7 de julho de 2026

O Príncipe Eunuco, por Henrique Morrone

Os jornais saudaram a maturidade. / Alívio pairava no ar. / Finalmente, um príncipe responsável.
Caspar David Friedrich

O príncipe voltou mais obediente e manso, focando em estabilidade e limites para agradar os mercados e a corte.
O reino segue desigual, com fome marginalizada, mas mantém organização e controle financeiro rigoroso.
O príncipe envelheceu, moderando discursos e administrando contenções, sem ameaçar os donos do poder.

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O Príncipe Eunuco

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por Henrique Morrone

Dizem que voltou mais obediente.

Mais manso.

Aprendeu a falar baixo diante dos homens da bufunfa.

O reino comemorou.

Os mercados respiraram.

Os jornais saudaram a maturidade.

Alívio pairava no ar.

Finalmente, um príncipe responsável.

Agora compreendia os limites.

Falava em estabilidade com a serenidade dos que aprenderam a conter a própria vontade.

O reino seguia desigual.

Mas organizado.

As muralhas financeiras não esmaeceriam.

Os salões continuavam iluminados.

E a fome, marginalizada.

Outra carta foi enviada.

Pedia para continuar.

Os homens do mercado a leram como quem reconhece antigos pactos.

Falava em responsabilidade.

Compromisso.

Nenhum excesso seria tolerado.

Nenhum avanço ultrapassaria a corte.

O príncipe atravessava corredores ladeados por intérpretes da prudência.

Todos lhe acariciando a prudência.

Crescer, sim.

Mas sem afrontar.

Distribuir, talvez depois.

Desde que a corte permanecesse intacta.

Às vezes, o príncipe observava o povo ao longe.

Via corpos exauridos carregando marmitas.

Prometia reconstrução.

Entregava acomodação.

O desenho original deveria permanecer reconhecível.

Houve aqueles que chamassem isso de conciliação histórica.

Outros, responsabilidade fiscal.

Os mais tacanhos falavam em realismo.

Mas o reino era incapaz de vislumbrar além de seus limites.

Tudo precisava caber.

O salário.

O investimento.

O futuro.

O príncipe conhecia a pobreza.

Talvez por isso doesse menos observá-la à distância controlada do poder.

Já não prometia ruptura.

Administrava contenções, como poucos.

E era justamente isso que tranquilizava os homens do mercado.

No fundo, admiravam nele a capacidade rara de governar sem deslocar a corte.

O príncipe envelheceu.

Os discursos tornaram-se mais lentos.

Mais moderados.

Ainda era ovacionado nas praças.

Mas algo havia mudado.

Já não ameaçava os donos do reino.

Apenas administrava os limites permitidos pela corte.

E o reino, acostumado à contenção, passou a chamar limitação de responsabilidade.

Até que um dia todos esqueceram que horizontes foram feitos para ser atravessados.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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