10 de junho de 2026

Fernando Nogueira: Imperador Donald, um Economista Simplório

Diante da invasão à Venezuela: qual é o custo fiscal e financeiro de manutenção de tropas americanas em múltiplos territórios estrangeiros?
Wikipedia

Os EUA gastam US$ 66–80 bilhões anuais para manter cerca de 750 bases militares em mais de 80 países.
A receita fiscal sobre petróleo extraído no exterior por empresas americanas é limitada e paga principalmente a países produtores.
Não há mecanismo que vincule diretamente receita de petróleo no exterior ao financiamento dos custos militares dos EUA.

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Imperador Donald, um Economista Simplório

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por Fernando Nogueira da Costa

Diante a invasão americana à Venezuela, surge uma questão-chave: qual é o custo fiscal e financeiro de manutenção de tropas americanas em múltiplos territórios estrangeiros? Segundo o arremedo de economista, o Imperador Donald, as finanças públicas dos EUA poderão ser compensadas com arrecadação fiscal originária de empresas americanas exportadoras de petróleo explorado na Venezuela…

Uma análise integrada e factual sobre o custo fiscal e financeiro de manter tropas americanas no exterior e a possibilidade — ou não — de compensar esse custo com receita tributária ou arrecadação fiscal ligada à exportação de petróleo por empresas americanas em países como a Venezuela deve ser feita. Faço abaixo.

Os Estados Unidos têm um Orçamento de Defesa enorme: por volta de US$ 874 bilhões no ano fiscal de 2024, cerca de 13% do orçamento federal. Ele deve ultrapassar US$ 900 bilhões com suplementos em 2026.

Estimativas independentes indicam os gastos com bases e tropas dos EUA no exterior serem extraordinários, porque existem cerca de 750 bases militares americanas em mais de 80 países. O custo direto de manter essa presença, incluindo infraestrutura, logística e força de pessoal deslocado, está na ordem de US$ 66–80 bilhões por ano — apenas as bases no exterior.

Esse valor não inclui todo o custo de operações militares prolongadas (como conflitos ou intervenções), nem o custo total de pessoal móvel, sistemas de armas, transporte aéreo e naval etc. Quando são somadas essas parcelas, o gasto associado ao cenário bélico externo pode ser substancialmente maior.

Daí surge um trade-off fiscal: escolher entre opções conflitantes, dado os recursos limitados. Gastos militares elevados significam menos recursos disponíveis para outras funções do Estado como saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. Há aumento da pressão sobre dívida pública e déficits fiscais em períodos de expansão de gastos militares.

A presença militar global dos EUA é um item orçamentário massivo e recorrente. Não se trata apenas de um gasto extraordinário episódico na Venezuela.

Donald Trump não é economista com exercício da profissão, mas é formado em Ciências Econômicas pela Wharton School da Universidade da Pensilvânia. Sua trajetória é focada no mercado imobiliário, negócios e política, adotando políticas econômicas protecionistas e nacionalistas baseadas em experiências práticas, não em teorias acadêmicas. Daí o Imperador disse: a receita fiscal da exploração de petróleo no exterior “compensará” esses custos militares.

Essa proposição — coletar mais receita tributária no governo federal americano derivada de petróleo extraído no exterior — não se sustenta com base nos mecanismos tributários e de lucratividade atuais.

Primeiro, a multinacionais americanas não repassam grande parte de seu lucro ao Tesouro norte-americano. Relatórios recentes mostram as grandes petroleiras dos Estados Unidos pagarem mais impostos a governos estrangeiros diante do pago ao governo norte-americano.

A carga tributária efetiva sobre lucros domésticos desses grupos tem sido relativamente baixa: em média cerca de 12–14% sobre renda tributável. Na realidade, é muito menor diante a taxa estatutária, devido a créditos e incentivos fiscais. Portanto, a receita tributária federal com entrada no Tesouro como imposto sobre renda corporativa de atividades de petróleo no exterior é limitada.

Logo, as operações em países estrangeiros não aumentam a arrecadação doméstica automaticamente. Mesmo se empresas americanas participarem da extração de petróleo em países como a Venezuela, amplamente, essas operações gerarão impostos e royalties pagos ao país ocupado, não ao governo americano.

Muitos contratos internacionais são estruturados para o país produtor receber a maior parte da receita direta. Em muitos casos, como no tratamento fiscal e de royalties, os ganhos fiscais do governo dos EUA são marginais ou até menores se comparados caso a produção tivesse sido realizada no território norte-americano.

Operar em zonas de conflito ou sob sanções não garante fluxo fiscal confiável. Na prática política recente, inclusive com a situação venezuelana, o impacto econômico direto dessas operações sobre o orçamento federal dos EUA é incerto ou limitado. Envolve riscos legais, geopolíticos e de sanções locais, inclusive sabotagem, e internacionais.

Essas implicações para a política fiscal, diante da hipotética “segurança nacional” (os drogados americanos sofrerem “crise de abstinência”), relacionam-se à desconexão entre gasto militar e arrecadação de petróleo. A manutenção de tropas no exterior é financiada pelo orçamento federal geral, predominantemente através de impostos, dívida e outras receitas, não por um “fundo de petróleo” específico.

Não existe mecanismo institucional no qual a receita de óleo extraído no exterior por empresas privadas seja canalizada para cobrir despesas públicas militares diretamente.

Na verdade, a estrutura tributária internacional favorece rentistas privados dos dividendos das sociedades anônimas transnacionais. Os participantes acionários, sendo os maiores os bilionários da “turma do Donald”, as controlam.

A legislação fiscal dos Estados Unidos, incluindo incentivos, créditos fiscais e regras de tributação de renda estrangeira, resulta em menor arrecadação federal sobre essas atividades, apesar do alto valor econômico envolvido.

Não é viável, portanto, nas configurações fiscais e legais atuais, a arrecadação federal de impostos sobre petróleo extraído por empresas americanas no exterior — mesmo em lugares ricos em reservas como a Venezuela — “compensar” de forma não deficitária o custo de manutenção de tropas e bases estrangeiras.

A lógica de financiamento permanece centrada em orçamento federal geral e impostos domésticos, em vez de uma “internalização” direta dos fluxos econômicos de residentes corporativos no exterior.

No capitalismo contemporâneo, o capital privado é privilegiado diante a receita pública. Empresas privadas, principalmente as transnacionais controladas pelos bilionários trumpistas, maximizam retornos e minimizam tributos. Isso não converte automaticamente em receitas públicas crescentes.

Nem todos os custos das bases militares  são de “intervenção ativa” como na Venezuela. Muitos destinam-se a dissuasão estratégica e alianças, mas permanecem onerosos.

A política fiscal corporativa, a presença militar e a geopolítica energética interagem de forma complexa, e não simplesmente por compensação entre “gastos militares = receitas petrolíferas”. A fiscalidade e a geopolítica, anunciadas pelo Imperador Donald, são simplórias e “tipo me engane que eu gosto” para os contribuintes americanos. Eles pagarão a conta… e votarão no candidato democrata na próxima eleição.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. WRamos

    5 de janeiro de 2026 4:01 pm

    Como afirma Paul Krugman, as petrolífera não tem interesse na Venezuela. As reservas são enormes, mas a infraestrutura é obsoleta, o que exige muito investimento. O óleo é extra pesado, com maiores custos de refino produzindo derivados de menor valor e muito poluentes. Então o valor da mercadoria é menor do que o petróleo normal. Maiores custos e menores preços resultam em lucro pequeno, não fazendo sentido contar com mais arrecadação de impostos do que as empresas conseguem operando em melhores condições.

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