Antonio Maria (1921 — 1964) e Dolores Duran (1930 — 1959) se tivessem sido irmãos não seriam tão parecidos. Os dois gostavam de viver mais de noite que de dia, os dois faziam canções, os dois precisavam de amor para respirar, eram puxados pra gordo e, mesmo na hora da morte, os dois foram atingidos por um só inimigo: o coração. A obra que os dois deixaram , hoje espalhada pelos jornais e gravadoras do País, reflete essa indisfarçável identidade. Mas prestando atenção nas coisas que disseram e escreveram e nas músicas que eles fizeram é que a gente descobre a expressão maior dessa semelhança: os dois se refugiavam do absurdo do mundo, que eles revelaram com humor e amargura, na desesperada aventura afetiva. O amor era o último reduto dos dois. A montagem do texto de “Brasileiro Profissão Esperança” se apoia no permanente cruzamento dessas duas vidas, de tal forma que ninguém sabe o que é de Antonio Maria e o que é de Dolores. Uma crônica de Maria vira um dado para explicar a existência de Dolores, assim como uma canção de Dolores exprime e sensibilidade de Maria.
Bibi Ferreira/Paulo Pontes, extraído da contra-capa.
Brasileiro Profissão Esperança
Clara Nunes & Paulo Gracindo
https://www.youtube.com/watch?v=zZjDzSnsDQE
Nilce Oliveira
15 de fevereiro de 2014 11:25 amLinda homenagem, nos deixa o
Linda homenagem, nos deixa o gosto de quero mais… saudades do tempo em que o talendo realmente nos preenchia a alma.
Maria Luisa
15 de fevereiro de 2014 11:30 am“Pais do Futuro”
Brasileiro, Profissão Esperança (Cântico Negro)
Ao remexer nos meus discos, encontrei um CD do qual ainda nem havia tirado o invólucro. Lembrei-me de tê-lo comprado há algum tempo, em São Paulo, se não me engano na Livraria da Vila, num impulso de emoção e nostalgia. Já o tivera antes, quando do lançamento, num velho e bom LP, que acabei perdendo (provavelmente emprestei a alguém, que não me devolveu).
Trata-se da gravação ao vivo do espetáculo Brasileiro, Profissão Esperança, escrito ou organizado por Paulo Pontes, em sua segunda montagem, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, e direção de Bibi Ferreira, que fez à época (1974) um sucesso estrondoso no Canecão.
Dolores Duran e Antônio Maria são as personagens do show musical e através deles, de suas músicas e textos, somos levados a vida boêmia do Rio de Janeiro, na década dos anos 50. Ao que consta, Dolores e Maria sequer se conheceram, mas têm muito em comum, na paixão de viver, no horror à solidão, na busca incessante do amor, no gosto pela noite e pela bebida. Só poderiam morrer da mesma forma, fulminados pelo coração desmedido.
Antonio Maria foi casado com Danuza Leão, que se queixa de ter sofrido muito com o temperamento e o ciúme dele. Ela deixou Samuel Wainer, fundador, entre outros, do jornal Última Hora, para viver com Antonio Maria, então simples cronista do jornal do ex-marido.
Dolores Duran, bem morena e rechonchuda, era adorada pelos amigos e músicos da noite, apaixonava-se muito, namorava, mas sempre foi muito infeliz no amor.
Sobre ambos, posso contar dois episódios que cada um protagonizou com Vinicius de Moraes, que não são inéditos, mas que ouvi relatado com o sabor e a verve do próprio poetinha, e bem demonstram o seu jeito de ser e a sua generosidade.
Certa feita, Vinicius e Antonio Maria voltavam para casa pela orla do Rio de Janeiro, num carro conversível do segundo, quando o dia já amanhecia. Estacionaram o automóvel defronte da praia de Copacabana e ficaram a ver ao longe um grupo de velhinhos, já então adeptos do estilo de vida saudável, que resfolegavam e balançavam as carnes flácidas na ginástica à beira mar.
Antonio Maria encara o companheiro e o conclama:
— Poesia (era assim que tratava Vinicius)!
— Fala meu Maria (era assim que Vinicius tratava o “Menino Grande”)
— Vamos fazer aqui e agora um pacto definitivo: jamais faremos qualquer esforço físico desnecessário durante toda a vida!
Cumpriram religiosamente o prometido.
Em relação à Dolores Duran, a linda música que veio a se chamar Por Causa de Você, e se tornou um clássico, fora composta por Antonio Carlos Jobim para Vinicius colocar a letra. Ao ouvir a melodia executado pelo mestre Tom e com ela se encantar, Dolores apanhou um guardanapo e de enfiada escreveu a letra, que caiu como uma luva. Alguns dias depois, Vinicius reencontrou-se com Jobim, trazendo a letra já pronta anotada num papelucho guardado no bolso. Soube então pelo constrangido parceiro da letra feita, atropeladamente, por Dolores. Quis ouvi-la e ao final, rasgou a sua própria letra, sem mostrá-la ao Tom e disse:
— Fica com a da menina.
