Editado dia 11/12/2025 às 15h25 para inclusão de posicionamento da Fictor
Quem assistiu à final da Libertadores deve ter notado o patrocínio estampado na camisa do Palmeiras: Fictor. Poucos sabiam que, por trás da marca vistosa, escondia-se um dos casos mais emblemáticos de engenharia financeira polêmica do mercado brasileiro.
Documentos obtidos com exclusividade revelam como R$ 31 milhões em “ações fantasmas” se transformaram no alicerce contábil de um império financeiro construído sobre papel sem valor — e como esse esquema atravessou órgãos reguladores sem despertar qualquer alarme.
O Nascimento de um Capital Fictício
Em 15 de dezembro de 2021, a empresa ONE OFF INVESTMENT LTDA registrou na Junta Comercial de São Paulo um aumento de capital de R$ 32,9 milhões. Nada de extraordinário, à primeira vista. O problema estava na origem desse dinheiro.
A integralização do capital — comprovação de que o dinheiro declarado realmente existe — foi feita através de “ações preferenciais do Banco do Estado de Santa Catarina (BESC)”.
O detalhe que torna isso absurdo: o BESC deixou de existir como instituição independente em 2008, absorvido pelo Banco do Brasil há mais de 13 anos.
Em 2021, não havia mercado ativo, cotação pública ou qualquer registro que permitisse avaliar essas ações em R$ 30,9 milhões. Era, literalmente, papel sem valor sendo transformado em capital social através de uma canetada.
O contrato social arquivado declarava textualmente: “sendo R$ 30.969.887,02 em ações preferenciais do BESC agora garantido pelo seu sucessor BANCO DO BRASIL”. Uma afirmação sem qualquer lastro comprovável.
Na tipologia do GAFI — organismo intergovernamental que define padrões globais de combate à lavagem de dinheiro — esse tipo de operação é classificado como: “Utilização de ativos não líquidos para capitalizar artificialmente empresas de fachada”.
A ONE OFF INVESTMENT LTDA foi a base para a constituição da holding Fictor, cuja jogada mais ambiciosa foi a proposta de compra do Banco Master. A Fictor, junto com um consórcio que inclui investidores dos Emirados Árabes Unidos, ofereceu um aporte imediato de R$ 3 bilhões como capital novo para reforçar a estrutura do Banco Master.
A Holding Offshore e o Jogo Internacional
A história fica ainda mais complexa em maio de 2024, quando a AQWA Capital Holdings LLC, uma empresa registrada em Delaware (paraiso fiscal nos EUA), assume o controle da estrutura.
Delaware é conhecido como um dos maiores paraísos corporativos do mundo. Empresas registradas lá desfrutam de:
- Sigilo total dos beneficiários finais
- Capital social sem comprovação pública
- Zero obrigação de publicar balanços
- Facilidade extrema para triangulação de recursos
Na prática, a AQWA funciona como uma peça clássica no fluxo de movimentação transnacional: permite que dinheiro captado no Brasil seja deslocado para fora do país e posteriormente reciclado com aparência de investimento internacional legítimo.
O dinheiro sai como “remessa para offshore”, circula por estruturas opacas e retorna como “investimento estrangeiro direto” ou “capital de private equity” — criando uma falsa aparência de recursos limpos e internacionais.
Custos Insustentáveis de Captação
Enquanto montava essa estrutura complexa, a Fictor oferecia ao mercado condições que deveriam ter acendido todos os alertas possíveis.
O esquema de remuneração prometia aos consultores que captassem recursos:
- Até 2,2% ao mês de comissão
- Bônus anual de até 3% sobre a carteira gerida
- Total: aproximadamente 30% ao ano — o equivalente a 200% do CDI
Para efeito de comparação, o Banco Master oferecia 140% do CDI.
Enquanto o caixa vinha dos investidores, a vitrine era montada com patrocínios milionários.
