4 de junho de 2026

Esterilização à Brasileira, por Henrique Morrone

Na economia brasileira, esterilizar é eliminar liquidez para sustentar a taxa de juros elevada e, assim, atingir a meta de inflação.
Jean-Michel Basquiat

No Brasil, o Banco Central esteriliza a liquidez gerada pela entrada de capitais para sustentar a alta taxa de juros.
Essa esterilização permanente aumenta o custo fiscal e a dívida pública, remunerando a arbitragem financeira.
O método mantém a economia estável, mas reduz investimento produtivo e crédito de longo prazo, causando estagnação.

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Esterilização à Brasileira

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por Henrique Morrone

Na medicina, esterilizar é eliminar germes para evitar infecções.
Na economia brasileira, esterilizar é eliminar liquidez para sustentar a taxa de juros elevada e, assim, atingir a meta de inflação.

O termo é o mesmo, mas o paciente é outro. No Brasil, quem vai para a mesa de procedimentos é a própria economia.

O país mantém uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Esse diferencial atrai capitais de curto prazo em busca de ganho financeiro fácil — o chamado carry trade. O investidor entra com dólares, troca por reais, aplica em títulos que pagam a Selic e espera. Não produz, não investe, não constrói fábrica. Apenas aguarda o vencimento e torce para que o câmbio se valorize.

Quando esses dólares entram, o Banco Central compra a moeda estrangeira para evitar uma apreciação excessiva do câmbio. Ao fazer isso, injeta reais no sistema bancário. A economia ganha liquidez. Em qualquer país, isso poderia estimular crédito, investimento e atividade.

Vem então a segunda etapa do procedimento: a esterilização.

Para enxugar a liquidez que ele mesmo criou, o Banco Central vende títulos públicos por meio de operações compromissadas. O sistema financeiro devolve os reais ao BC e recebe, em troca, títulos remunerados pela Selic — a mesma Selic que atraiu o capital especulativo em primeiro lugar.

O resultado é um arranjo revelador do regime monetário brasileiro. O Banco Central aplica as reservas internacionais em ativos seguros, que rendem algo próximo à taxa de juros americana — baixa. Ao mesmo tempo, remunera o sistema financeiro doméstico à Selic — alta. A diferença não desaparece. Ela vira custo fiscal e aparece como aumento da dívida pública.

Ou seja: para neutralizar os efeitos da entrada de capitais especulativos, o Estado paga caro. Muito caro.

Na medicina, a esterilização é um procedimento pontual, necessário para evitar infecção. Na economia brasileira, ela se tornou rotina. Aplicada de forma permanente, deixa de ser proteção e passa a ser agressão ao organismo.

O discurso oficial afirma que tudo isso é necessário para controlar a inflação. Mas o que esse arranjo incentiva, na prática, é um processo agudo de financeirização e concentração de renda.
E isso tudo num sistema de metas de inflação que, não raro, ou encosta no teto da banda ou simplesmente o ultrapassa.

O carry trade transforma o país em plataforma de rendimento financeiro. As reservas internacionais viram escudo simbólico de solvência. A dívida pública cresce não porque o Estado investe demais, mas porque remunera a liquidez que ele próprio cria e precisa esterilizar para sustentar o regime de metas de inflação.

No Brasil, a Selic elevada e a esterilização permanente não são efeitos colaterais da política monetária: são o próprio método. Um método que organiza expectativas, remunera a arbitragem financeira e disciplina a economia real. Se ao menos usássemos as reservas internacionais para a construção de uma banda cambial, a dependência de taxas de juros tão elevadas seria possivelmente menor.

É aqui que a metáfora médica se torna incômoda. Esterilizar em excesso elimina também as células saudáveis. No Brasil, a esterilização monetária não elimina apenas o “excesso de liquidez”. Elimina o investimento produtivo, o crédito de longo prazo e a disposição de planejar.

A economia fica asséptica. Segura. Estável. E estagnada.

Na medicina, ninguém esteriliza um paciente indefinidamente.
Na economia brasileira, isso virou método.

Talvez esteja aí o diagnóstico que insistimos em ignorar: não é a economia que precisa ser esterilizada, mas o regime monetário que precisa ser repensado.

Henrique Morrone é economista, professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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