Imperador Donald, um Economista Simplório
por Fernando Nogueira da Costa
Diante a invasão americana à Venezuela, surge uma questão-chave: qual é o custo fiscal e financeiro de manutenção de tropas americanas em múltiplos territórios estrangeiros? Segundo o arremedo de economista, o Imperador Donald, as finanças públicas dos EUA poderão ser compensadas com arrecadação fiscal originária de empresas americanas exportadoras de petróleo explorado na Venezuela…
Uma análise integrada e factual sobre o custo fiscal e financeiro de manter tropas americanas no exterior e a possibilidade — ou não — de compensar esse custo com receita tributária ou arrecadação fiscal ligada à exportação de petróleo por empresas americanas em países como a Venezuela deve ser feita. Faço abaixo.
Os Estados Unidos têm um Orçamento de Defesa enorme: por volta de US$ 874 bilhões no ano fiscal de 2024, cerca de 13% do orçamento federal. Ele deve ultrapassar US$ 900 bilhões com suplementos em 2026.
Estimativas independentes indicam os gastos com bases e tropas dos EUA no exterior serem extraordinários, porque existem cerca de 750 bases militares americanas em mais de 80 países. O custo direto de manter essa presença, incluindo infraestrutura, logística e força de pessoal deslocado, está na ordem de US$ 66–80 bilhões por ano — apenas as bases no exterior.
Esse valor não inclui todo o custo de operações militares prolongadas (como conflitos ou intervenções), nem o custo total de pessoal móvel, sistemas de armas, transporte aéreo e naval etc. Quando são somadas essas parcelas, o gasto associado ao cenário bélico externo pode ser substancialmente maior.
Daí surge um trade-off fiscal: escolher entre opções conflitantes, dado os recursos limitados. Gastos militares elevados significam menos recursos disponíveis para outras funções do Estado como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. Há aumento da pressão sobre dívida pública e déficits fiscais em períodos de expansão de gastos militares.
A presença militar global dos EUA é um item orçamentário massivo e recorrente. Não se trata apenas de um gasto extraordinário episódico na Venezuela.
Donald Trump não é economista com exercício da profissão, mas é formado em Ciências Econômicas pela Wharton School da Universidade da Pensilvânia. Sua trajetória é focada no mercado imobiliário, negócios e política, adotando políticas econômicas protecionistas e nacionalistas baseadas em experiências práticas, não em teorias acadêmicas. Daí o Imperador disse: a receita fiscal da exploração de petróleo no exterior “compensará” esses custos militares.
Essa proposição — coletar mais receita tributária no governo federal americano derivada de petróleo extraído no exterior — não se sustenta com base nos mecanismos tributários e de lucratividade atuais.
Primeiro, a multinacionais americanas não repassam grande parte de seu lucro ao Tesouro norte-americano. Relatórios recentes mostram as grandes petroleiras dos Estados Unidos pagarem mais impostos a governos estrangeiros diante do pago ao governo norte-americano.
A carga tributária efetiva sobre lucros domésticos desses grupos tem sido relativamente baixa: em média cerca de 12–14% sobre renda tributável. Na realidade, é muito menor diante a taxa estatutária, devido a créditos e incentivos fiscais. Portanto, a receita tributária federal com entrada no Tesouro como imposto sobre renda corporativa de atividades de petróleo no exterior é limitada.
Logo, as operações em países estrangeiros não aumentam a arrecadação doméstica automaticamente. Mesmo se empresas americanas participarem da extração de petróleo em países como a Venezuela, amplamente, essas operações gerarão impostos e royalties pagos ao país ocupado, não ao governo americano.
Muitos contratos internacionais são estruturados para o país produtor receber a maior parte da receita direta. Em muitos casos, como no tratamento fiscal e de royalties, os ganhos fiscais do governo dos EUA são marginais ou até menores se comparados caso a produção tivesse sido realizada no território norte-americano.
Operar em zonas de conflito ou sob sanções não garante fluxo fiscal confiável. Na prática política recente, inclusive com a situação venezuelana, o impacto econômico direto dessas operações sobre o orçamento federal dos EUA é incerto ou limitado. Envolve riscos legais, geopolíticos e de sanções locais, inclusive sabotagem, e internacionais.
Essas implicações para a política fiscal, diante da hipotética “segurança nacional” (os drogados americanos sofrerem “crise de abstinência”), relacionam-se à desconexão entre gasto militar e arrecadação de petróleo. A manutenção de tropas no exterior é financiada pelo orçamento federal geral, predominantemente através de impostos, dívida e outras receitas, não por um “fundo de petróleo” específico.
Não existe mecanismo institucional no qual a receita de óleo extraído no exterior por empresas privadas seja canalizada para cobrir despesas públicas militares diretamente.
Na verdade, a estrutura tributária internacional favorece rentistas privados dos dividendos das sociedades anônimas transnacionais. Os participantes acionários, sendo os maiores os bilionários da “turma do Donald”, as controlam.
A legislação fiscal dos Estados Unidos, incluindo incentivos, créditos fiscais e regras de tributação de renda estrangeira, resulta em menor arrecadação federal sobre essas atividades, apesar do alto valor econômico envolvido.
Não é viável, portanto, nas configurações fiscais e legais atuais, a arrecadação federal de impostos sobre petróleo extraído por empresas americanas no exterior — mesmo em lugares ricos em reservas como a Venezuela — “compensar” de forma não deficitária o custo de manutenção de tropas e bases estrangeiras.
A lógica de financiamento permanece centrada em orçamento federal geral e impostos domésticos, em vez de uma “internalização” direta dos fluxos econômicos de residentes corporativos no exterior.
No capitalismo contemporâneo, o capital privado é privilegiado diante a receita pública. Empresas privadas, principalmente as transnacionais controladas pelos bilionários trumpistas, maximizam retornos e minimizam tributos. Isso não converte automaticamente em receitas públicas crescentes.
Nem todos os custos das bases militares são de “intervenção ativa” como na Venezuela. Muitos destinam-se a dissuasão estratégica e alianças, mas permanecem onerosos.
A política fiscal corporativa, a presença militar e a geopolítica energética interagem de forma complexa, e não simplesmente por compensação entre “gastos militares = receitas petrolíferas”. A fiscalidade e a geopolítica, anunciadas pelo Imperador Donald, são simplórias e “tipo me engane que eu gosto” para os contribuintes americanos. Eles pagarão a conta… e votarão no candidato democrata na próxima eleição.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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WRamos
5 de janeiro de 2026 4:01 pmComo afirma Paul Krugman, as petrolífera não tem interesse na Venezuela. As reservas são enormes, mas a infraestrutura é obsoleta, o que exige muito investimento. O óleo é extra pesado, com maiores custos de refino produzindo derivados de menor valor e muito poluentes. Então o valor da mercadoria é menor do que o petróleo normal. Maiores custos e menores preços resultam em lucro pequeno, não fazendo sentido contar com mais arrecadação de impostos do que as empresas conseguem operando em melhores condições.