24 de julho de 2026

Boaventura de Sousa Santos e o tempo das guerras sem fim, por Salvio Kotter

Boaventura associa a expansão da extrema direita à crescente incompatibilidade entre o capitalismo contemporâneo e a democracia.
Boaventura de Sousa Santos - Reprodução

Boaventura relaciona a ascensão da extrema direita à crise da democracia, militarização e domínio do capital global.
A guerra é vista como saída econômica provisória, impulsionando a indústria armamentista e prolongando conflitos.
Ele destaca a manipulação da percepção social pelo capitalismo via redes digitais, afetando consciência e resistência política.

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Boaventura de Sousa Santos e o tempo das guerras sem fim

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por Salvio Kotter

A entrevista concedida por Boaventura de Sousa Santos a Luís Nassif foi dessas conversas que ultrapassam largamente o formato jornalístico. Em algo como uma hora, Boaventura recompôs diante de nós uma imagem do mundo contemporâneo, ligando acontecimentos que costumam chegar fragmentados pela imprensa, a ascensão da extrema direita, a crise da democracia liberal, o declínio dos Estados Unidos, o crescimento da China, a militarização da Europa, a destruição de Gaza, o enfraquecimento dos movimentos pela paz, a crise das esquerdas e o domínio crescente do capital sobre a imaginação humana.

A força de sua análise reside justamente nessa capacidade de restituir aos acontecimentos a espessura da história. Boaventura recusa a leitura episódica, aquela que transforma Trump, Bolsonaro, Netanyahu ou qualquer outro governante em acidentes isolados. Essas figuras são manifestações concentradas de processos mais profundos. Elas surgem de sociedades submetidas durante décadas à concentração da riqueza, ao desmonte dos serviços públicos, à mercantilização da política e à colonização da consciência coletiva.

O mundo descrito por Boaventura encontra-se num interregno. A ordem formada depois da Segunda Guerra Mundial perdeu sua capacidade de organizar as relações internacionais, enquanto nenhuma nova ordem adquiriu legitimidade e força suficientes para substituí-la. As antigas promessas do liberalismo, do progresso econômico e da democracia representativa envelheceram. As instituições permanecem de pé, porém a substância que lhes conferia alguma credibilidade se esvai a cada dia.

Esse vazio histórico produz monstros.

Portugal oferece um exemplo perturbador. Meio século depois da Revolução dos Cravos, o país assiste ao crescimento da extrema direita e ao branqueamento da ditadura salazarista. O fascismo regressa coberto pela linguagem da eficiência, da ordem e da normalidade. Salazar reaparece como administrador austero. O colonialismo recebe versões sentimentais. As prisões políticas, a censura, a tortura, o campo do Tarrafal e as décadas de encarceramento dos opositores tornam-se detalhes incômodos, empurrados para as margens da memória.

Boaventura formula uma expressão inquietante para descrever essa operação, fascismo de rosto humano. Durante certo período, setores reformistas imaginaram a possibilidade de um capitalismo de rosto humano, domesticado pelo Estado social, pela legislação trabalhista, pela tributação progressiva e pela presença organizada dos trabalhadores. Agora, os herdeiros políticos do autoritarismo procuram conferir um semblante aceitável ao fascismo. Eliminam o uniforme, mantêm o programa. Abandonam a saudação, preservam o ódio. Trocam os tanques pelas plataformas digitais, os comícios de massas pelos algoritmos e a propaganda oficial pela produção incessante de ressentimento.

A extrema direita aprendeu a utilizar a democracia como uma escada. Participa das eleições, mobiliza as frustrações populares e ocupa as instituições. Uma vez instalada no poder, esvazia os mecanismos democráticos, enfraquece os órgãos de controle, captura o Estado, ataca universidades, persegue adversários e subordina a vida pública aos interesses privados que financiaram sua ascensão. Foi esse o itinerário de Bolsonaro. É esse o movimento de Trump. É esse o método empregado por forças autoritárias em diversas regiões do mundo.

