4 de junho de 2026

Bial e a adversativa, por Vinícius Fernandes da Silva

Estou falando da entrevista concedida por Pedro Bial a Marcelo Tas, entrevistador do programa Provoca, da TV Cultura
Foto de Ana Paula Santos - Acervo TV Cultura

Pedro Bial, jornalista do Grupo Globo, destacou-se no Jornalismo e no entretenimento, incluindo o BBB e entrevistas na TV aberta.
Bial concedeu entrevista a Marcelo Tas, abordando polêmicas do Grupo Globo e usando a conjunção adversativa “mas” para contextualizar críticas.
Ele reconheceu erros da Globo, como atraso nas Diretas Já e edição do debate Lula x Collor, mas apresentou justificativas para tais ações.

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Bial e a adversativa

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por Vinícius Fernandes da Silva

Pedro Bial consolidou-se como um dos principais jornalistas do Brasil, desenvolvendo praticamente toda a sua carreira em conjunto com o Grupo Globo. É difícil que alguém da minha idade e geração (40 e muitos) não se lembre de Bial em frente ao Muro de Berlim, mostrando seu esfacelamento ao vivo, prenúncio da posterior desintegração da União Soviética.

Com o passar do tempo, Bial transfigurou-se, com sucesso, na cara do BBB, reality show de maior audiência da TV brasileira. Com carisma, bom desempenho ao vivo e textos emocionais que faziam sucesso junto à massa, também gravou seu nome no entretenimento popular.

Com a morte de Jô Soares, assumiu o papel de principal entrevistador “adulto” da TV aberta brasileira. Muitos outros bons entrevistadores surgiram, mas quase sempre pautados no humor ou em canais por assinatura, com audiência menor e mais segmentada. Além disso, Pedro Bial constituiu-se como um produtor de documentários bem-sucedidos. De alguma forma, a história de Pedro Bial e da Rede Globo de Televisão se misturam e dialogam, e isso o jornalista/apresentador/produtor sempre deixa claro, evidenciando-o com orgulho.

Porém, as polêmicas do Grupo Globo — e do próprio Bial — sempre apareceram um tanto escamoteadas no debate público. Sabemos que há reiteradas críticas que navegam da extrema direita à esquerda, perpassando todas as gradações políticas no Brasil. Neste país, um grande amor é odiar a Globo para depois amá-la novamente. Algumas dessas críticas são espantalhos criados com clara intenção política; outras, nem tanto.

O mais interessante é perceber que, nessas críticas, há uma instituição historicamente mais blindada e opaca do que todas as outras. Não, não é a Presidência da República (já tivemos presidentes processados, presos e condenados), nem o Congresso Nacional (prisões e condenações idem), nem a Igreja Católica ou as igrejas evangélicas (muitas matérias e denúncias já foram feitas contra padres, pastores e afins). Portanto, enfim… é ela: a maior instituição não arguida de nossa história recente, a Vênus Platinada. A regra parece ser: não pergunte, não fale muito sobre e, principalmente, não investigue; mas, se investigar… abafe! Ninguém quer problemas com a família Marinho, não é mesmo?

Portanto, é raro — raríssimo — ver o Grupo Globo fazer algo que tanto pregou em não tão poucos idos tempos atrás: a tal da… autocrítica! Tenho a sensação de que chegar a uma redação da casa e perguntar “Mas e a Vaza Jato?” pode gerar silêncios homéricos, expulsões raivosas ou… nada disso. Vai saber?

Também é raro, muito raro, ver a Globo, ou figuras históricas da emissora, falando da… Globo. Portanto, quando esses raros eventos acontecem, acredito que devemos prestar atenção.

Estou falando da entrevista concedida por Pedro Bial a Marcelo Tas, entrevistador do programa Provoca, da TV Cultura, que substituiu o Provocações do saudoso Antônio Abujamra, exibida no dia 23/12/25, às 22h.

Bial não fugiu das perguntas polêmicas envolvendo ele próprio e o Grupo Globo. De certa forma, reiterou respostas já conhecidas do público em geral, mas algo me chamou muito a atenção nessa entrevista: o uso recorrente e interessante de uma ferramenta gramatical da língua portuguesa − a conjunção adversativa. Ele não se furtou a responder nenhuma pergunta, mas todas as respostas referentes às polêmicas apresentadas foram acrescidas de um MAS (literal ou simbólico) imediatamente após a contundência da primeira afirmação. Vejamos algumas dessas perguntas e respostas.

“TAS: — Você, que entrevistou Lula algumas vezes, o que gostaria de saber dele hoje?
BIAL: — (…) Queria aproveitar aqui e dizer que eu me arrependo de ter feito uma piada sobre o Lula, da qual ele ficou muito magoado. AO MESMO TEMPO (grifo nosso), assim como eu me arrependo, acho que ele tinha que deixar de ficar guardando mágoa dos outros, porque ele sabe muito bem perdoar quando interessa a ele.”

Em outro momento, Tas pergunta sobre a cobertura da Rede Globo de Televisão em relação às Diretas Já:

“TAS: — Qual foi a pior pisada na bola da Globo?
BIAL: — Da Globo? Eu acho que o atraso em entrar na campanha das Diretas foi uma pisada na bola, MAS (grifo nosso) foi compreensível, no sentido de que Roberto Marinho era muito identificado com aquele regime e estava, sim, sob pressões. O próprio regime era dividido quanto à velocidade de uma abertura. Então, dá para entender, inclusive se você fizer um contraste com a Folha [de S. Paulo], porque a Folha não fez a cobertura da campanha; ela fez a campanha.”