Patrocínios utilizados como selo social:
- Palmeiras → suposto aporte R$ 120 milhões
- Fórmula 1 → publicidade estimada em R$ 200 milhões
- Campanhas com influenciadores do mercado financeiro
Com tais atrativos, segundo fontes do mercado, a empresa já teria cerca de R$ 1,5 bilhão captados, com um fluxo de R$ 200 milhões por mês em novas entradas.
A pergunta que ninguém respondeu: que operação legítima sustenta pagar 200% do CDI em custos de captação?
FictorAgro: A Miragem do Agronegócio
A Fictor se vende ao mercado como uma operação inovadora de agronegócio, fintech de pagamentos, patrocinadora de clube grande e até candidata a player global. Nos bastidores, porém, a engrenagem parece ter bem menos soja e bem mais Excel.
O braço agrícola do grupo, a FictorAgro, apresentava-se como “empresa cerealista com forte experiência em café, soja, milho e sorgo”, alegando movimentar mais de 1 milhão de sacas por mês — o equivalente a R$ 600 milhões anuais.

Para ganhar credibilidade de mercado, a Fictor adquiriu uma empresa de educação desativada cotada na B3 (a Atom) e transformou-a em Fictor Alimentos, focada em proteína animal.
Para justificar a rentabilidade fora da curva, a Fictor se apresenta como comercializadora de grãos, com base operacional em Balsas (MA), uma das regiões mais quentes do agronegócio brasileiro.

Mas, segundo fontes internas, a “base operacional” nada mais é do que uma estrutura do grupo Diagro, que teria vendido apenas naming rights (o direito de pintar os silos com a sua marca) e presença de marca à Fictor. A capacidade operacional efetiva seria irrisória frente ao volume de negócios anunciado — algo próximo de “menos de 0,01% do que eles dizem movimentar”.
O balanço do primeiro trimestre de operação, porém, conta outra história:
- Receita líquida: R$ 31 milhões
- Margem bruta: 1% a 2%
- Prejuízo líquido: R$ 2,3 milhões
- Queima de caixa operacional: R$ 15 milhões
Para contextualizar a gravidade desses números: BRF e JBS, líderes consolidados do setor, operam com margens brutas entre 15% e 22%. A Fictor mal conseguia cobrir seus custos.
A empresa sobrevive graças a um aporte de capital de R$ 70 milhões feito pelos sócios — dinheiro que dava “fôlego” para operar no prejuízo enquanto tentava ganhar escala.
Outro risco crítico: toda a operação dependia de uma planta industrial arrendada da Mellore, empresa em recuperação judicial. A aquisição contempla o ativo “planta frigorífica + estrutura produtiva + habilitação SIF” — mas não necessariamente a totalidade das marcas, operações ou passivos da velha Mellore. Qualquer revés no processo judicial poderia paralisar tudo.
Os produtos suspeitos
Uma das operações extravagantes da Fictor Agro era criar supostos fundos, com dois anos de existência pela frente, e vender participações acionárias aos investidores (conforme documento em anexo).
A lista de irregularidades é ampla:
A análise do contrato com a Fictor Agro identificou graves irregularidades e riscos regulatórios/operacionais, sugerindo que a operação pode configurar uma oferta irregular de valor mobiliário (investment contract) no Brasil, sem a devida proteção ao investidor.
1. Promessa de Rentabilidade Fixa (2,00% Mensal): Sugere promessa de retorno ou garantia de capital, o que é proibido para ofertas não registradas e levanta “red flags” (alertas vermelhos) para esquemas irregulares (Ponzi/pirâmide).
2. Captação Irregular: Aporte feito diretamente em conta corrente da Sócia Ostensiva, sem custódia, conta vinculada ou intermediação de Corretora/DTVM autorizada, elevando o risco de desvio de recursos.
3. Estrutura SCP Frágil: Uso de Sociedade em Conta de Participação (SCP) sem as salvaguardas necessárias (como auditoria e segregação de patrimônio), concentrando poder e risco na Sócia Ostensiva.
