11 de junho de 2026

Beuys e Oiticia, hoje: corpo, invenção e risco, por Eliseu Venturi

Ambos compartilham uma recusa da arte como objeto autônomo e uma aposta na transformação da vida
Artur Barrio, Situações, 1970. - 2

Joseph Beuys e Hélio Oiticica compartilham a visão da arte como transformação da vida, não como objeto autônomo.
Oiticica desloca a arte para a vivência irreversível, focando no corpo, ação e risco, sem oferecer redenção ou pedagogia.
Sua obra desafia a hiperexposição contemporânea, propondo uma participação ética e instável que compromete o sujeito.

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Beuys e Oiticia, hoje: corpo, invenção e risco

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por Eliseu Raphael Venturi

Antes de pensar Hélio Oiticica, é preciso atravessar Joseph Beuys — não para assimilá-lo, mas para delimitar um desvio decisivo. Ambos compartilham uma recusa da arte como objeto autônomo e uma aposta na transformação da vida; ambos deslocam a arte para o campo do comportamento, da ação e da ética.

No entanto, onde Beuys constrói uma cosmologia pedagógica, fundada na ideia de escultura social e na possibilidade de regeneração simbólica do mundo, Oiticica opera a partir de uma desconfiança radical de qualquer forma de totalização. Beuys acredita que todos podem ser artistas; Oiticica parece responder que todos já estão implicados — e que é justamente isso que torna a situação explosiva.

Beuys trabalha com a ideia de forma ampliada, ainda que simbólica: gordura, feltro, mito pessoal, pedagogia. Há sempre um horizonte de recomposição, mesmo quando crítico. Oiticica, ao contrário, não oferece horizonte; oferece experiência. Não há redenção, apenas intensificação. Não há pedagogia, mas exposição ao risco. Nesse sentido, Oiticica é menos reconciliador e mais perigoso — e talvez por isso mais atual.

Pensar Oiticica hoje exige abandonar a leitura folclorizante que o reduz à cor, à alegria ou à tropicalidade. Seu gesto central não é estético, mas ontológico: ele desloca a arte do regime da forma para o regime da vivência irreversível. A obra não representa o mundo; ela reorganiza temporariamente as condições de existência do sujeito. O parangolé não é um objeto vestível, mas um dispositivo que dissolve a distância entre corpo, espaço e ação. Ele não comunica; ele compromete.

Esse deslocamento tem consequências profundas para pensar o presente. Vivemos num mundo saturado de imagens, discursos e posicionamentos. Tudo se mostra, tudo se declara, tudo circula. Paradoxalmente, essa hiperexposição não produz experiência, mas anestesia. Oiticica já havia intuído esse risco: quando a arte se torna apenas visível, ela perde sua capacidade de transformação. Por isso sua insistência no corpo, no tempo vivido, na situação concreta. O que está em jogo não é a mensagem, mas a condição de possibilidade do sentir e do agir.

Em Oiticica, a participação não é democrática no sentido confortável do termo. Ela é exigente, instável, às vezes desconfortável. Participar não é opinar; é se implicar. Não há garantia estética, institucional ou moral. Ao entrar num penetrável, ao vestir um parangolé, o sujeito não adquire consciência; ele perde certezas. A arte deixa de ser mediação simbólica e passa a ser acontecimento — algo que acontece ao corpo antes de se organizar como sentido.

Essa dimensão é crucial para pensar o mundo de hoje. Diante da ascensão de discursos autoritários, da captura da linguagem pela gestão e da politização performática das identidades, Oiticica nos lembra que a transformação não começa no discurso, mas na reorganização sensível do estar-no-mundo. Sua recusa da obra como produto antecipa a crítica à mercantilização da experiência; sua recusa da pedagogia antecipa a crítica às formas suaves de controle; sua aposta no improviso e na marginalidade antecipa a crítica à normalização da vida.

A célebre frase “seja marginal, seja herói” não é apologia da exclusão nem romantização da pobreza. Ela nomeia uma posição ética: a recusa de se ajustar plenamente aos dispositivos que organizam o sensível, o comportamento e o desejo. Marginal, aqui, é quem não se deixa capturar totalmente; herói é quem sustenta essa posição sem garantia. Trata-se menos de política identitária e mais de política do corpo e da experiência.

Se Beuys ainda acreditava na possibilidade de uma escultura social orientada por valores compartilháveis, Oiticica parece dizer que o comum só pode emergir na fricção, não no consenso. O comum não é dado; é produzido provisoriamente, no encontro, no atrito, no excesso. E é sempre instável. Essa instabilidade não é falha; é condição de liberdade.

Pensar o mundo de hoje a partir de Oiticica é aceitar que a arte não salvará nada, mas pode desorganizar o suficiente para que outras formas de vida se tornem pensáveis. Não se trata de ilustrar causas, nem de competir por visibilidade moral, mas de criar situações em que o corpo volte a sentir o peso, o ritmo e o risco de existir junto a outros.

Talvez seja isso que mais falta hoje: não novas imagens, nem novas palavras, mas novas experiências que nos retirem da posição de espectadores do próprio colapso. Nesse sentido, Hélio Oiticica não é um artista do passado. Ele permanece como um problema ativo: um convite incômodo a abandonar a segurança da forma, da mensagem e da identidade, para habitar — ainda que por instantes — um mundo em que viver, criar e resistir não se separam.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em Direito e licenciado em Artes Visuais.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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