Boaventura associa a expansão da extrema direita à crescente incompatibilidade entre o capitalismo contemporâneo e a democracia. O capital exige liberdade absoluta de circulação, investimento e apropriação. A democracia, quando possui conteúdo social, impõe limites, reconhece direitos, protege trabalhadores, tributa fortunas e permite que a maioria interfira na distribuição da riqueza. A tensão entre essas duas forças tornou-se explosiva. O capital procura conservar os procedimentos eleitorais enquanto destrói as condições materiais que poderiam dar significado à soberania popular.

A social democracia aparece, nesse cenário, como uma possibilidade imediata de sobrevivência para as esquerdas. Boaventura reconhece sua importância histórica e sua utilidade defensiva. O problema está na fragilidade das condições que um dia tornaram possível o Estado de bem estar. A força dos sindicatos diminuiu. A indústria deslocou-se para outras regiões. A riqueza concentrou-se no setor financeiro. Os governos nacionais perderam autonomia. As empresas transnacionais adquiriram um poder de chantagem superior ao de muitos Estados.

Durante as décadas de reconstrução europeia, o capital aceitou algumas concessões porque enfrentava trabalhadores organizados, partidos comunistas influentes e a existência de um bloco socialista. A burguesia tinha medo. O medo produziu reformas. Quando a ameaça desapareceu, as concessões começaram a ser retiradas. Privatizações, precarização do trabalho, austeridade fiscal e destruição dos sistemas públicos ocuparam o lugar da promessa social democrata.

O Estado de bem estar converteu-se num Estado de mal estar.

Essa formulação de Boaventura descreve com precisão o clima psicológico de nosso tempo. Milhões de pessoas vivem com a sensação de que suas vidas estão piorando e continuarão a piorar. Trabalham mais, recebem menos, endividam-se, perdem direitos, convivem com serviços públicos degradados e observam uma minoria acumular fortunas obscenas. A extrema direita recolhe esse sofrimento e lhe oferece alvos falsos, o imigrante, o professor, o artista, o funcionário público, a mulher emancipada, o negro, o indígena, o comunista, o pobre beneficiário de alguma política social.

A oligarquia apresenta-se como força antissistema. Empresários bilionários, banqueiros, proprietários de plataformas digitais, dirigentes de conglomerados de comunicação e políticos profissionais afirmam representar uma revolta contra as elites. A fraude é colossal. Os homens mais integrados ao sistema sequestram a linguagem da insurgência e a dirigem contra aqueles que possuem menos poder.

O aspecto mais penetrante da entrevista talvez esteja na análise da conquista capitalista da percepção. Durante grande parte dos séculos dezenove e vinte, o capitalismo dominava materialmente as sociedades, embora enfrentasse uma poderosa contestação ideológica. Trabalhadores, intelectuais e movimentos populares sabiam que a realidade existente podia ser transformada. Havia uma ideia de futuro. A situação presente parecia injusta, e o amanhã podia ser melhor.

Nas últimas décadas, o capitalismo investiu maciçamente na construção das subjetividades. Penetrou na educação, nos meios de comunicação, na indústria cultural, no entretenimento, na linguagem religiosa e nas redes sociais. Transformou o indivíduo em consumidor permanente, concorrente de seus semelhantes e empresário imaginário de si mesmo. A exploração tornou-se uma experiência interior. O trabalhador responsabiliza-se pelo próprio fracasso. O pobre sente vergonha da pobreza. O desempregado interpreta o desemprego como deficiência pessoal. A vítima absorve o ponto de vista de quem a domina.

A velha separação entre estrutura econômica e produção ideológica tornou-se muito mais difícil de estabelecer. As plataformas digitais extraem riqueza da atenção, dos desejos, das amizades, dos afetos e das angústias. A consciência humana passou a integrar diretamente o processo de acumulação. Os algoritmos organizam a percepção, selecionam os acontecimentos visíveis, distribuem indignações e fabricam a aparência de consenso. O poder econômico governa as condições pelas quais as pessoas reconhecem o mundo.

