Ensinar e aprender arte é formar modos de perceber, pensar e habitar o mundo
por Eliseu Raphael Venturi
Ensinar e aprender arte não é transmitir um repertório de técnicas, procedimentos ou habilidades isoladas, como se o fazer artístico pudesse ser reduzido a um conjunto de operações neutras e replicáveis.
Ensinar e aprender arte é, antes, intervir na forma como o sujeito percebe, pensa e habita o mundo, ampliando sua capacidade de leitura do sensível, de elaboração simbólica da experiência e de posicionamento crítico diante da realidade.
A distinção não é apenas conceitual; ela define o sentido significativo do ensino de artes visuais na escola contemporânea e delimita uma posição pedagógica que se afasta tanto do tecnicismo quanto do utilitarismo cultural.
A arte opera como linguagem, mas uma linguagem que não se organiza prioritariamente pela função informativa. Ela produz sentido por meio de imagens, gestos, materiais, corpos, espaços e temporalidades, instaurando modos de pensamento que não se deixam reduzir à lógica discursiva linear.
Nesse sentido, aprender arte não significa dominar uma técnica, mas aprender a lidar com processos de significação abertos, ambíguos, plurissignificativos e historicamente situados. A experiência estética, quando tomada como eixo formativo, ensina a sustentar a complexidade, a incerteza e a multiplicidade de sentidos; são competências intelectuais e sensíveis que atravessam toda a formação e convivência humanas.
Essa compreensão dialoga diretamente com os marcos normativos da educação brasileira, que reconhecem a arte como componente curricular obrigatório não por seu valor instrumental, mas por sua contribuição à formação integral.
A legislação educacional e as diretrizes curriculares afirmam a arte como área de conhecimento, com conteúdos, procedimentos e objetivos próprios, vinculados ao desenvolvimento do pensamento crítico, da sensibilidade, da criatividade e da expressão. Reduzir o ensino de arte à técnica, ao entretenimento ou à ocupação do tempo escolar significa esvaziar esse horizonte formativo e negar sua função educativa mais profunda.
Formar o sensível não é um luxo, nem um adorno pedagógico; trata-se de uma dimensão ética e política da educação. A maneira como percebemos o outro, o espaço comum, o corpo, a diferença e o conflito é mediada por repertórios sensíveis construídos social e culturalmente.
A arte como conhecimento, seja qual for o seu meio, ao tensionar hábitos perceptivos e desestabilizar evidências, contribui para a ampliação dessas formas de ver, sentir e julgar.
Nesse sentido, o ensino de artes visuais participa diretamente da formação cidadã, não por doutrinação, mas por produzir sujeitos mais atentos, mais implicados e menos indiferentes ao mundo que compartilham.
O papel do professor de arte, nesse contexto, não é o de mero transmissor de técnicas ou de executor de atividades decorativas, mas o de mediador de experiências estéticas significativas. Cabe a ele criar situações de aprendizagem que articulem produção, apreciação e reflexão, conectando a arte à vida, à cultura contemporânea e às questões do tempo presente.
Essa mediação exige formação teórica, sensível e pedagógica, bem como a capacidade de ler a escola como espaço simbólico atravessado por disputas, limites e possibilidades.
Ao assumir que ensinar arte é formar modos de perceber, pensar e habitar o mundo, o ensino de artes visuais reafirma sua relevância estratégica na educação básica. Ele se coloca como campo de resistência às reduções instrumentais do conhecimento e como espaço privilegiado para a construção de uma relação mais crítica, sensível e responsável com a realidade.
Não se trata de negar a técnica, mas de recolocá-la em seu devido lugar: como meio, e não como fim, de uma formação que reconhece na arte uma forma legítima de pensamento e de produção de mundo. Um mundo com história, símbolo, imaginário, realidade, todos entremeados no mistério do viver.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito e licenciado em artes visuais.
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