5 de junho de 2026

A Cigarra, a Formiga e o Ajuste que Nunca Envelhece, por Henrique Morrone

Enquanto a fábula se ajustava ao mundo real, a teoria do ajuste fiscal permaneceu intacta, ensinada com a mesma solenidade de sempre.
Reprodução

A fábula da cigarra e da formiga envelheceu, mas a teoria do ajuste fiscal permanece inalterada e rígida.
Cortes e austeridade fiscal aprofundam crises, retirando recursos e agravando o “inverno” econômico.
A teoria do ajuste fiscal é vista como dogma, ignorando lições econômicas e a necessidade de atualização.

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A Cigarra, a Formiga e o Ajuste que Nunca Envelhece

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por Henrique Morrone

A fábula da cigarra e da formiga envelheceu melhor do que a teoria do ajuste fiscal.
Isso não é pouca coisa.

Durante décadas, contaram às crianças a história da formiga laboriosa e previdente — e da cigarra leviana, cantora, condenada ao frio por sua própria escolha. Era uma pedagogia moral da escassez: quem canta paga, quem poupa sobrevive. O inverno, nessa narrativa, não era estação — era juízo final.

Com o tempo, alguém percebeu que havia algo errado ali. Não na música, mas na moral. Vieram as versões corrigidas: a formiga que aprende a dividir, a cigarra que contribui com sua arte, a comunidade que entende que o inverno não é castigo, é circunstância. A fábula amadureceu. Como quase tudo que sofre a ação do tempo — exceto algumas ideias econômicas.

Na versão original, a cigarra morria de frio. Na revisada, ela ensina, canta, aquece o espírito coletivo, faz a economia girar. Na contemporânea, talvez organize um festival para arrecadar mantimentos. O mundo infantil seguiu adiante. A macroeconomia, não.

Enquanto a fábula se ajustava ao mundo real, a teoria do ajuste fiscal permaneceu intacta, ensinada com a mesma solenidade de sempre. Como se o inverno fosse escolha individual. Como se a escassez fabricada fosse virtude. Como se cantar fosse pecado.

E isso apesar de tudo.

Apesar de Keynes ter explicado que, em tempos de frio, cortar gasto aprofunda o inverno. Apesar de Kalecki ter mostrado que o investimento responde a expectativas e poder, não à virtude moral. Apesar de Minsky ter alertado que, em economias financeirizadas, a austeridade amplia a instabilidade. E apesar de 2008 — quando o mundo testemunhou o colapso produzido justamente pela fé no mercado e na sua suposta autorregulação.

Nada disso bastou para atualizar a fábula econômica.

A formiga fiscal — de planilha em punho — continua repetindo o mantra: é preciso cortar antes que falte, poupar antes de viver, sofrer agora para viver depois. O inverno, diz ela, é inevitável. E curioso: ele sempre surge quando a cigarra aparece.

Mas o inverno macroeconômico tem uma peculiaridade: ele é frequentemente produzido pelas próprias formigas.

Ao cortar gastos, reduzem o calor da aldeia. Ao poupar em excesso, retiram alimento do fluxo. Ao impor silêncio à cigarra, transformam a praça em deserto. Depois, observam o frio e o tomam como prova de que estavam certas desde o início — numa profecia autorrealizável.

A cigarra, por sua vez, nunca foi apenas cantora. Ela movimenta, conecta, aquece. Sua música é renda circulando, é encontro, é demanda. Mas isso raramente entra na fábula econômica oficial. Ali, cantar é gasto improdutivo. Dançar é irresponsabilidade. Viver é risco.

Curiosamente, até as crianças já aprenderam que essa história não se sustenta sozinha.

Hoje, poucos aceitam uma fábula em que a virtude consiste em negar o presente em nome de um futuro incerto, sempre adiado. As versões modernas entendem que o trabalho não é só acumular, que a vida não cabe numa despensa, que sobreviver não é o mesmo que viver.

Na economia, porém, seguimos contando a versão antiga — e exigindo que todos, passivamente, acreditem nela.