Essa conquista da percepção ajuda a explicar por que a degradação social pode produzir movimentos políticos contrários aos interesses da maioria. O ressentimento ocupa o lugar da consciência de classe. A identidade fabricada substitui a solidariedade. O trabalhador explorado encontra algum conforto imaginário na possibilidade de sentir-se superior a outro trabalhador. A extrema direita oferece privilégios simbólicos em troca da submissão material.

Boaventura observa que os antigos movimentos capazes de organizar uma resistência internacional perderam força. O movimento pela paz, outrora vigoroso na Europa, quase desapareceu durante a guerra da Ucrânia. O movimento ecológico foi empurrado para segundo plano diante da militarização. O próprio Fórum Social Mundial, do qual Boaventura foi um dos grandes animadores, deixou de ocupar o lugar que tivera no início do século.

A frase segundo a qual outro mundo é possível continha uma energia histórica imensa. Ela permitia reunir lutas diferentes numa esperança comum. Hoje, a esquerda enfrenta enorme dificuldade para converter a indignação dispersa em projeto coletivo. Possui causas, organizações, movimentos e intelectuais, porém carece de uma imagem convincente do futuro.

A crise do capitalismo encontra uma saída provisória na guerra. Boaventura descreve uma passagem do predomínio da bolha financeira para uma etapa de acumulação baseada na indústria armamentista. O capital financeiro continua poderoso, embora sua instabilidade exija novas áreas de investimento. A produção de armas oferece contratos públicos gigantescos, lucros garantidos e mercados continuamente renovados pela destruição.

Uma ponte, depois de construída, pode durar cem anos. Uma escola pode servir a muitas gerações. Um hospital prolonga vidas. Uma bomba realiza seu valor econômico quando é utilizada e destruída. A guerra consome mercadorias numa escala incomparável e cria imediatamente a necessidade de novas mercadorias. Destrói cidades, estradas, portos, casas e fábricas, preparando o terreno para futuros negócios de reconstrução. O horror humano converte-se em oportunidade contábil.

A ideia de uma era de guerras sem fim nasce dessa engrenagem. Quando a economia depende crescentemente da militarização, a paz torna-se inconveniente para setores poderosos. Os conflitos precisam continuar, mudar de fronteira e encontrar novos inimigos. A indústria bélica exige uma pedagogia permanente do medo. Populações inteiras devem acreditar que se encontram ameaçadas, cercadas e a poucos passos da catástrofe.

Os Estados Unidos ocupam o centro dessa crise. Boaventura viveu durante décadas parte do ano naquele país e descreve uma degradação anterior a Trump. A transformação do financiamento político permitiu que grandes fortunas e corporações ocupassem de maneira quase direta o Estado. A fusão entre dinheiro e poder político destruiu parcelas importantes da democracia norte-americana.

Trump aparece como sintoma extremo desse processo. Seu governo exprime a privatização do Estado, o enriquecimento de círculos familiares, a destruição das instituições públicas e a conversão da política externa em negócio. A decadência do império antecede o personagem. Trump fornece sua forma espetacular.

Boaventura considera que os Estados Unidos perderam para a China uma parte decisiva de sua capacidade produtiva. A vantagem restante concentra-se no domínio militar, no sistema financeiro, no dólar, nas redes de inteligência e na influência política internacional. As armas surgem como último recurso de uma potência que encontra dificuldades crescentes para preservar sua hegemonia por meios econômicos.

Há uma imagem poderosa na entrevista. As armas seriam o estágio final do império. Quando a capacidade de organizar o mundo diminui, resta a força de destruí-lo. Essa percepção aproxima o presente de outros momentos de declínio imperial. A superioridade militar pode prolongar uma hegemonia, porém também pode acelerar sua ruína, principalmente quando a guerra consome os recursos antes destinados à ciência, à educação, à infraestrutura e ao bem estar da população.

