21 de junho de 2026

Hipertrofia Nacional e Metabolismo Interrompido, por Henrique Morrone

Passou a consumir calorias vazias — importações baratas, desindustrialização precoce, cadeias produtivas desmontadas.
Arte Urbana

Articulistas liberais dizem que Brasil cresceu por incentivos estatais, mas autor nega essa visão simplista. O Estado treinou a economia com políticas industriais, crédito e metas tecnológicas, não apenas “dopou” o país. Plano Real estabilizou inflação, mas interrompeu investimento e coordenação industrial, causando desindustrialização.

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Hipertrofia Nacional e Metabolismo Interrompido

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por Henrique Morrone

Prevalece, entre articulistas liberais, a narrativa segundo a qual o Brasil só cresceu porque foi “dopado” pelo Estado e, tão logo cessaram os incentivos, revelou um corpo flácido, incapaz de sustentar o próprio peso — como um atleta que só prospera à base de anabolizantes.

A história é sedutora. E falsa.

O Estado brasileiro não dopou o organismo nacional; treinou-o. Houve rotina, coordenação, política industrial, crédito direcionado, metas tecnológicas e densidade produtiva. Falhas ocorreram, é claro — mas crescemos porque havia método, disciplina e musculatura, não porque existia um atalho químico.

Quando o treinador foi retirado sob a promessa de que o “mercado” conduziria o aquecimento, a dieta e o descanso, o país não revelou autonomia: sedentarizou-se. Passou a consumir calorias vazias — importações baratas, desindustrialização precoce, cadeias produtivas desmontadas. O corpo perdeu força antes de perder peso e, sem treino, confundiu gordura com ganho, consumo com desenvolvimento, estabilização nominal com prosperidade real.

Não se retira o instrutor quando os músculos começam a responder — sob pena de perder justamente aquilo que se conquistou.

Foi exatamente isso que o Plano Real representou: para arrefecer a inflação, o instrutor foi gentilmente convidado a deixar o ginásio. Controlou-se a febre, mas interrompeu-se o metabolismo: a estabilização veio acompanhada da descontinuação do projeto produtivo, da coordenação industrial e do investimento de longo prazo.

O paradoxo salta aos olhos: vencemos a temperatura, mas sacrificamos o regime de treinamento. O organismo sobreviveu, mas sem vigor; estabilizou-se, mas sem densidade; envelheceu antes de reconstituir músculo. A inflação foi domada, mas o país perdeu fôlego tecnológico, substituiu complexidade por importação fácil e tornou seu metabolismo lento, defensivo, quase letárgico.

Não se trata, agora, de recorrer a esteroides — nem de romantizar tutela permanente. Trata-se de retomar o treino: reconstruir fibra, recalibrar o metabolismo, recuperar força industrial, inovação e investimento público coordenado. Rotina, disciplina e projeto são necessários.

O Brasil não precisa de anabolizantes.
Precisa de programa.
E, desta vez, de um treinador que não abandone o aluno antes que a musculatura termine de crescer.

Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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