5 de junho de 2026

2036, Brasil: o Ano em que a Taxa de Investimento Cruzou os 30% — e Não Comoveu, por Henrique Morrone

E quando o crescimento começa a ameaçar posições — e não apenas a gerar números — a música para, a dança se desfaz e o pacto se rompe.
Jun Inoue

Em 2036, Brasil alcança taxa de investimento acima de 30%, gerando celebração entre economistas heterodoxos.
Conflitos internos e divergências entre grupos progressistas ressurgem após o crescimento econômico.
Elite econômica se incomoda com o crescimento e pode romper pactos para proteger suas posições.

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2036, Brasil: o Ano em que a Taxa de Investimento Cruzou os 30% — e Não Comoveu

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por Henrique Morrone

É 2036. É Brasil. Um carnaval fora de época irrompe no seio nacional. Finalmente, os economistas heterodoxos venceram — formaram maioria. A festa, inicialmente concentrada no Sudeste, espraia-se pelo país. A taxa de investimento cruzou os 30%. Vencemos.

Neodesenvolvimentistas (defensores da panaceia do câmbio), sociodesenvolvimentistas (crentes nos efeitos virtuosos da redistribuição de renda sobre o crescimento), pós-keynesianos em geral (rígidos, ao contrário de Keynes, que mudava frequentemente de ideia) e marxistas desfilam de mãos dadas, dançando e bebendo muitas, muitas biritas. Havia motivos para comemorar. A festa foi magnífica — e a birita, de qualidade, selou a união provisória desses grupos de matizes tão diversos.

Cinco anos antes, o país havia amargado uma recessão profunda. Como frequentemente ocorre na vida humana — e na econômica — a guerra não foi ganha por mérito, mas pela fragilidade ética e moral dos oponentes. Ufa… espere… os detalhes frouxos vêm a seguir.

A queda foi marcada pela descoberta de um plano para expatriar economistas progressistas de diferentes matizes. Nem os inofensivos (ao sistema) marxistas seriam poupados. A ralé, como sempre, seria a primeira da fila. O destino: a Lua. Todos seriam enviados para lá. O plano vinha acompanhado de uma “transição civilizatória”, disfarçada de empreendedorismo, que previa a implantação dos valores éticos do agronegócio nas escolas — ocultando, é claro, o uso massivo de agrotóxicos e a ingestão regular de subsídios saborosos. Pois é.

O presidente equilibrista de esquerda, cansado de viver em cima do muro, resolveu agir. Reuniu forças — pasmem — para expatriar sumariamente os economistas de direita, essa classe sem ideias e pouco inovativa, também rumo à Lua. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Apoiada nos novos fatos e na queda forçada da taxa de juros, a taxa de investimento nacional — essa variável crucial para o crescimento — cruzou os 30%. Eis, em suma, o motivo do carnaval fora de época.

A elite econômica, amedrontada, aderiu temporariamente à dança. Não se opôs. Esperou. Como sempre. Sabia que o tempo joga a seu favor.

Mas o dia seguinte chegou. Amargo. De sentar-se à mesa.

As diferenças entre os economistas progressistas reapareceram imediatamente. O primeiro decano, sem objetividade, citou livros e filmes para “contextualizar” o momento — mais interessado em exibir erudição do que em construir qualquer consenso. O segundo, com mão pesada, decretou que a única variável realmente relevante era o câmbio. O terceiro demonstrou profundo desconforto e concentrou suas armas na redistribuição de renda. O marxista — ali presente mais por efeito decorativo e democrático do que por ameaça real — insistiu que todos deveriam analisar a taxa de lucro, pois ela seria a variável central do sistema econômico. Todos se entreolharam. E seguiram debatendo.

Um garoto-prodígio pediu a palavra. Sugeriu que, além do consenso político, seria preciso construir um modelo comum. Observou, com ingenuidade afiada, que os ortodoxos possuíam um modelo fraco, mas consistente — e que algo semelhante deveria ser buscado. A mesa empacou. E se dispersou.

No fundo da sala, um jovem economista, com apenas graduação, mexia no celular e suspirava, quase em transe murmurava: Chinanomics, Chinanomics, Chinanomics…

Esses grupos não perceberam que já não precisavam mais competir com o modelo ortodoxo. O hábito é um vício difícil de abandonar. Aliás, os próprios economistas ortodoxos jamais lideraram coisa alguma. Eram apenas fantoches, ofertando as narrativas necessárias à sustentação do sistema anterior. Não mandavam em nada.

Quem sempre mandou — e seguia mandando — era a turma da bufunfa.

Pacientemente, aguardava o momento certo para revidar. Não aceitaria a perda de posição relativa, nem a aproximação da ralé que uma taxa de investimento acima de 30%, sustentada por vários anos, poderia provocar.

A taxa de investimento cruzou os 30%.

O país crescia.

Mas o incômodo da elite também.

E quando o crescimento começa a ameaçar posições — e não apenas a gerar números — a música para, a dança se desfaz e o pacto se rompe.

Crescer, afinal, nunca foi o problema.

O problema sempre foi quem cresce, para quê — e até onde pode ir.

Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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