O País que Desperdiça Inteligência
por Henrique Morrone
O Brasil tem um talento peculiar: desperdiçar gente.
Não falo apenas da “ralé”, no sentido que Jessé Souza deu ao termo. Falo de uma inteligência difusa, silenciosa, espalhada pelas bordas e frequentemente ignorada. Um potencial que, aos olhos de certa economia, caberia na rubrica asséptica de capital humano, mas que, na prática, permanece esquecido nos interstícios da vida social, nas esquinas tortas do país, onde tantos aprendem cedo demais a não serem vistos.
Há sempre aquele aluno brilhante e inarticulado, confinado a um cômodo empoeirado da existência. Não lhe falta ideia. Falta fluidez. E, por aqui, isso basta.
Em terras tropicais, a forma precede o conteúdo. A fala segura, o gesto calibrado, a frase no tempo certo. Por aqui, isso costuma bastar. Admira-se o articulado com uma devoção curiosa. Basta dizer quase verdades com convicção para que a realidade, por um instante, ceda. E o país, discretamente, perca.
Na economia, isso é ainda mais visível. A nova geração domina os canais de transmissão. Fala melhor, circula mais, ocupa espaços com rapidez. Nem sempre ilumina. Convence.
Não é propriamente novo. O velho já operava sob lógica semelhante. Quem fala bem, permanece. Quem hesita, desaparece.
Em nossa fábrica de apagar gente, os inarticulados são os primeiros da fila. E, nesse movimento silencioso, uma imensidão de inteligências se perde, não por falta de conteúdo, mas por ausência de forma.
O problema, portanto, nunca foi escassez de talento. Foi critério.
Seguimos premiando quem ocupa o palco, não quem sustenta a ideia. Confundimos clareza com profundidade, fluidez com inteligência, segurança com verdade. E assim organizamos um país onde convencer vale mais do que compreender.
Talvez seja esse o nosso desperdício mais caro.
Porque, enquanto a superfície fala, o essencial permanece em silêncio.
Talvez por isso tantas ideias terminem onde começaram.
Em silêncio.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
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