O confronto com a China estrutura uma parte crescente da política internacional. A China representa o principal polo econômico capaz de sustentar uma ordem multipolar. Sua presença na América Latina, na África e na Ásia cria alternativas comerciais e financeiras ao monopólio ocidental. Os Estados Unidos respondem com sanções, cercos tecnológicos, pressões diplomáticas e intervenções políticas.

O Brasil ocupa uma posição central nesse conflito. Sua dimensão territorial, sua riqueza natural, sua produção agrícola, sua capacidade industrial e sua relação econômica com a China fazem do país uma fronteira decisiva da disputa mundial. Romper os vínculos entre Brasil e China produziria danos profundos aos dois países e atingiria duramente a própria economia brasileira.

Essa condição aumenta a pressão sobre nossa democracia. Boaventura enxerga na América Latina um laboratório de operações políticas, jurídicas, mediáticas e digitais destinadas a impedir governos progressistas ou a limitar sua capacidade de ação. A guerra contemporânea utiliza tribunais, campanhas de desinformação, financiamento oculto, redes religiosas, serviços de inteligência e tecnologias capazes de falsificar imagens e vozes.

A inteligência artificial amplia assustadoramente esse arsenal. Torna-se possível atribuir a um candidato palavras que jamais pronunciou, fabricar vídeos convincentes e disseminar milhões de mensagens personalizadas. A política transforma-se numa batalha pela produção da realidade. A mentira deixa de depender apenas da credulidade, ela adquire imagem, voz, movimento e aparência documental.

Nesse ponto, a defesa da democracia exige muito mais do que a fiscalização das urnas. Exige soberania tecnológica, regulação das plataformas, transparência financeira, proteção dos sistemas eleitorais e fortalecimento da comunicação pública. Exige ainda uma cultura política capaz de resistir à manipulação e reconhecer os interesses materiais escondidos atrás das guerras culturais.

A Europa, na análise de Boaventura, renunciou a um projeto autônomo. Sua política exterior subordina-se crescentemente à estratégia dos Estados Unidos. A guerra da Ucrânia acelerou a militarização e criou um mercado extraordinário para a indústria armamentista norte-americana. Governos europeus reduzem investimentos sociais e ampliam despesas militares, enquanto a população enfrenta estagnação econômica, desemprego e perda de direitos.

A contradição política tornou-se desconcertante. Alguns dos partidos europeus que se apresentam contra a continuidade da guerra pertencem à extrema direita. A esquerda, historicamente ligada ao pacifismo e ao internacionalismo, encontra-se frequentemente associada à política de rearmamento. O nacionalismo ocupa o espaço abandonado pela crítica progressista da guerra.

Boaventura interpreta a guerra da Ucrânia como parte de uma estratégia geopolítica norte-americana e considera que a Europa assumiu os custos de sua manutenção. Essa tese certamente provocará controvérsia, como deve ocorrer diante de qualquer interpretação abrangente de um conflito dessa magnitude. Sua importância está em recolocar no debate os interesses econômicos e estratégicos que costumam desaparecer sob o vocabulário moral das relações internacionais.

A Europa gosta de apresentar-se como continente da razão, dos direitos humanos e da civilização. Sua história foi construída também pelo colonialismo, pela escravidão, pelas guerras religiosas, pelo fascismo e por duas guerras mundiais que mataram dezenas de milhões de pessoas. A memória seletiva permite transformar a violência europeia em exceção e a violência dos outros povos em essência cultural. Boaventura devolve a Europa à história e dissolve sua pretensão de inocência.

A discussão sobre Israel ocupa outro momento decisivo da conversa. Boaventura separa com clareza o judaísmo, a experiência histórica dos judeus e o Estado de Israel. Essa distinção possui enorme importância intelectual e moral. A condenação das políticas do governo israelense, da ocupação dos territórios palestinos e da destruição de Gaza pertence ao campo da crítica política. O antissemitismo dirige-se contra um povo, uma cultura e uma religião. Confundir essas duas dimensões favorece a impunidade do Estado e alimenta preconceitos seculares.

