertencer? Existir, mas não ser reconhecido como sujeito pleno de direitos. A falsa abolição se revela nos contornos urbanos — nas fronteiras invisíveis que delimitam onde se sonha e onde apenas se sobrevive.

Davis (2018, p. 25), defende que não basta não ser racista — é preciso ser antirracista. Mas isso exige ação, exige escuta, exige renúncia de privilégios, exige abrir espaços de poder e não apenas presenças simbólicas em campanhas publicitárias. Exige compreender que a verdadeira abolição está no enfrentamento das estruturas que hoje nos encarceram: a bala que silencia, a cela que isola e a ausência de oportunidades que condena em liberdade. Ela exige mais que memórias: exige um olhar radicalmente reparador, capaz de romper com o ciclo histórico da exclusão.

Ainda em 1859, Maria Firmina dos Reis já nos alertava, em Úrsula, que a escravidão não destrói apenas corpos, mas também almas. Sua escrita humaniza aqueles que o sistema insiste em desumanizar. Sua literatura continua atual porque enquanto pessoas negras forem confundidas com ameaça, a abolição continuará sendo apenas uma miragem no deserto.

Mbembe (2018, p. 29) nos ajuda a compreender a necropolítica brasileira: o Estado decide quem vive e quem morre. E no Brasil, essa escolha tem cor. Tombam corpos como os de Miguel, Beto, Marielle. Sobrevivem aqueles que podem pagar por segurança privada. A abolição é desmentida a cada corpo negro que cai nas esquinas do medo. Medo esse que tem nome, sobrenome e território: as favelas, alvo de estigmatização e da guetofobia institucional.

Saquet (2007, p. 88) nos lembra de que os territórios são construções sociais e políticas. A favela é um projeto — inacabado, mas não por acaso. A fragmentação e ausência de políticas públicas não são falhas: são estratégias. A omissão é uma forma sofisticada de perpetuar o cativeiro. No abandono, há cálculo — não há neutralidade.

Bento (2022, p. 104) reforça: o pacto narcísico da branquitude é o maior obstáculo à superação do racismo. A abolição não fracassou; ela nunca foi pensada para funcionar. Porque não era sobre justiça — era sobre caridade que mantivesse o privilégio de uns e o aprisionamento de outros. Foi continuidade — da exploração, da hierarquia, da supremacia.

Portanto, a verdadeira abolição não está no passado. Está na luta de cada dia: no corpo que resiste, na palavra que confronta, na educação que emancipa. Está nas mulheres negras que educam o mundo com seus passos firmes; nos homens que choram seus mortos, mas seguem vivos apesar das ausências e da violência do Estado. Está nos quilombos urbanos, nos coletivos insurgentes, nas universidades ocupadas, nas ruas que ecoam vozes como tambores.

Se o 13 de maio virou farsa, que cada 14 de maio seja rebeldia. Que os passos sigam os toques da ancestralidade. Que sejamos abolição viva — em denúncia, em escrita, em presença. Porque o Brasil só será verdadeiramente livre quando o povo negro deixar de ser exceção para se tornar regra. Quando a favela não for mais ausência e o asfalto não for mais armadilha. O tronco ficou para trás, mas as cicatrizes ainda queimam. E toda cicatriz pode um dia se tornar revolta. E toda revolta, quando ignorada, vira revolução.

Por fim, se a história oficial assinou a abolição com tinta e pena, os corpos negros continuam escrevendo a verdadeira liberdade com suor, lágrimas e resistência. E não há democracia possível enquanto a cor da pele continuar determinando o CEP, o currículo, a sentença e o caixão. A luta contra a falsa abolição exige mais que discursos. Exige reparação, redistribuição e a reimaginação radical do Brasil. Como provoca Bento (2022, p. 44): “é preciso quebrar o silêncio confortável da branquitude e colocar em xeque os pactos narcísicos de manutenção do poder”. O asfalto, esse chão onde andamos, precisa ser rompido para que a vida floresça onde antes houve dor. A abolição real só virá quando deixarmos de perguntar se o racismo existe — e começarmos a perguntar: o que você está fazendo hoje para que ele deixe de existir?

Referências bibliográficas

NASCIMENTOS, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 2016.

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Organização Flávia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução de Marta Lança. Lisboa: Antígona, 2014.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.

RAMOS, Lázaro. Na minha pele. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SAQUET, Marco Aurélio. Território e emancipação social. São Paulo: Outras Expressões, 2015.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2008.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2018. (1ª ed. 1859)

André Araújo é Assistente Social. Mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela Universidade Católica do Salvador – UCSAL. Doutorando pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (IAUUSP). Temas: Desigualdade Social; Política de Habitação de Interesse Social, Direito à Cidade; Estudos territoriais com práticas antirracistas. Integra o Núcleo Salvador da Rede BrCidades. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

BrCidades

Também cabe a nós compreender como se materializa nas cidades a desigualdades de classe, raça e gênero. Isto para sabermos ouvir as vozes dos personagens que entram em cena e protagonizam um novo ciclo de lutas

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. José de Almeida Bispo

    20 de novembro de 2025 5:18 pm

    “Esta terra não se pode nem se deve regular pelas leis e estilos do reino. Se Vossa Alteza não for muito fácil em perdoar, não terá gente no Brasil; e, porque o ganhei de novo, desejo que elle se conserve…”

    NÃO SE TRATOU DE MERA VONTADE OU NÃO “DO GOVERNO”.
    Qualquer medida mais radical de liberdade, numa sociedade em que ter escravos era motivos de alto status social, além obviamente de econômico, e o Imperador seria deportado, ou até executado, bem antes de 15 de novembro de 1889. Se nos Estados Unidos, divididos em opinião, houve guerra, e quase os escravagistas ganham; no Brasil, totalmente dependente da escravidão (“Era o negro quem fazia tudo.” Manoel Bomfim) o rei ia direto pra forca ou guilhotina no dia seguinte.

    O excerto de texto em destaque é de uma carta, de 6 de março de 1570, do terceiro governador-geral, Mem de Sá, à rainha D. Catarina, viúva de D. João II e regente do reino durante a menoridade de seu neto, D. Sebastião.

    Apud RIO BRANCO, Barão do. Efemérides Brasileiras. Revista do IHGB, Tomo 82, p.168

Recomendados para você

Recomendados