Literatura Infantil: do anacronismo fantástico à necessidade de ficcionalizar os cookies malvados
por Fábio de Oliveira Ribeiro
O homem produz o seu mundo e tudo que existe nele. Isso obviamente inclui aquilo que ele consome e usa para manter sua vida ou torná-la mais confortável e prazerosa. Todavia, existem outras coisa que o homem produz e consome: as ideias através das quais ele representa, interpreta e compreende o mundo em que vive.
As coisas materiais produzidas pelo homem são sempre substituídas por outras. Algumas delas são aperfeiçoadas, outras simplesmente desaparecem ou se tornam tão irrelevantes que não são mais capazes de desempenhar qualquer influência social importante. Mas existem algumas coisas que não desaparecem, os mitos, lendas e histórias em que determinado objeto desempenha uma função importante.
Citarei aqui apenas um exemplo. Até que a produção industrial de fios, tecidos e roupas se tornasse predominante, a roca ou “roda de fiar” era uma realidade presente no cotidiano das famílias. Esse objeto desempenha uma função importante em alguns mitos antigos, bem como em contos tradicionais medievais.
Durante o dia Penélope fia e tece um sudário para Laerte, o pai do marido. À noite ela desmancha o que fez para retardar a escolha de um pretendente. Penélope espera o retorno de Odisseu. Os deuses dificultam o retorno daquele herói para casa. A métis dele possibilitou a invasão e derrota de Troia, mas a única coisa capaz de salvar o casamento e a posição dele é a métis Penélope.
Se não tocasse o fuso da roca a Bela Adormecida continuaria acordada. A história dela depende desse ato. Nem mesmo a destruição de todas as rodas de fiar do reino impedem a realização da maldição. Dela depende não apenas a desgraça da Bela Adormecida e do reino do pai dela, mas a restauração da normalidade quando o Príncipe Valente aparece.
Todos conhecemos essas histórias, mas o mais provável é que a maioria de nós jamais viu ou verá pessoalmente uma roda de fiar. Nós podemos ver fotos de rodas de fiar na internet. Alguns exemplares desses objetos existem em museus, mas ninguém pode dizer que eles desempenham qualquer importância cultural, social ou econômica na atualidade.
As rocas e as atividades femininas ligadas a esses objetos são coisas do passado. Mas as narrativas de Homero (Penélope) e dos irmãos Grimm (Bela Adormecida) seguem sendo apreciadas, comentadas, recontadas, encenadas e recriadas num contexto em que os objetos que dominam a vida cotidiana são os cookies.
Não eu não estou falando das bolachinhas doces crocantes, mas dos dispositivos que são criados para registrar todas nossas atividades on line. Cookies que monitoram a atividade do usuário de internet podem ser criados pelo próprio usuário, pelos websites que ele frequenta ou por terceiros. Em alguns navegadores e websites o usuário pode desativar a produção de cookies. Mas é bem conhecido o escândalo dos cookies zumbis da Verizon, que continuavam ativos mesmo depois de desativados pelos usuários. Essa tecnologia foi ou ainda é utilizada por diversas plataformas de internet (Twitter-X e Facebook incluídos).
Os cookies não têm valor nenhum para os próprios usuários de internet. Mas eles estão no centro de uma indústria que gerou 258,6 bilhões de dólares em lucros no ano de 2024. Esse dinheiro todo, porém, é concentrado nas mãos das empresas de tecnologia. Big Techs que nunca distribuem nada para ninguém, exceto fake news para os usuários tolos e bônus suculentos para os donos delas é claro.
Cookies são usados para monitorar o comportamento de cada usuário de internet a fim de possibilitar a distribuição individualizada de propaganda on line. Mas eles também podem ser utilizados para vigiar usuários de internet por razões políticas e ideológicas. Na fase atual, desde que analisados com outros dados e metadados, os cookies produzidos por usuários de plataformas de internet também podem ser utilizados para fins militares. Os cookies não serão usados para direcionar um míssil, mas podem eventualmente ajudar a orientar a utilização do mesmo pelo militar encarregado de abater um alvo específico levando em conta a probabilidade dele estar num determinado local em um determinado momento.
Como todos nós, em algum momento de suas vidas milhares de palestinos que morreram em Gaza tiveram contato a história da Branca de Neve. Entretanto, conhecer o perigo da maçã envenenada não salvou as vidas deles. De fato, o maior perigo agora são os dados, metadados e cookies que os smartphones, notebooks e tabletes geram em tempo real. Entretanto, ninguém escreve histórias infantis sobre os cookies zumbis, sobre metadados malévolos imperceptíveis ou sobre a bruxa da IA e os anões imorais, gananciosos e malvados que comandam as Big Techs no Vale do Suplício norte-americano. Isso obviamente facilitou a tarefa dos militares sionistas e facilitará o trabalho dos militares de outros países também.
Novas histórias infantis para um novo mundo precisam ser escritas. Contos como A Bela Adormecida, A Branca de Neve e os Sete Anões, etc… foram elaborados com uma finalidade pedagógica num determinado contexto histórico. Na Idade Média a esmagadora maioria das pessoas vivia no campo e tinha que aprender a respeitar e a temer a natureza. Não raro, naquela época nos feudos e terras comunais os filhos dos pobres podiam se tornar vítimas de um sistema de poder caracterizado pela anomia que premiava a perversidade desumana dos poderosos.
No mundo atual as fábulas e contos dos irmãos Grimm (e de outros autores e tradições culturais também, como o Livro das Mil e Uma Noites) não têm muita coisa a ensinar às crianças. Elas correm mais riscos na internet do que nas matas ou manuseando rodas de fiar. Talvez seja necessário reescrever aquelas fábulas e contos antigos Se continuarem a ser consumidos exatamente como foram escritos os contos de fadas não salvarão ninguém e provavelmente ajudarão a causar ignorância e mortes.
As novas histórias infantis devem cumprir uma finalidade pedagógica: ensinar as crianças que os perigos on line existem, que tudo que elas fazem na internet pode ser utilizado contra elas ou contra os pais delas e que ninguém está realmente protegido de cookies maliciosos e eventualmente zumbis. Eles também poderiam ajudar a desenvolver nas crianças a certeza de que a anomia no ciberespaço é tão ou mais perigosa do que aquela que existia no mundo rural medieval. As Big Techs do Vale do Suplício devem ser reguladas inclusive e principalmente porque exploram dados, metadados e cookies para ganhar dinheiro violando sistematicamente as privacidades das crianças e, por via de consequência, dos pais delas.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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