4 de junho de 2026

Os serviços funerários de Jessé Souza, por Antonio Lassance

Pensar transformação sem agenda é como imaginar a Revolução Russa sem o famoso “paz, pão e terra”.
Reprodução

Jessé Souza lança livro sobre a crise da esquerda e critica PT como “plano B da elite paulista”.
Ele destaca que a esquerda entra em 2026 sem direção clara, com Lula como única liderança visível.
Jessé defende endurecimento penal e aposta em narrativa para ressuscitar a esquerda nas eleições.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

DO OFÍCIO DE LEVANTAR DEFUNTO: os serviços funerários de Jessé Souza

por Antonio Lassance

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Jessé Souza lançou Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la (Civilização Brasileira, 2025). A depender da religião da pessoa, os que acreditam que morto ressuscita apelam para uma única saída: orações. Jessé soma-se a Vladimir Safatle nessa empreitada. Talvez nenhum dos dois tenha atentado que as palavras “morte” e “ressurreição” são meio fortes para serem invocadas, a não ser que a pessoa tenha credenciais suficientes no campo do ocultismo ou da parapsicologia.

Se quisessem prescrever alguma farmacologia do mundo dos vivos, seria bom que eles reconhecessem que o moribundo tem ao menos alguns sinais vitais. Todavia, o que ambos têm feito, em clima de velório, é rogar reiteradamente que um “espírito” se aposse desse corpo funéreo a que chamam de esquerda. Se a esquerda não é mais um ser vivente, ela só pode ser o espectro de um campo político idealizado que ronda a cabeça desses dois intelectuais.

Soube da notícia do novo livro de Jessé Souza pela entrevista que ele concedeu recentemente a O Globo (28 de dezembro). Jessé decidiu nos brindar com um coquetel que mistura frases bombásticas, platitudes e equívocos. Logo de início, ele afirma que o PT se conformou em ser o “plano B da elite paulista” e que oferece apenas um “docinho aos pobres para garantir a ordem”. Sim, algo que lembra a turma de intelectuais progressistas que, vinte anos atrás, criticava o Bolsa Família como política compensatória.

Curioso que esse plano B elitista inclui agora a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Mais curioso ainda é que a elite paulista está saboreando e deglutindo sem reclamar um  docinho de jiló que prevê a elevação de alíquotas de imposto dos mais ricos para permitir essa isenção aos mais pobres. Não sei como O Globo não percebeu que ali, na entrevista, se estava diante de um furo espetacular de reportagem sobre uma inédita benevolência dos farialimers. Merecia manchete de capa.

Uma outra frase de Jessé dá título à entrevista: “A esquerda entra em 2026 sem direção clara para o futuro”. E segue adiante: “A esquerda vai para 2026 sem direção. Para além do Lula, não sabe quem é.” Lula sabe porque “a luminosidade de Lula” é única. Assim falou Zaratustra! Uma pausa para a reflexão: a esquerda não sabe, só o Lula sabe? Então, Lula sabe? Ufa! Que ótimo! Pensando bem, não tem nada de ótimo nisso. Lula, seu luminoso egoísta! Conte logo qual é o caminho! Só você e Jessé sabem? Qual o sentido desse segredinho? Fiquei confuso.

Jessé nos informa que “o governo entra 2026 atento ao cotidiano e a seus temas urgentes— segurança pública, programas de renda, impostos— mas vazio nas ideias”. Quem diria? A isenção de imposto de renda vai estar universalizada para os pobres e a classe média baixa (85% da população), mas isso ainda não é sequer uma ideia. Quer dizer que não teve batalha de ideias nem disputa ferrenha de narrativas e isso passou numa boa? Só há uma explicação possível para esse milagre: a benevolência da Faria Lima contagiou o Centrão nesse plano B e, de repente, não mais que de repente, isso foi aprovado naquelas votações do Congresso, na calada da noite. Aleluia!

E que tal a agenda do fim da jornada 6 x 1? E a ideia… perdão, proposta de tarifa zero? Também devem ser “só” temas do “cotidiano” e “urgentes”, mas não ideias, certo? Pois é. Essas duas agendas históricas da esquerda, encampadas como prioridades do governo para 2026, são assuntos mundanos demais e não têm nível suficiente de abstração para serem dignas da análise, do diagnóstico e do prognóstico de uma entrevista do Jessé.

Ele não cita uma única vez qual é sua agenda alternativa para o país, seja para o agora (eleições de 2026), seja para o que ele chama de “futuro”, que ele situa… nas eleições seguintes, 2030. Nada como alguém que vê longe.

Pensar transformação sem agenda é como imaginar a Revolução Russa sem o famoso “paz, pão e terra”. Jessé talvez prefira a Revolução Francesa e seus lemas magnânimos de liberdade, igualdade e fraternidade. Isso sim que era revolução! Na verdade, o que os revolucionários franceses queriam mesmo era bem menos abstrato: abolição da servidão e dos privilégios, reforma agrária e uma república laica em que o Estado assumisse funções públicas que até então eram privilégio da nobreza e da igreja.

O jornalista pergunta: “A justiça tributária pode ser uma arma importante para a esquerda?” Jessé responde: “Sim”. Outra pergunta: “O discurso em torno da soberania nacional seguirá importante em 2026?” Novamente, a resposta é “Sim”. Ou seja, em dois temas cruciais a qualquer país (soberania e impostos), está tudo no rumo certo, mas a esquerda morreu, certo? Mais uma vez, o mistério: quem encampou essas lutas, além de Lula, o luminoso solitário?

