25 de junho de 2026

O preço da desativação da máquina de guerra, por Eliseu Raphael Venturi

Renunciar é aceitar que nossa força não se mede pela queda alheia, mas pela capacidade de sustentar a própria incompletude.
Hannah Höch, Corte com uma faca de cozinha, 1919.

Desativar a máquina da guerra tem seus custos: renúncia ao prazer da vitória, aceitação da frustração e exposição à vulnerabilidade.

A desativação demanda tempo, paciência e risco de mal-entendidos, mas promete uma convivência mais humana e duradoura.

O alto preço pago é pela preservação da vida diante da constante tentação da morte.

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O preço da desativação da máquina de guerra

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por Eliseu Raphael Venturi

Desativar a máquina da guerra não é gratuito. Ao contrário: exige um pedágio alto, um ingresso caro, pago com moedas que raramente queremos entregar. Pois a guerra nos oferece gozo imediato — a certeza de estar do lado certo, a vertigem de aniquilar o inimigo, a embriaguez do espetáculo.

Já a desativação exige o contrário: nos confronta com a lentidão, com a vulnerabilidade, com a falta de garantias. O ingresso é pago naquilo que mais relutamos em perder: a ilusão de vitória definitiva.

O primeiro preço é a renúncia ao gozo do inimigo. Não mais se alimentar do prazer em vê-lo cair, perder, morrer. É caro porque esse gozo é viciante, porque ele nos dá a sensação de sermos fortes, puros, justos. Renunciar a ele é aceitar que nossa força não se mede pela queda alheia, mas pela capacidade de sustentar a própria incompletude.

O segundo preço é a aceitação da frustração. Na guerra, tudo parece resolvido em cores primárias: vitória ou derrota, bem ou mal. A desativação nos devolve às tonalidades cinzentas, às ambiguidades que cansam, à impossibilidade de uma solução total. O ingresso, aqui, é suportar que a convivência é sempre imperfeita, e que a política só se sustenta quando aceita esse imperfeito como condição.

O terceiro preço é a exposição à vulnerabilidade. Enquanto a máquina nos blinda com trincheiras e slogans, desligá-la nos deixa nus: expostos à diferença, ao diálogo, à escuta que pode nos desestabilizar. É o preço de abandonar a couraça bélica e reconhecer que só há política quando aceitamos ser afetados pelo outro.

O quarto preço é o tempo. A guerra é instantânea, imediata, acelera tudo até a exaustão. A desativação é lenta, paciente, exige intervalos, demora, repetição. Paga-se com silêncio, com espera, com o esforço de não responder de imediato ao escândalo. É um ingresso caro para uma sociedade habituada ao consumo instantâneo de conflitos.

O último preço é o risco de ser mal interpretado. Quem não reage pode ser visto como fraco; quem hesita pode ser acusado de covardia; quem escuta pode ser taxado de conivente. A máquina se alimenta dessas acusações, porque precisa que todos entrem em seu circuito. Desativá-la é aceitar o risco de parecer ingênuo, quando na verdade se está exercendo a maturidade mais difícil: a de não revidar.

Mas se o ingresso é caro, o espetáculo que se abre depois é outro: menos estridente, mas mais duradouro; menos excitante, mas mais humano. A desativação não oferece aplausos imediatos, mas a possibilidade de que a convivência resista, de que a linguagem volte a ser palavra e não bala, de que a política recupere algo de sua dignidade perdida.

O preço é alto porque o valor é inestimável: trata-se de nada menos do que preservar a vida contra a tentação permanente da morte.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    24 de novembro de 2025 8:51 am

    Desde os tempos mais remotos, ss guerras genericamente são preliminarmente por razões econômicas. Mesmo na época em que éramos nomades onde não havia o conceito de economia como a entedemos hoje, a guerra travada entre grupos humanos se dava em razão do controle do espaços onde havia melhores recursos de sobrevivência. O resultado desses confrontos terminavam com a derrota de um dos grupos que além da perda do território, os
    sobreviventes eram totalmente eliminados,ocorrendo em alguns casos, que as mulheres e crianças eram poupados e se incorporavam ao grupo (tribo) vencedor. Com o advento da agricultura, que permitiu aumentar a produção de alimentos gerando excedentes que propiciaram que parte da população não precisasse se ocupar diretamente no campo, possibilitou o desenvolvimento daquilo que chamamos de civilização e com esta as guerras passaram a ser de rapinagem, característica que permanece até os dias atuais.

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