5 de junho de 2026

O país que nasceu velho, por Henrique Morrone

Nosso capitalismo nasce velho em forma e conteúdo e, com o tempo, rejuvenesce apenas na aparência, por meio da adoção de peripécias exóticas
Pablo Picasso

O Brasil nasceu com uma economia marcada por hierarquias rígidas e dominação, não por mercado e concorrência.
Acumulação no país surgiu da expropriação e escravidão, com mercado e modernização servindo para manter desigualdades.
Capitalismo brasileiro mantém lógica colonial, com poucos acumulando e muitos trabalhando, apesar de aparente modernização.

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O país que nasceu velho

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por Henrique Morrone

O Brasil é um curioso caso de Benjamin Button econômico. Nasceu velho. Velho em suas ideias: na forma como organizou trabalho, terra e poder. Velho na naturalidade com que aceita hierarquias rígidas travestidas de eficiência. Com o tempo, tentou parecer jovem: importou teorias, sofisticou o sistema financeiro, adotou a linguagem da governança, da produtividade e da racionalidade econômica. Até a panaceia do sistema de metas foi incorporada. Mas, como Benjamin, apenas trocou a aparência. Os ossos, no entanto, continuaram coloniais.

Há quem sustente que o capitalismo tenha nascido virtuoso e se corrompido ao longo do caminho — como se houvesse uma idade de ouro perdida, depois deformada por excessos, distorções ou intervenções mal dosadas. Clifton formulou essa dúvida de maneira incômoda e decisiva: o capitalismo nasce perfeito e involui, ou nasce imperfeito e aprende a se apresentar como natural? A pergunta não é retórica. Dela se alimenta todo o conforto reformista que insiste em tratar o problema como desvio, nunca como origem.

Stephen Hymer oferece uma resposta menos tranquilizadora. Ao reler Robinson Crusoé, ele desmonta o mito fundador da economia. O Robinson celebrado nos manuais — frugal, eficiente, autossuficiente — existe apenas parcialmente no romance de Defoe. Há ali outro Robinson, menos romantizado e mais revelador: o do colonizador armado, que acumula riqueza pela força, pelo monopólio e pela submissão do outro. Primeiro vêm as armas, o medo e o controle do território e da natureza; depois, a contabilidade, os lucros e a abundância. O mercado entra em cena tardiamente, apenas quando a hierarquia já está pronta — e sempre na superfície. As relações de poder permanecem submersas, ocultas sob o ruído das trocas, revelando-se plenamente apenas no chão da produção.

Enquanto está sozinho na ilha, Robinson leva uma vida despretensiosa. Produz para autoconsumo, não acumula obsessivamente, não mede desempenho, não fala em eficiência. O dinheiro perde sentido. A economia funciona porque não há ninguém a dominar. Mas basta surgir Sexta-Feira para que o Homo Economicus desperte. Voltam as metas, a disciplina, o cálculo, a exploração. O capital reaparece como relação social — poder e dominação sobre o outro. A acumulação exige subordinação; sem ela, definha.

O Brasil nunca saiu dessa ilha romantizada. A plantação e o latifúndio precederam a indústria; o comando veio antes do mercado. Aqui, a acumulação não nasceu da concorrência, mas da expropriação dos povos originários, do suor e do sangue encapsulados em frascos delicados de lucros abundantes. Escravidão, expropriação e dependência externa não foram desvios iniciais — foram fundamentos. O que veio depois — preços, instituições “modernas” e discursos de neutralidade — serviu para manter e reproduzir uma ordem já desigual. Chamamos isso de amadurecimento e desenvolvimento, infelizmente restritos a poucos.

Por isso, nosso capitalismo nasce velho em forma e conteúdo e, com o tempo, rejuvenesce apenas na aparência, por meio da adoção de peripécias exóticas produzidas no centro dito civilizado. Incorpora instrumentos do futuro — fintechs, derivativos, metas fiscais, inteligência artificial — mas preserva a lógica do passado: poucos mandam, muitos trabalham, quase ninguém acumula. Juros persistentemente elevados, investimento produtivo cronicamente baixo, indústria tratada como nostalgia: tudo isso é apresentado como falha temporária, quando não passa da engrenagem funcionando a céu aberto. Chamamos de modernização aquilo que apenas deixa tudo como está, mudando para que nada mude.

A indagação de Clifton incomoda porque desmonta o álibi preferido dos reformistas: a ideia de que o problema está no percurso, não no ponto de partida. A leitura de Hymer aprofunda o diagnóstico. O capitalismo não envelheceu mal; ele sempre foi assim. O mercado nunca foi o coração do sistema, apenas sua superfície ilusória. O que pulsa por baixo é produção orientada à acumulação, sustentada por comando, hierarquia e poder.

Como Benjamin Bottom, o Brasil insiste em parecer jovem à força — mas não pelas forças da natureza. Discorre sobre eficiência enquanto bloqueia o investimento produtivo; em responsabilidade enquanto preserva rendas herdadas; em racionalidade enquanto teme qualquer projeto que implique dividir poder. Não se trata de um sistema que se degenerou com o tempo. Trata-se de um sistema que funciona exatamente como foi fundado.

Benjamin não escolheu nascer velho.
O Brasil, ao contrário, transformou isso em projeto.
Um projeto que chama dominação de prudência e atraso de maturidade.

Henrique Morrone é economista, professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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