16 de junho de 2026

O homem ao volante do Cadillac, por Henrique Morrone

A inconsistência vira estratégia. A hesitação ganha o nome de prudência. E a covardia, bem, a covardia aprende a se trajar melhor.
Cadillac - Reprodução

O texto reflete sobre a simbologia do homem dirigindo um Cadillac, destacando a legitimidade e o poder associados ao veículo.
Aponta que a estrutura social favorece quem está no “volante do Cadillac”, dificultando o reconhecimento de fraquezas ou hesitações.
Conclui que o problema está no sistema que sustenta essa posição de poder, não no indivíduo ou no carro em si.

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O homem ao volante do Cadillac

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por Henrique Morrone

O homem não era calvo. Isso quase bastava.

Havia ali um certo movimento, não exatamente dos gestos, mas dos cabelos. Uma coreografia peculiar, levemente desencontrada, como se reagisse a ventos imperceptíveis ao toque.

Dirigia um Cadillac moderno, teto solar aberto, como quem já não precisa se proteger de nada.

O curioso é que ninguém pergunta como, e quem, permitiu que ele chegasse ali.

Não se pergunta pelas curvas que não fez, pelos freios que acionou antes da hora, pelas decisões que nunca precisou tomar, e pelas que tomou mal. O carro, nesse caso, cumpre uma função mais precisa. Não apenas transporta. Legitima e amedronta.

Há gestos que desaparecem quando vistos através de vidro fumê.

A inconsistência vira estratégia. A hesitação ganha o nome de prudência. E a covardia, bem, a covardia aprende a se trajar melhor. Um terno alinhado, uma frase de efeito, um inimigo bem escolhido.

E, de repente, o que antes seria reconhecido como fraqueza passa a circular como força.

Não porque tenha mudado de natureza.

Mas porque encontrou o ambiente adequado.

E porque há risco em assumi-la como tal.

Reconhecer o gesto pelo que ele é não é apenas um ato de lucidez. É uma forma de exposição. Quem nomeia rompe o acordo velado que sustenta a cena. E a cena reage.

Não com argumentos.

Mas com isolamento.

Uma sociedade que premia o espetáculo não pode se surpreender quando o espetáculo assume o volante.

O Cadillac não é o prêmio. É o dispositivo.

É ele que permite que certos movimentos passem despercebidos. Que transforma ruído em autoridade. Que protege o gesto vazio com acabamento de luxo.

E talvez seja por isso que é tão difícil reconhecer um chicken out quando ele dirige um Cadillac.

Não é que ele não exista.

É que reconhecê-lo cobra um preço.

Talvez seja isso.

O problema nunca foi o homem.

Nem o Cadillac.

Mas a estrutura que coloca certos vis ao volante do Cadillac.

E, no fim, há sempre um cálculo simples.

Mesmo para um chicken out, ninguém quer colidir com um Cadillac.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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