Boaventura situa a criação de Israel na história do colonialismo europeu e da Declaração Balfour. O novo Estado funcionaria como presença estratégica ocidental no Oriente Médio. Ao longo das décadas, converteu-se num centro militar, tecnológico e de inteligência profundamente articulado aos Estados Unidos.

A noção de subimperialismo, elaborada por Ruy Mauro Marini, ajuda a compreender esse papel. Uma potência subimperial atua em sua região como força militar e política associada ao poder hegemônico, embora preserve interesses e ambições próprios. Israel adquiriu tamanha influência que a relação com os Estados Unidos parece, em certos momentos, inverter as posições tradicionais entre potência principal e aliado regional.

Essa discussão exige precisão. As redes de influência política devem ser identificadas por meio de instituições, governos, empresas, grupos de pressão, contratos militares e fluxos financeiros. Generalizações sobre comunidades religiosas ou étnicas conduzem a erros históricos e favorecem preconceitos. O ponto mais sólido da reflexão de Boaventura está na crítica ao sionismo de Estado, ao colonialismo, à ocupação e à associação entre poder militar, tecnologia de vigilância e interesses econômicos.

Ele também recorda a existência de judeus e organizações judaicas que combatem a guerra, denunciam o governo Netanyahu e defendem os direitos palestinos. Essa presença destrói a tentativa de identificar todo o povo judeu com um projeto político específico. A luta contra o antissemitismo e a luta contra o colonialismo podem caminhar juntas. A dignidade humana não aceita hierarquias entre vítimas.

A religião aparece na entrevista como a última fronteira do controle ideológico. Boaventura fala numa indústria de Deus, especialmente visível em setores do neopentecostalismo empresarial. A fé converte-se em mercadoria, instrumento eleitoral e técnica de obediência. Pastores prometem prosperidade, legitimam a riqueza e transformam a pobreza em falta de fé.

A formulação mais provocadora surge quando Boaventura propõe libertar Deus. Para um pensador de esquerda, essa expressão representa uma abertura interessante. A crítica da religião pode dirigir-se contra as instituições que aprisionam a experiência espiritual, exploram o sofrimento e utilizam o nome divino para defender a propriedade, a guerra e a opressão.

Jesus Cristo, recorda Boaventura, seria tratado como subversivo no mundo contemporâneo. Sua defesa dos pobres, sua condenação dos ricos, seu desprezo pelo poder e sua oposição aos sacerdotes aliados ao império seriam suficientes para incluí-lo em alguma lista de extremistas. A indústria religiosa celebra um Cristo domesticado e silencia o homem que enfrentou os poderosos.

Essa reflexão conduz diretamente ao novo livro de Boaventura, Dicionário Insubmisso para o Século Vinte e Um, publicado pela Kotter Editorial. Tenho a honra de editar essa obra, formada por trinta exercícios socioespirituais. O livro reúne pequenos ensaios sobre os impasses de nosso tempo, combinando sociologia, política, história, espiritualidade e crítica cultural.

Boaventura define a vocação do intelectual crítico como resistência ao torpor do conformismo. Essa frase alcança o centro de sua trajetória. O conformismo produz uma espécie de sono coletivo. Ideias desacreditadas continuam governando as universidades, os jornais, os bancos centrais e os ministérios. A crença na autorregulação dos mercados sobrevive a todas as crises provocadas pelos próprios mercados. O capitalismo desaparece do vocabulário acadêmico e reaparece com o nome aparentemente neutro de economia de mercado.

São ideias mortas que conservam poder institucional.

A insubmissão intelectual começa pela revisão dos conceitos. Palavras gastas precisam recuperar seu conteúdo histórico. Democracia, liberdade, desenvolvimento, mercado, religião, socialismo, paz e progresso tornaram-se territórios em disputa. Quem controla o significado das palavras controla uma parte da experiência política.

O livro busca inspiração remota nos exercícios espirituais dos primeiros cristãos. Boaventura recorda que o cristianismo foi, durante seus primeiros séculos, uma religião perseguida e revolucionária. Jovens abandonavam a vida comum e retiravam-se para comunidades no deserto. O isolamento produzia estados de indiferença e esgotamento espiritual conhecidos como acédia.