Quando instado a falar em segurança pública, Jessé solta sua ideia mais original: “É preciso defender o endurecimento na punição de crimes específicos… Não há outra saída para a esquerda a não ser andar nesse fio de navalha”. Notem: a grande solução do Jessé para a questão da segurança pública é o aumento de pena. Por que não pensamos nisso antes? Será que algum especialista em segurança pública deu essa dica de mão beijada ou ele chegou a essa conclusão sozinho?

O jornal faz então a pergunta mais difícil e levanta a bola para o “grand finale”: “De que modo a esquerda poderia ampliar sua votação já em 2026?”. Anotem o gabarito revelado por Jessé: “denunciar e nomear o inimigo real que deixa o eleitor mais pobre, quem o explora.” “A esquerda precisa encontrar narrativa própria”. Ou seja, a chave da ressurreição da esquerda, que jaz em uma cama, feito Bela Adormecida, é tascar um bom xaveco narrativo no povão. De preferência, é bom fazer isso o quanto antes. Afinal, Jessé, o profeta, já havia vaticinado em entrevista anterior que, como a “esquerda desistiu de lutar”, “isso aqui vai virar um Irã, uma Turquia”— sim, Jessé converteu a Turquia ao regime dos aiatolás.

Essa receita infalível é a pior parte da entrevista, aquela em que Jessé veste-se de coach de comunicação e propõe o proselitismo como principal arma para convencer o eleitor. Não é agenda. Esqueçam isso. É o discurso, estúpidos! Bastam ideias alinhadas e conceitos balanceados, como pneus de um carro. É o padrão discursivo água mole em pedra dura.

Se há um conselho de que a esquerda não precisa, é deste. Ao contrário. Uma parte da esquerda já faz isso de sobra. Essa esquerda púlpito vai bem, obrigado. É pródiga em proferir discursos proclamatórios, ao estilo Odorico Paraguaçu, com a alma lavada e enxaguada, e acha, como  Jessé, que propaganda é a arte de repetir mantras.


“Uma população imbecilizada não sabe quem são os seus inimigos” (Jessé Souza)


Jessé arremata com seu pós-iluminismo hegeliano: “A esquerda pode e deve disputar esse voto, mas para isso precisa se dedicar a esclarecer esse eleitor, a investir em sua transformação pelas ideias”.

Dias depois (1° de janeiro), em um artigo no ICL, Jessé bradou que “uma população imbecilizada não sabe quem são os seus inimigos”.

Tenho a séria desconfiança de que Jessé é a reencarnação de Aristides Lobo, autor da célebre frase sobre a Proclamação da  República: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”.

Se for para fazer um apelo ao além, que Deus nos livre de ideias desse tipo para ressuscitar a esquerda. Elas estão mais para palpite infeliz.

Antonio Lassance é doutor em ciência política e autor do livro Instituições, Estado e Políticas Públicas, entre outros.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Rui Ribeiro

    6 de janeiro de 2026 12:49 pm

    Mais um punitivista?

    “Notem: a grande solução do Jessé para a questão da segurança pública é o aumento de pena”.

    Jessé, a redução das desigualdades sociais é a solução para a segurança pública.

    Vou pesquisar o que diz Thomas Morus a respeito da inutilidade da punição para quem é marginalizado

  2. Laura

    6 de janeiro de 2026 1:13 pm

    Excelente texto!

  3. AMBAR

    6 de janeiro de 2026 3:22 pm

    É de se perguntar ao Jessé quantos e quais partidos ele pode nominar que tenham mantido a legenda mesmo após a destruição total de seu lider ou mudança de cenário político. Se ele nominar algum além do PT estará mentindo.
    Quando Lula esteve preso e desacreditado, quando todos os componentes do PT temiam ostentar filiação e a ameaça de cassação da legenda era uma realidade, o PT não morreu e nem mudou de nome. Agora, que o PT traz seu líder de volta e retoma ao poder com a grande possibilidade de nova reeleição, o nosso querido Jessé o acusa de “cadáver”.
    É fácil atirar pedras no trem enquanto ele está passando. Quero ver se quando o trem para o agressor vai ter coragem de continuar atirando pedras. Talvez, se o trem parasse apenas para o Jessé embarcar com as suas “brilhantes idéiais” ele reconhecesse algum mérito na viagem. Sucede que o Jessé não tem valores para pagar essa passagem, e a brilhante frase : ““uma população imbecilizada não sabe quem são os seus inimigos”, o inclui com justiça na população imbecilizada.

  4. Victor Lima

    6 de janeiro de 2026 7:51 pm

    Nos meus tempos de futebol, na “pelada”, a gente falava que um cara que até jogava direitinho mas começava a fazer presepadas era um “mascarado”. Parece o caso do sábio em questão.

  5. evandro

    7 de janeiro de 2026 12:45 am

    Acho curioso o autor desta reportagem comentar o novo livro de Jessé Souza sem ter lido o livro, apenas assistido à entrevista que deu ao Globo.

    1. Moacir Rodrigues de Pontes

      8 de janeiro de 2026 8:30 pm

      Parece me que ele comentou a entrevista e não o livro.

      1. LMC

        11 de maio de 2026 10:11 am

        Futebol é alienação das massas.Jessé está certíssimo.

  6. Clever Mendes de Oliveira

    7 de janeiro de 2026 1:19 am

    Antonio Lassance,
    Muito boa a sua crítica.
    É bem verdade que a crítica em geral é fácil.
    Um dia eu fiz um trabalho que o professor elogiou: uma obra prima de tautologia enriquecida com pérolas de truísmo.
    No caso de Jessé ele não merece o elogio que eu ganhei. Ele quer que o PT abandone seus princípios e se dedique ao marketing. E se o que ele traz para o marketing pode ser chamado de ideias elas não são boas nem são novas.
    Abraços,
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 06/01/2026

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