A esquerda que defende a soberania, mas julga o povo
por Dora Nassif
Condenar o ataque promovido pelos Estados Unidos contra a Venezuela é uma obrigação jurídica e política elementar. Sob a liderança de Donald Trump, a ação afronta princípios estruturantes do Direito Internacional contemporâneo, a começar pela proibição do uso unilateral da força prevista no artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas. Não houve autorização do Conselho de Segurança, tampouco se configurou qualquer hipótese de legítima defesa nos termos do artigo 51 do mesmo tratado. Do ponto de vista jurídico, trata-se de uma violação clara da soberania estatal e do princípio da não intervenção, pilares centrais da ordem internacional desde 1945. Reconhecer essa ilegalidade não é uma escolha ideológica, mas um compromisso mínimo com o direito.
O debate sobre soberania, aliás, voltou ao centro da cena internacional justamente porque sua violação tem sido normalizada por discursos que tentam relativizá-la em nome de interesses geopolíticos. A soberania não é um prêmio concedido a governos considerados virtuosos pela comunidade internacional. Ela é um atributo do Estado, inseparável do direito de autodeterminação dos povos e da própria ideia de igualdade soberana entre os Estados. Quando uma potência estrangeira decide, unilateralmente, remover um governo pela força, rompe-se não apenas uma fronteira física, mas um princípio jurídico que protege todas as nações, especialmente as mais frágeis. Fragilizar a soberania da Venezuela hoje significa enfraquecer a segurança jurídica de qualquer país amanhã.
Isso, no entanto, não encerra o debate. Parte da esquerda prefere tratar o caso exclusivamente no plano geopolítico, ignorando a distância brutal entre a análise feita em espaços acadêmicos ou militantes e a experiência concreta de quem viveu anos sob um regime autoritário, empobrecido e marcado pela escassez, pela repressão e pela migração forçada. A Venezuela não é uma abstração teórica nem um tabuleiro estratégico. É um país habitado por pessoas que perderam acesso a direitos básicos, que viram sua moeda colapsar, seus serviços públicos se deteriorarem e suas perspectivas de futuro se tornarem cada vez mais restritas.
É nesse ponto que surge um desconforto que não deveria ser descartado com arrogância. Muitos venezuelanos reagiram à queda do regime com alívio, esperança ou mesmo celebração. Para setores da esquerda intelectual, essa reação é rapidamente rotulada como alienação, falsa consciência ou submissão ao imperialismo. Há algo de profundamente soberbo nessa postura. Imagina-se que só é politicamente legítima a emoção que coincide com a leitura estrutural considerada correta. Tudo o que escapa desse enquadramento passa a ser tratado como erro moral do povo. Mas a fome não é um debate teórico, o exílio não é uma categoria analítica e o medo cotidiano não se resolve com construções conceituais.
Celebrar a queda de um ditador não equivale, automaticamente, a apoiar uma intervenção estrangeira ou legitimar a violação do Direito Internacional. Em muitos casos, trata-se apenas de uma reação humana elementar diante do fim de um ciclo de opressão. Confundir essa resposta emocional com alinhamento geopolítico é intelectualmente desonesto e politicamente irresponsável. É exigir das vítimas um grau de coerência ideológica que raramente se exige de quem analisa a situação a partir de uma posição confortável e distante da escassez, da repressão e do colapso institucional.
A crítica à intervenção dos Estados Unidos permanece válida, necessária e urgente. O histórico norte-americano na América Latina demonstra que intervenções justificadas em nome da liberdade ou da proteção humanitária costumam produzir instabilidade, dependência e sofrimento prolongado. No entanto, essa crítica perde legitimidade quando vem acompanhada de desprezo pela experiência concreta dos povos que supostamente se deseja defender. Uma esquerda que transforma o povo venezuelano em símbolo, mas desautoriza sua voz quando ela não se encaixa na narrativa desejada, acaba reproduzindo uma lógica paternalista muito próxima daquela que afirma combater.