Boaventura aproxima essa experiência da solidão contemporânea. As redes sociais prometem conexão e frequentemente destroem os laços horizontais. Milhares de contatos virtuais convivem com a ausência de amizade, comunidade e pertencimento. O indivíduo permanece conectado e solitário, visível e abandonado, exposto e incapaz de ser verdadeiramente reconhecido.

As escadas de Escher fornecem na capa a imagem do livro e talvez de nossa época. Algumas parecem subir, outras parecem descer, embora todas conduzam ao mesmo lugar. Caminhamos sem direção segura. As antigas certezas desapareceram. A história perdeu sua aparência linear. Avanços tecnológicos convivem com regressões políticas. A humanidade domina recursos extraordinários e parece cada vez menos capaz de decidir coletivamente como utilizá-los.

O ensinamento maior da entrevista está na necessidade de recuperar a capacidade de relacionar as coisas. A extrema direita relaciona-se com a crise do capital. A guerra relaciona-se com a acumulação. O colonialismo relaciona-se com a ordem internacional. A precarização relaciona-se com o ressentimento. As redes sociais relacionam-se com a transformação da consciência. A crise da esquerda relaciona-se com a perda de uma imagem compartilhada do futuro.

Boaventura convida a esquerda a abandonar o conforto das fórmulas repetidas. O vocabulário do século passado conserva enorme valor, porém precisa dialogar com formas novas de exploração, vigilância, isolamento e manipulação. A luta de classes continua presente. Ela atravessa agora os dados, os algoritmos, a biotecnologia, as plataformas digitais, a produção dos desejos e o próprio direito de perceber a realidade.

A tarefa política começa pela reconstrução dos vínculos. Sindicatos, movimentos populares, partidos, universidades, editoras, jornais independentes e comunidades precisam voltar a produzir experiências concretas de solidariedade. A democracia sobreviverá quando voltar a significar comida, moradia, saúde, educação, cultura, trabalho digno, segurança e participação real nas decisões coletivas.

Também precisamos recuperar a imaginação do futuro. Uma sociedade não suporta indefinidamente a sensação de que tudo ficará pior. O fascismo prospera quando monopoliza a esperança, ainda que ofereça uma esperança fraudulenta, construída sobre a exclusão e a violência. A esquerda precisa devolver a volição às pessoas a possibilidade de desejar uma vida diferente.

A entrevista de Boaventura produz inquietação porque se recusa a fabricar consolos. Ele sabe que as tendências atuais apontam para a militarização, a concentração do poder, a degradação democrática e a multiplicação das guerras. Também sabe que a história permanece aberta. As sociedades podem ser determinadas por estruturas poderosas, porém jamais são completamente previsíveis.

Toda ordem carrega suas contradições. Todo império encontra limites. Toda dominação produz resistências. O futuro dependerá da capacidade de transformar resistências dispersas em consciência, organização e projeto.

Entre os viventes e os sobreviventes, como diz Boaventura com sua amarga ironia, ainda podemos escolher o lado da vida. Escolher a vida significa combater a guerra, o colonialismo, o fascismo, a exploração e a indústria da mentira. Significa reconstruir uma política baseada na igualdade e na dignidade. Significa enfrentar o conformismo e a inércia das ideias mortas.

Essa é a insubmissão de que necessitamos. Uma insubmissão lúcida, culta, popular e radicalmente humana.

Salvio Kotter passou formações bem variadas, como Administração de Empresas, Música Erudita, Grego Antigo e Latim. Publicou vários livros, de ficção e não-ficção e é editor da Kotter Editorial, especializada em literatura, filosofia e política.

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Salvio Kotter

Salvio Kotter passou por formações bem variadas, como Administração de Empresas, Música Erudita, Grego Antigo e Latim. Publicou vários livros, de ficção e não-ficção e é editor da Kotter Editorial, especializada em literatura, filosofia e política.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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