4. Cláusulas de “Garantia”: Cláusulas de Put Option e dissolução que preveem a devolução do “Valor do Aporte”, funcionando como uma garantia implícita de capital.
5. Governança Deficiente: Prestação de contas vaga (“quando solicitada”), ausência de auditoria e poderes ilimitados da Ostensiva, facilitando o conflito de interesses (self-dealing).
A Pergunta que Ninguém Quer Responder
Como R$ 31 milhões em “ações fantasmas” de um banco extinto há 13 anos passaram pelo registro público sem qualquer verificação de lastro?
Como uma estrutura que oferece 200% do CDI em remuneração opera sem despertar suspeitas da CVM?
Como uma empresa com margem bruta de 1% consegue atrair milhões em investimentos?
A resposta revela o que pode ser o capítulo mais desmoralizante do mercado de capitais brasileiro: a falência completa dos órgãos reguladores em sua função básica de proteger o investidor.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), criada justamente para fiscalizar o mercado e prevenir fraudes, aparentemente não detectou — ou não agiu — diante de sinais tão evidentes.
Um Sistema que Falhou
O caso Fictor não é apenas sobre uma empresa ou um grupo de executivos. É sobre um sistema de controles que simplesmente não funcionou.
Quando ações de um banco extinto há mais de uma década podem ser usadas para criar R$ 31 milhões em capital social fictício, quando offshores opacas podem assumir controle de estruturas financeiras complexas sem escrutínio real, quando promessas de retorno impossíveis circulam livremente no mercado — algo está profundamente quebrado.
O castelo de cartas desmoronou, como sempre desmorona. Mas a pergunta permanece: quantos investidores perderam suas economias antes que alguém resolvesse olhar com atenção para os papéis que estavam na mesa desde o início?
A Fictor foi consultada antes da reportagem ser publicada, e sua resposta será publicada, assim que for enviada.
POSICIONAMENTO FICTOR
O Grupo Fictor esclarece que:
- Todas as suas operações seguem a legislação brasileira e as normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e demais órgãos regulatórios.
- As sociedades em conta de participação (SCPs) são previstas na legislação brasileira.
- Não houve e não há qualquer irregularidade na condução das atividades do grupo Fictor. Todos os fluxos financeiros são rastreáveis, possuem documentação comprobatória e seguem padrões de governança, compliance e prevenção à lavagem de dinheiro.
- As informações divulgadas não refletem a realidade jurídica ou operacional da Fictor.
- Permanecemos à disposição das autoridades competentes e reforçamos nosso compromisso com a transparência, a integridade e a conformidade regulatória.
Grupo Fictor
EDUARDO RIBEIRO
2 de dezembro de 2025 7:57 amUma informação acessória sobre a fictor alimentos. O assassino confesso do gari Laudemir Fernandes em Belo Horizonte se apresentava como CEO da fictor. Com um currículo recheado de informações pouco confiáveis e desmentidas pelas instituições, foi apelidado de empresário da shopee.
https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2025/08/12/quem-e-o-empresario-suspeito-de-atirar-e-matar-gari-bh.ghtml
Ricardo Sabanae
3 de dezembro de 2025 8:03 amAcho interessante se pudesse investigar o caso BESC, o golpe que o Banco do Brasil deu nos acionistas do BESC na incorporação durante o governo do PT. Hoje quando um juiz vai a fundo no que aconteceu entende a injustiça que fizeram com os acionistas que precisam recorrer judicialmente aos seus direitos.
Alexandre
3 de dezembro de 2025 5:14 pmCVM e Banco Central mais uma vez de suspeita como cúmplice …. Vide banco Master ….vergonha ….
Anônimo
16 de dezembro de 2025 2:08 pmO Gabriel Valentim Machado se ferrou nessa, esconderam o nome dele na página 1 e deixam aparecer nas outras páginas.