A Cigarra, a Formiga e o Ajuste que Nunca Envelhece
por Henrique Morrone
A fábula da cigarra e da formiga envelheceu melhor do que a teoria do ajuste fiscal.
Isso não é pouca coisa.
Durante décadas, contaram às crianças a história da formiga laboriosa e previdente — e da cigarra leviana, cantora, condenada ao frio por sua própria escolha. Era uma pedagogia moral da escassez: quem canta paga, quem poupa sobrevive. O inverno, nessa narrativa, não era estação — era juízo final.
Com o tempo, alguém percebeu que havia algo errado ali. Não na música, mas na moral. Vieram as versões corrigidas: a formiga que aprende a dividir, a cigarra que contribui com sua arte, a comunidade que entende que o inverno não é castigo, é circunstância. A fábula amadureceu. Como quase tudo que sofre a ação do tempo — exceto algumas ideias econômicas.
Na versão original, a cigarra morria de frio. Na revisada, ela ensina, canta, aquece o espírito coletivo, faz a economia girar. Na contemporânea, talvez organize um festival para arrecadar mantimentos. O mundo infantil seguiu adiante. A macroeconomia, não.
Enquanto a fábula se ajustava ao mundo real, a teoria do ajuste fiscal permaneceu intacta, ensinada com a mesma solenidade de sempre. Como se o inverno fosse escolha individual. Como se a escassez fabricada fosse virtude. Como se cantar fosse pecado.
E isso apesar de tudo.
Apesar de Keynes ter explicado que, em tempos de frio, cortar gasto aprofunda o inverno. Apesar de Kalecki ter mostrado que o investimento responde a expectativas e poder, não à virtude moral. Apesar de Minsky ter alertado que, em economias financeirizadas, a austeridade amplia a instabilidade. E apesar de 2008 — quando o mundo testemunhou o colapso produzido justamente pela fé no mercado e na sua suposta autorregulação.
Nada disso bastou para atualizar a fábula econômica.
A formiga fiscal — de planilha em punho — continua repetindo o mantra: é preciso cortar antes que falte, poupar antes de viver, sofrer agora para viver depois. O inverno, diz ela, é inevitável. E curioso: ele sempre surge quando a cigarra aparece.
Mas o inverno macroeconômico tem uma peculiaridade: ele é frequentemente produzido pelas próprias formigas.
Ao cortar gastos, reduzem o calor da aldeia. Ao poupar em excesso, retiram alimento do fluxo. Ao impor silêncio à cigarra, transformam a praça em deserto. Depois, observam o frio e o tomam como prova de que estavam certas desde o início — numa profecia autorrealizável.
A cigarra, por sua vez, nunca foi apenas cantora. Ela movimenta, conecta, aquece. Sua música é renda circulando, é encontro, é demanda. Mas isso raramente entra na fábula econômica oficial. Ali, cantar é gasto improdutivo. Dançar é irresponsabilidade. Viver é risco.
Curiosamente, até as crianças já aprenderam que essa história não se sustenta sozinha.
Hoje, poucos aceitam uma fábula em que a virtude consiste em negar o presente em nome de um futuro incerto, sempre adiado. As versões modernas entendem que o trabalho não é só acumular, que a vida não cabe numa despensa, que sobreviver não é o mesmo que viver.
Na economia, porém, seguimos contando a versão antiga — e exigindo que todos, passivamente, acreditem nela.
Chamamos de responsabilidade o que é privação. De prudência, o medo. De maturidade, a recusa ao crescimento. A cigarra econômica — investimento, gasto social, política pública, arte, ciência — é sempre convidada a cantar mais baixo. Não agora. Não é o momento. Espere passar o inverno. Só que o inverno não passa.
Talvez a razão pela qual a ideia do ajuste fiscal nunca envelheça seja mais simples — e mais literária. Ela se comporta como Dorian Gray. Permanece jovem e austera no discurso, enquanto seus efeitos reais — o frio, o desemprego, o encolhimento da aldeia — envelhecem em silêncio, trancados numa pintura econômica. O desgaste nunca aparece na teoria; aparece ali. E enquanto ninguém ousar abrir a porta, a ideia seguirá intacta.
A formiga fiscal garante que depois do sacrifício vem a abastança. Ela diz isso há décadas. E, a cada promessa descumprida, propõe um ajuste extra, mais um silêncio, mais um corte fino. A aldeia encolhe, mas a pintura econômica permanece fora de vista.
Talvez o problema não esteja na cigarra. Nem mesmo na formiga. Talvez esteja na insistência em tratar uma fábula como teoria — e uma teoria como dogma.
As fábulas infantis aprenderam algo essencial: histórias também precisam crescer. Precisam ser revisitadas, corrigidas, contextualizadas. Não para perder sentido, mas para não virar superstição.
A teoria do ajuste fiscal, ao contrário, permanece jovem demais para envelhecer. Presa a uma infância moralizante, continua vendo na escassez uma virtude e na música uma ameaça. Continua achando que o frio ensina. Continua punindo a cigarra para educar o mundo.
Talvez o verdadeiro gesto de maturidade econômica não seja mais um ajuste.
Talvez seja localizar a pintura econômica —
e, enfim, destruí-la.
Henrique Morrone é professor associado da UFRGS.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
AMBAR
29 de dezembro de 2025 1:57 pmConvenhamos que enquanto fábula “A cigarra e a formiga” aplicava-se às circunstância e local onde foi escrita: todo um hemisfério, onde países com clima definido, estações bem marcadas e períodos cuja dificuldade ameaçava a sobrevivência de todos, a cigarra era só uma criatura hedonista e perdulária com curto tempo de vida. Ser formiga era imprescindível à sobrevivência daquela sociedade enquanto a cigarra era um fenômeno sazonal.
Mas, convenhamos, num país onde o tempo é sempre ameno e desfrutável, levar vida de formiga é antinatural e maçante. Num clima desses a cigarra se fortalece, se diverte, procria e organiza as formigas pra garantir-lhe uma vida luxuosa e despreocupada, como sói acontecer às cigarras. O golpe, o enriquecimento à custa do trabalho dos outros, o sacrifício do futuro da formiga trabalhadora e o furto de suas economias pela cigarra, é a consequência lógica do clima que a sustenta. O Brasil foi feito pra ser roubado, assim a história nos conta.
E por mais que pensemos num equilíbrio para essa convivência, a formiga pobre se encanta em sustentar os luxos da cigarra.
Aqui a formiga também é hedonista. Que lhe importa se não tem mantimentos para armazenar ou anda pelos caminhos esburacados se ela pode assistir ao show da Madona de graça.
Lauro
29 de dezembro de 2025 3:33 pmMaravilhosa a sua colocação, a própria temporalidade ja é a inimiga da moral, Aristóteles já disse isso . porém a ética é á temporal e se renova com o tempo ,Não existe democracia sem ética . Espero Que os jovens sejam educados e a educação mude a cabeça deles .
D
30 de dezembro de 2025 6:18 amHoje a cigarra abriu várias armadilhas para viver das formigas. Governos para cobrar impostos das formigas e depois distribuir a empresas de fachada em contratos duvidosos, bancos para cobrar juros altíssimos para as formigas de menos sorte, pôs veneno na comida e depois vende remedios caríssimos que nao curam, apenas amenizam e as formigas passam a tomar a vida toda e as convenceu que não dá pra curtir o inverno sem se endividar com vários eletrônicos no formigueiro. Se alguma formiga se revolta, tem os grilos pra prender e as baratas para mandar para a cadeia.