Educar para a arte contemporânea é ensinar a respirar na aridez
por Eliseu Raphael Venturi
Educar para a arte contemporânea é educar para o território mais delicado e mais urgente que existe: aquele em que o próprio sentido de verdade se tensiona, em que gênero, raça, corpo, território, opressão e dominação não são temas periféricos, mas matéria bruta da linguagem; aquele em que a arte não oferece respostas, mas feridas; não oferece harmonia, mas tensão e conflito; não oferece pacificação, mas deslocamento. Ensinar “essa liberdade” significa ensinar a sustentar fissuras, e não a preenchê-las.
A dificuldade começa no fato de que a arte contemporânea não pede espectadores: ela pede implicação. Seus objetos não são coisas inertes para serem descritas tecnicamente, mas acontecimentos simbólicos que convocam a posição de quem vê.
Assim, educar para a arte contemporânea é educar para a responsabilidade do olhar. É ensinar que ver também é agir, que interpretar também é tomar posição, que toda experiência estética envolve um risco ético.
No entanto, como fazer isso diante de um aluno que pode chegar habituado à literalidade, ao consumo rápido, à estrutura simples de certo/errado, bonito/feio, permitido/proibido? Como educá-lo para uma arte que justamente opera na instabilidade dessas categorias?
A resposta talvez seja mais pedagógica do que estética: antes de ensinar obras, é preciso reabrir a sensibilidade, o significado e o sentido do “sensível” na experiência humana. A arte contemporânea exige uma sensibilidade que o próprio mundo tenta atrofiar, que é justamente a sensibilidade à ambiguidade, ao desconforto, ao não-dito, ao que escapa.
Ensinar arte contemporânea é ensinar o aluno a suportar a experiência do não saber. E isso é, paradoxalmente, libertador. Libertar da obrigação de entender de imediato, libertar da necessidade de concordar, libertar da busca incessante por mensagens prontas. A liberdade da arte contemporânea não é a liberdade do tudo-vale; é a liberdade do poder pensar a partir do impacto, e não apenas apesar dele.
Quando a arte denuncia desigualdades de gênero, raça e classe; quando revela opressões, colonialismos, violências estruturais; quando expõe a historicidade das normas e a arbitrariedade das identidades, ela não pede que o estudante “concorde”. Ela inevitavelmente pede que o estudante se pergunte onde está situado.
Por isso, educar para a arte contemporânea é educar para a posição. Não se trata de formar militantes, mas de formar consciências capazes de reconhecer que o olhar nunca é neutro, que toda visão depende de um lugar, de uma história, de uma forma de estar no mundo. E que todo olhar tem suas implicações, efeitos, consequências e responsabilidades éticas e estéticas.
O professor de arte contemporânea, nesse cenário, não é um transmissor de discursos, mas um mediador dos estranhamentos e desafios. Seu trabalho é criar condições para que o aluno atravesse o impacto inicial da obra, muitas vezes da ordem do choque, do incômodo, da irritação, da raiva, do horror, e consiga encontrar, nesse estranhamento, um ponto de elaboração.
A elaboração não é explicar a obra; é permitir que ela reverbere. É abrir espaço para que a obra trabalhe no aluno, para que ela desestabilize, reorganize, produza perguntas, e que o aluno seja capaz de se posicionar pelo sim, pelo não, pelo nunca…
E, aqui, educar “para a liberdade” significa algo simples e radical: criar ambientes em que pensar diferente não seja uma ameaça. A arte contemporânea, com seus corpos dissidentes, seus arquivos reescritos, suas performances que deslocam o papel do espectador, é justamente a pedagogia da diferença.
Por isso ela incomoda tanto regimes autoritários: porque ela faz o pensamento experimentar a própria liberdade, não como slogan, como promessa nunca cumprida, como objetivo inatingível, mas como prática, como pressuposto, condição e efeito do jogo.
Formar professores capazes de conduzir esse processo é formar professores que reconhecem a arte como um ato político da sensibilidade, não como um discurso ideológico, como ilustração, como distração.
É formar professores que sabem sustentar o conflito sem ocupar a posição de donos da verdade; que entendem que a obra é atravessamento, risco, exposição; que sabem que a educação estética é, sobretudo, uma educação ética — porque nos treina a conviver com aquilo que não controlamos.
Educar para a arte contemporânea é ensinar a questionar as verdades sem cair no cinismo; reconhecer violências sem estetizá-las; acolher dissidências sem romantizá-las; perceber o gesto poético como gesto político; habitar a incerteza como forma de pensar. Cada dimensão dessas exige um nível de repertório, maturidade, vivência, e por isso a obra (a situação, a performance, o lugar, o documentado) não podem conter em si uma verdade a ser desvelada, tampouco um conteúdo a ser exaurido.
No fundo, a liberdade do jogo da arte não é uma liberdade dada: é aprendida. E é aprendida justamente porque dói, porque desloca, porque exige. A arte contemporânea oferece ao aluno algo que nenhuma outra disciplina oferece com tanta clareza: a experiência de se ver transformado pelo encontro com o outro. E, se ainda há um caminho para educar em tempos autoritários, talvez ele comece aqui — nesse instante em que a arte abre espaço onde o mundo fecha, nesse exercício de liberdade que acontece quando somos capazes de olhar sem fugir.
Educar para a arte contemporânea é educar para uma liberdade que não pede permissão. É educar para entrar no mundo com os sentidos e a mente abertos, mesmo quando o mundo prefere que permaneçamos enclausurados nos clichês das próprias mentiras, verdades, fantasias e fantasmas.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito e licenciado em artes visuais.
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Anônimo
4 de janeiro de 2026 1:44 pmParabéns, Eliseu Venturi, ao GGN, e pelo jornalismo independente!