Enviado por Cafu, no Portal LN
POEMA
Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.
Joaquim Cardozo*
*Joaquim Cardozo foi engenheiro, poeta, editor, desenhista e calculista dos mais importantes monumentos de Oscar Niemeyer.
Desenho de Oscar Niemeyer
Prazer, prejuízo, ócio (Suely Mesquita – Celso Fonseca) # Suely Mesquita
;
Primeira estrela (Luli – Lucina – Sônia Prazeres) # Nana Caymmi
Música:
Sexo puro # Suely Mesquita
…e a gente nem deu nome # Nana Caymmi



Luiz Gonzaga da Silva
17 de fevereiro de 2014 2:52 pmCardoso foi o calculista de
Cardoso foi o calculista de Niemeyer até o episódio da Gameleira em que foi acusado de erro de cálculo, do qual foi inocentado mais tarde. O engenheiro/poeta ficou bastante abalado e seis anos após faleceu. O artigo abaixo foi escrito por Niemeyer no JB nos anos 80 e republicado site Brasília poética em 2010.
http://brasiliapoetica.blog.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=1671&Itemid=45
o Joaquim Cardozo

23 de Março de 2010
Meu amigo Joaquim Cardozo
Por Oscar Niemeyer
É velho retrato já amarelado pelo tempo. Estamos sentados num banco do Jardim Público de Belo Horizonte e Cardozo olha a máquina com um ar distante e constrangido. Está magro. Os ossos à flor da pele.
Quantos anos andamos juntos neste velho planeta? Quantas viagens juntos fizemos, pelo Brasil afora? Quantas coisas conversarmos, quanta amargura levantamos diante deste mundo absurdo. As vezes, do terraço do nosso escritório, Cardozo, olhando o céu, insistia: “Precisamos ir ao observatório!” E ficávamos a falar das estrelas, dos espaços infinitos, das nebulosas distantes, deste universo esplêndido que tentamos decifrar. E nos sentíamos pequenos demais, diante de tanta grandeza. Outras vezes, surgia a literatura e Cardozo se entusiasmava, citando Goethe, lembrando as traduções que fizera, ou cantarolando o seu Coronel de Macambira.
Mas a conversa mais freqüente se relacionava com o nosso trabalho, as ligações da arquitetura com a engenharia e o equívoco lamentável dos que pretendiam exprimir o concreto armado dentro do racionalismo estreito em que caminhava a arquitetura contemporânea. Rindo, Cardozo prometia fazer a base das colunas de ferro maciço e finas, finíssimas, como eu as preferia.
E ficávamos a lembrar os primeiros tempos. A obra de Pampulha se iniciando e Juscelino acompanhando-a com entusiasmo: “Oscar, vai ficar uma beleza!” E nós a segui-lo confiantes na sua determinação, apesar dos problemas de tempo e dinheiro que o envolviam. Depois, tudo concluído. O Cassino a funcionar, a burguesia da época a se exibir pelas rampas, e aquele ambiente de luxo, de mármores e ônix que Belo Horizonte desconhecia. A sorrir, recordávamos a igreja recusada durante vários anos, apesar de tão singela, apesar de tão enriquecida pelas pinturas, azulejos e baixos relevos de Portinari, Ceschiatti e Paulo Werneck; a Casa do Baile cheia de gente, com as mesas sob a marquise à beira da lagoa…O clube debruçado sobre a água, ainda com seus locais de estar e conversa responsáveis pela própria silhueta.
E as obras que realizamos em Belo Horizonte eram também lembradas: JK governador…O teatro, a biblioteca, o Colégio Estadual, a Escola Julia Kubitschek…As viagens repetidas que fazíamos juntos, pelas estradas enlameadas ou a balançar sonolentos, nos velhos trens da Central!
E Brasília voltava à nossa memória com sua poeira impalpável, com sua chuva de granizo a bater no telhado de zinco do Catetinho e os prédios a subirem naquela terra vazia, dentro dos espaços criados pelo seu urbanista. Cardozo lembrava então como lhe custara calcular o Congresso Nacional e como estava eufórico ao me telefonar, um dia: “Oscar, consegui a tangente que vai fazer a cúpula da Câmara solta como você queria.” Velhos tempos…Tudo parecia um sonho. O sonho predileto de JK.
Não falávamos no acidente das Mangabeiras, tão sórdido que dispensava comentários, mas, calados, olhando um para o outro, ficávamos a lembrá-lo com íntima revolta. Quanta miséria, meu Deus!
Há mais de um ano meu amigo se foi. Magoado com a vida e com os homens. Magro, quase de vidro.