Reouvir agora o disco e reviver o espetáculo foi uma verdadeira delícia. Como sempre o trabalho de Paulo Pontes é meticuloso e exato, mesclando as músicas e os textos de cada qual, de modo a estabelecer um diálogo entre eles que vai num crescendo arrebatador.
Não obstante, lá pelas tantas, de um modo aparentemente desconexo, introduz numa fala de Paulo Gracindo o poema Cântico Negro, do poeta português José Régio. Mas quando Gracindo começa a dizê-lo, entendemos o porquê. O espetáculo até então se desenrola com destaque para as canções interpretadas magnificamente por Clara Nunes, apenas pontuadas por algumas intervenções sempre bem colocadas, mas breves, de Gracindo. É chegada então a hora do grande mestre fulgurar com a força do poema.
Já anotei que tenho restrições à maioria dos atores ou atrizes que se põem a declamar poemas, buscando encarnar uma personagem que não existe. A personagem é o próprio poema a ser dito (também não gosto dos termos “declamar” ou “recitar”, que me remetem às menininhas faceiras da “Batatinha quando nasce…”) no seu ritmo e na sua emoção próprios. Paulo Gracindo faz isso com destreza ímpar.
O poema Cântico Negro foi um dos primeiros que me levaram a um paroxismo de emoção, quando ainda ginasiano, em São Joaquim da Barra, ouvi-o ser dito por outro grande e inesquecível ator, Sérgio Cardoso. Tenho, ainda, uma gravação que adoro do poema, na voz do português João Vilaret, com a pronúncia típica lusitana. De tanto ouvir esses mestres, ouso afirmar, sem falsa modéstia, que digo o poema com alguma competência, melhor do que muita gente.
Pretendendo trascrevê-lo aqui, lembrei-me de que constava de um antigo livro sobre literatura portuguesa, de autoria de Massaud Moisés, de que me utilizava na escola e que guardo com carinho. Fui apanhá-lo na estante e outra emoção me apanhou. Havia me esquecido que o livro me fora presenteado pelo meu avô materno, figura encantadora, inteligente e autodidata, sobre quem ainda preciso escrever neste blog. Eis a dedicatória que ele me fez, mantidas a grafia e a formatação originais:
Ao meu querido neto,
of. esta magnífica obra
para que n’um futuro
não muito distante, adquira
uma bôa cultura, tão bôa, quanto a deste
admirável autor.
Com as bênçãos do
vovô
Tufy
15/5/967
Cântico Negro
Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio (pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira)
joao
16 de fevereiro de 2014 1:02 amMaria Luiza
quantas coisas bonitas saiu!!!
Partiu com o “Pais do Futuro”
vou terminar: Esperanças
A caixa de Pandora
A mulher ainda não havia sido criada e Zeus estava furioso com Prometeu por ter concedido aos homens o fogo. Esse é ponto inicial do mito de Pandora.
http://sobremitos.blogspot.com/2010/06/caixa-de-pandora.html
http://patricianader.blogspot.com/
Maria Luisa
16 de fevereiro de 2014 11:06 amEh…
Referência a Stefan Zweig, claro. Gosto muito da mitologia grega. Outro dia estava lendo Phedra de Racine e sua tragédia de paixão proibida pelo enteado…. Agora, eu diria que de Pandora todo mundo pode ter um pouco. Homens e mulheres, eis a nossa tragédia, além de nosso destino comum.
Abraços.
ps: Eis ai o link do texto sobre Antonio Maria, que esqueci de colocar ontem.
http://estrelabinaria.com/2009/03/28/brasileiro-profissao-esperanca-cantico-negro/
Renato Sergio Alves
15 de fevereiro de 2014 11:35 amSem dúvida alguma é uma das
Sem dúvida alguma é uma das coisas mais lintada que ja ouvi.
lucianohortencio
15 de fevereiro de 2014 3:20 pmBibi e Gracindo Jr.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=sZ3SLc1tXJw%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=AW37z0kOTWA%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=kYmRbf_0N4Q%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=-fyPTU5sN8c%5D
[video:https://www.youtube.com/watch?v=vu4Cpcgq6pw%5D
lenita
15 de fevereiro de 2014 7:22 pmM A R A V I L H O S O ,
M A R A V I L H O S O , embora tristes.
Obrigado ao João e Luciano por estes oásis.
Alex Acioli
17 de setembro de 2014 5:49 pmBrasileiro, Profissão Esperança
Nesse mês de setembro de 2014 comemora-se quarenta anos dessa maravilhosa remontagem.
Paulo Gracindo e Clara Nunes foram dois grandes e brilhantes artistas de nosso país.
Saudade deles.