A última polêmica: Tas pergunta sobre a edição do debate entre Collor e Lula, em 1989. Bial responde:

“— O outro caso no jornalismo, famoso, é o da edição do debate entre Collor e Lula, que é uma história muito feia, mal contada, MAS (grifo nosso) que também teria atenuantes. Nunca se tinha feito um debate no Brasil, e ninguém se atentou para o fato de que não dá para editar um debate (…) qualquer edição vai ser suspeita.”

Portanto, farei um pequeno exercício de interpretação e análise sobre a forma como Bial se apresenta diante das polêmicas e responde a seus atos e aos de sua casa, o Grupo Globo. Para Bial, ele e a Globo erram, sim, MAS…

Ele produziu uma fala preconceituosa e debochada em relação a Lula em um programa que claramente odiava e debochava, dia sim e dia também, do atual presidente? Sim. MAS… Lula é muito rancoroso por não perdoá-lo, até porque Lula perdoa muitas pessoas, menos ele. Ainda bem que, provavelmente, na Globo todos falam a verdade, inclusive ele, Bial, e certamente Roberto Marinho também.

A Globo demorou muito a entrar na cobertura das Diretas Já porque Roberto Marinho era muito ligado à ditadura, ufa, isso ele falou, MAS a Folha não fez a cobertura da campanha, e sim a própria campanha contra um regime que matou milhares de pessoas, escondeu corpos, perseguiu, censurou e cassou estudantes, intelectuais, artistas e políticos. Inclusive, a própria Folha emprestou seus carros à ditadura em ações da Operação Bandeirantes. Deu uma guinada em meados dos anos 1980, inclusive aproveitando a popularidade do tema, e mudou seu posicionamento para pró-democracia. Para a Globo, segundo Bial, foi um movimento muito audaz. Ok? Ok.

Por fim, o debate Lula x Collor, em 1989. Desse é difícil fugir, até porque Boni já fez sua mea culpa (na verdade, culpa total) pela edição reconhecidamente tendenciosa do famoso debate. MAS, para Bial, há que se descontar o fato de que era a primeira vez que se fazia um debate naqueles moldes no Brasil e que qualquer edição é parcial. Naquele caso, por acaso, foi tendenciosa a Collor.

Algo que considero muito interessante, e que ninguém nunca perguntou a Bial ou a representantes da Globo, é o seguinte: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, tinha poder para editar o debate eleitoral mais importante dos últimos 25 anos do país, naquele momento, sem consultar ou pedir autorização ao dono da emissora, Roberto Marinho?

Um dia, acredito, Pedro Bial possa responder a essa pergunta, MAS…


Vinícius Fernandes da Silva – Pós-doutorando em Comunicação pela UFBA. Doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ. Mestre em Sociologia e Antropologia pelo IFCS/UFRJ. Bacharel e licenciado pelo IFCS/UFRJ. Professor do Colégio Pedro II/RJ. Escritor e coordenador do Vivências Periféricas no Instagram, TikTok e Substack.

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  1. MARCELLO ALENCAR DE ARAUJO

    25 de dezembro de 2025 10:47 am

    Excelente, Vinicius! Sem pedir desculpas – diz se arrepender apenas após nova posse do Lula (não se arrependeu antes) – aponta para necessidade do gesto de outra pessoa! A Globo (ok, vou ser acusado de extremista de esquerda ou de direita) sempre criticou acordos/ajustes/contratos com pessoas ou grupos criminosos de qualquer tipo e nunca se negou em negociar com a Ligação das Escolas de Samba ( acho que esse é o nome) comandada por pelo Capitão Guimarães, por exemplo.

  2. CONRADO FRANCISCO PAULINO

    25 de dezembro de 2025 1:23 pm

    Como diz o ( excelente) texto, “Bial se tornou um dos principais jornalistas do pais…” Isso é lamentável para o jornalismo brasileiro, o graande Dimes deve estar se virando no tumulo… o Bial do comentário maldoso sobre Lula ( disse que só entrevistaria o Lula se tivesse um detetor de mentiras…acho imperdoável e, na ocasião, foi um gesto oportunista, desonesto, surfou com grande desonestidade intelectual na onda do antipetismo doentio) ( aliás, faltou contar literalmente para o leitor esse comentário) Como ter respeito por um jornalista ( com pretensões de escritor) q vira apresentador do programa mais apelativo, alienante e de baixo nivel da tv? E como aturar os textos piegas e primarios que ele faz para apresentar seus entrevistados? Bom, já ficou claro o que penso sobre esse jornalista… temos representantes muito melhores, com estofo e estatura intelectual incomparáveis,mas… na música acontece a mesma coisa, os melhores são desconhecidos do grande publico, que consome o q o mainstream vende…

  3. AMBAR

    27 de dezembro de 2025 4:13 pm

    Quero parabenizar o articulista pela capacidade autêntica de ver tantas maravilhas no Pedro Bial que, quase nunca vejo, e não é por ódio à globo, é pela indisfarçável inutilidade do referido repórter. Quero crer que o feito mais memorável do cidadão foi ter destruído a via de Giulia Gam, com quem foi casado certa feita. Como nada me convida a ver o que ele faz, de longe ele me parece arrogante e presunçoso. De caráter duvidoso e moral relativa , o nosso Bial pretende que Lula o perdoe sem que ele, o Bial se arrependa. Parece assim, que perdão é mais uma “licença pra sacanear de novo”; seria mais ou menos como a anistia pretendida pelos bolsonarentos.
    Desculpe aí, mas o Bial é a cara da Globo.

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