Lembro-me quando, doente e ofendido, ele me telefonou do Recife: “Oscar, manda alguém me buscar!” Atendi-o, hospedando-o no Hotel Miramar, perto do escritório, onde todas as manhãs o apanhava. E Cardozo passava o dia inteiro entre nós, com a memória mais fraca, mas ainda sorrindo; contando histórias do Recife, do Bar Gambrino, do velho meretrício, onde gostava de passear, explicando: “Só para ver o colorido…”
À noite, eu o levava de volta e muitas vezes jantava com ele, no quarto do hotel, pesaroso de deixá-lo sozinho.
Era um homem sensível e solitário que a mim se apegou como quem encontra e não quer perder o seu derradeiro amigo. Sentado na sala de desenho, Cardozo acompanhava o movimento do escritório, e se alguém insistia a conversar comigo, ele não se continha, e, como fez com Júlio Niskier, levava-o pelo braço dizendo: “Já conversou muito. Agora, deixa o Oscar trabalhar.”
Mas a doença seguia seu curso inexorável e, como sua permanência no hotel se tornasse impossível, levei-o para a Casa de Saúde Eiras, no setor de cirurgia, do meu irmão Paulo.
Era um quarto grande, com três janelas abrindo sobre o jardim. A princípio, Cardozo parecia se adaptar naquele ambiente tranqüilo e confortante. Comentava a beleza do parque, as mangueiras carregadas, os passarinhos que cantavam à volta da janela, o Dr. Metre que com ele conversava diariamente. Mas as condições de saúde se agravavam, os doentes do quarto vizinho e até os que eventualmente o procuravam, começaram a irritá-lo. E a volta para a Casa de Saúde se tornou cada vez mais difícil. Lembro-me da noite em que se deitou no chão, recusando-se a entrar. Vieram os médicos e Cardozo dizia: “Vou me afogar”. Delicado, um dos médicos ponderou: “Dr. Cardozo, aqui não tem água”. E Cardozo, que não perdia ocasião de esclarecer um problema técnico, esqueceu a briga, comentando: “Cava que encontra”. Dois meses depois, a direção da Casa de Saúde, como ocorrera no Hotel Miramar, insistia para que eu o internasse na seção de psiquiatria.
Triste mundo…Onde estavam os amigos, devedores de tanto apoio e atenção? Junto dele, acompanhando-o nos seus desesperos, éramos cinco ou seis no máximo.
Fretei um avião e Cardozo, acompanhado de seu médico, seguiu para o Recife. Onde, pouco depois, faleceu num hospital da cidade.
Consolava-me a certeza de o ter sempre atendido de coração aberto, e o diálogo que tive certa vez em Brasília com o Prefeito Paulo de Tarso assumiu para mim outra dimensão.
“Dr. Niemeyer, vou nomear uma comissão de alto nível para examinar o cálculo do Joaquim Cardozo para o Tribunal de Contas.” E a minha resposta: “Cardozo é um velho amigo. Se o Sr. fizer isso, saio da Prefeitura agora.”
Transcrito do Jornal do Brasil, 12-07-1981
Jair Fonseca
17 de fevereiro de 2014 3:54 pmBelo testemunho sobre um
Belo testemunho sobre um amigo que não abandonou o outro, em seus últimos anos de doença, solidão e outros sofrimentos. E a memória de Niemayer só falhou quando se refere a Mangabeiras em vez de Gameleira. Foi neste último bairro de BH que ocorreu o desastre que tanto abalou o velho Cardozo.
antonio francisco
17 de fevereiro de 2014 7:58 pmDesastre sem tamanho
Todo mundo tentou esconder o desastre. A “revolução de 64” não queria desastres, deslustres, e sem dúvida ficava mais fácil jogar a culpa no Cardozo.
Até hoje, até onde sei, os familiares dos que morreram continuam esperando ganhar na Justiça o direito a indenização. Mas o Estado de Minas reluta, recorre. Uma lástima.
Cafu
17 de fevereiro de 2014 10:26 pmQue beleza de depoimento.
Amizade verdadeira.
Jair Fonseca
17 de fevereiro de 2014 3:45 pmPor ironia, um dos poetas
Por ironia, um dos poetas melhores e menos lembrados poetas do modernismo brasileiro encontrou alguma fama póstuma graças a uma minissérie da Globo, pelo que soube. Esta deveria lembrar-se também de suas peças de teatro, o melhor da poesia dramática do Brasil. Mas dirigir essas minisséries não é pra qualquer um. Guel Arraes, pernambucano como o poeta engenheiro, poderia encarar essa.
Cafu
17 de fevereiro de 2014 10:44 pmÉ triste ver tamanha desmemória.
Ninguém ensina e ninguém aprende a história que interessa.
Hoje fui a uma consulta e, em meio a conversas, pedidos de esclarecimento e questionamentos, mencionei o choque anafilático que matou Clara Nunes. O médico disse que não sabia quem era ela. Nunca tinha ouvido falar de Clara Nunes! Meu queixo caiu.