Chamamos de responsabilidade o que é privação. De prudência, o medo. De maturidade, a recusa ao crescimento. A cigarra econômica — investimento, gasto social, política pública, arte, ciência — é sempre convidada a cantar mais baixo. Não agora. Não é o momento. Espere passar o inverno. Só que o inverno não passa.

Talvez a razão pela qual a ideia do ajuste fiscal nunca envelheça seja mais simples — e mais literária. Ela se comporta como Dorian Gray. Permanece jovem e austera no discurso, enquanto seus efeitos reais — o frio, o desemprego, o encolhimento da aldeia — envelhecem em silêncio, trancados numa pintura econômica. O desgaste nunca aparece na teoria; aparece ali. E enquanto ninguém ousar abrir a porta, a ideia seguirá intacta.

A formiga fiscal garante que depois do sacrifício vem a abastança. Ela diz isso há décadas. E, a cada promessa descumprida, propõe um ajuste extra, mais um silêncio, mais um corte fino. A aldeia encolhe, mas a pintura econômica permanece fora de vista.

Talvez o problema não esteja na cigarra. Nem mesmo na formiga. Talvez esteja na insistência em tratar uma fábula como teoria — e uma teoria como dogma.

As fábulas infantis aprenderam algo essencial: histórias também precisam crescer. Precisam ser revisitadas, corrigidas, contextualizadas. Não para perder sentido, mas para não virar superstição.

A teoria do ajuste fiscal, ao contrário, permanece jovem demais para envelhecer. Presa a uma infância moralizante, continua vendo na escassez uma virtude e na música uma ameaça. Continua achando que o frio ensina. Continua punindo a cigarra para educar o mundo.

Talvez o verdadeiro gesto de maturidade econômica não seja mais um ajuste.
Talvez seja localizar a pintura econômica —
e, enfim, destruí-la.

Henrique Morrone é professor associado da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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3 Comentários
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  1. AMBAR

    29 de dezembro de 2025 1:57 pm

    Convenhamos que enquanto fábula “A cigarra e a formiga” aplicava-se às circunstância e local onde foi escrita: todo um hemisfério, onde países com clima definido, estações bem marcadas e períodos cuja dificuldade ameaçava a sobrevivência de todos, a cigarra era só uma criatura hedonista e perdulária com curto tempo de vida. Ser formiga era imprescindível à sobrevivência daquela sociedade enquanto a cigarra era um fenômeno sazonal.
    Mas, convenhamos, num país onde o tempo é sempre ameno e desfrutável, levar vida de formiga é antinatural e maçante. Num clima desses a cigarra se fortalece, se diverte, procria e organiza as formigas pra garantir-lhe uma vida luxuosa e despreocupada, como sói acontecer às cigarras. O golpe, o enriquecimento à custa do trabalho dos outros, o sacrifício do futuro da formiga trabalhadora e o furto de suas economias pela cigarra, é a consequência lógica do clima que a sustenta. O Brasil foi feito pra ser roubado, assim a história nos conta.
    E por mais que pensemos num equilíbrio para essa convivência, a formiga pobre se encanta em sustentar os luxos da cigarra.
    Aqui a formiga também é hedonista. Que lhe importa se não tem mantimentos para armazenar ou anda pelos caminhos esburacados se ela pode assistir ao show da Madona de graça.

  2. Lauro

    29 de dezembro de 2025 3:33 pm

    Maravilhosa a sua colocação, a própria temporalidade ja é a inimiga da moral, Aristóteles já disse isso . porém a ética é á temporal e se renova com o tempo ,Não existe democracia sem ética . Espero Que os jovens sejam educados e a educação mude a cabeça deles .

  3. D

    30 de dezembro de 2025 6:18 am

    Hoje a cigarra abriu várias armadilhas para viver das formigas. Governos para cobrar impostos das formigas e depois distribuir a empresas de fachada em contratos duvidosos, bancos para cobrar juros altíssimos para as formigas de menos sorte, pôs veneno na comida e depois vende remedios caríssimos que nao curam, apenas amenizam e as formigas passam a tomar a vida toda e as convenceu que não dá pra curtir o inverno sem se endividar com vários eletrônicos no formigueiro. Se alguma formiga se revolta, tem os grilos pra prender e as baratas para mandar para a cadeia.

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