Há, nesse comportamento, um erro ético fundamental. Fala-se sobre os povos, mas não com eles. Decide-se, a partir de fora, como deveriam sentir, reagir ou interpretar a própria história. A solidariedade internacionalista não se constrói anulando a vivência concreta em nome de uma coerência teórica impecável. Ela começa pelo reconhecimento da dor, da ambivalência e das contradições que atravessam qualquer sociedade submetida a anos de autoritarismo e empobrecimento.
Não há incoerência em sustentar duas posições simultaneamente. É perfeitamente possível condenar, com firmeza, a violação do Direito Internacional e da soberania venezuelana pelos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, demonstrar empatia pelos milhares de venezuelanos que permanecem no país e pelos milhões que foram forçados a deixá-lo. Uma posição não anula a outra. Pelo contrário, a capacidade de sustentar essa tensão é o que diferencia uma análise comprometida com a realidade de um discurso ideológico fechado em si mesmo e alheio ao sofrimento humano.
Quando a esquerda perde a capacidade de sentir com os povos, passa a defendê-los apenas como abstração. E abstrações não passam fome, não atravessam fronteiras, não enterram seus mortos e não precisam reconstruir a vida em outro país. Defender o Direito Internacional e reconhecer a humanidade dos venezuelanos não é concessão política. É o mínimo ético que se espera de quem ainda acredita que justiça social começa pelo reconhecimento da dignidade concreta de quem sofre.
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
5 de janeiro de 2026 6:19 pmO mais engraçado é ver a tigrada que lamenta a derrota do golpe de estado no Brasil comemorar o que ocorreu na Venezuela. Eles aplaudem o rapto de Nicolas Maduro e dizem que Jair Bolsonaro foi raptado pelo STF. Todavia, Maduro foi realmente raptado à força enquanto seu Jair poderia ser e não foi imediatamente arrastado para uma jaula assim que retornou ao país. Denunciado, ele teve direito de defesa, contratou advogado fez provas e teve acesso às provas produzidas. A condenação dele é legítima, muito diferente do ato criminoso e ilegítimo cometido por Donald Trump. No fundo essa gente perversa só acredita numa coisa: que eles tem o privilégio de cometer crimes de uma maneira ou de outra. Eles vêm Maduro preso e cometem o erro de ver Bolsonaro solto, algo que não ocorrerá.
Rui Ribeiro
6 de janeiro de 2026 1:41 pmRegime autoritário?
Ora, autoritários são os EUA, não o governo venezuelano.
“A Venezuela não é uma abstração teórica nem um tabuleiro estratégico. É um país habitado por pessoas que perderam acesso a direitos básicos, que viram sua moeda colapsar, seus serviços públicos se deteriorarem e suas perspectivas de futuro se tornarem cada vez mais restritas”.
O imperialismo não tem qualquer responsabilidade pela perda do acesso à direitos básicos pela maioria da população da Venezuela?
Ou você acha que o Trump sequestrou o Maduro e sua esposa porque ele está preocupados com as pessoas que perderam acesso a direitos básicos, que viram sua moeda colapsar, seus serviços públicos se deteriorarem e suas perspectivas de futuro se tornarem cada vez mais restritas?
Porque eles bloquearam o ouro da Venezuela?
Rui Ribeiro
6 de janeiro de 2026 3:34 pmDe acordo com matéria publicada pelo g1:
“A Venezuela foi mais rica que Itália nos anos 70, mas dinheiro ficava só com elite de vida luxuosa; veja imagens
País era chamado de ‘Venezuela Saudita’ e Caracas foi comparada a Paris nos anos 70”
Mas conforme a matéria ora comentada:
“A Venezuela é um país habitado por pessoas que perderam acesso a direitos básicos, que viram sua moeda colapsar, seus serviços públicos se deteriorarem e suas perspectivas de futuro se tornarem cada vez mais restritas”.
E, de acordo com a autora do texto, tudo isso está ocorrendo por causa da Revolução Bolivariana, e não apesar dela.