21 de maio de 2026

A Lava Jato renasce, por Salvio Kotter

A máquina já está em movimento. Resta saber quem terá disposição para desligá-la antes que o estrago se repita.
Foto de Lula Marques

A “Lava Jato 2” ressurge com métodos e alianças da operação original, focando ataques seletivos ao STF, especialmente em Moraes e Toffoli.
Polícia Federal coordena vazamentos para a imprensa, gerando pressão sobre o STF e influenciando investigações e narrativas midiáticas.
No cenário eleitoral de 2026, ministros do STF, a PF e a imprensa atuam em conjunto, enquanto Lula enfrenta resistência e o jogo político se intensifica.

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A Lava Jato renasce, por Salvio Kotter

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[este texto está inteiramente embasado e roteirizado no que disse Luís Nassif no Jornal GGN 20 Horas de 17 de fevereiro de 2026. Coube-me degravar, selecionar os trechos e mudar o registro falado da língua para o registro escrito]

A Lava Jato renasce. Não com o mesmo nome, mas com a mesma lógica, os mesmos métodos, as mesmas alianças. Tudo o que definiu a primeira fase da operação volta agora em ciclo recomposto: vazamentos seletivos, ataques coordenados, instrumentalização de órgãos de Estado contra alvos políticos precisos.

O foco desta vez recai sobre o Supremo Tribunal Federal.

A Polícia Federal tornou-se peça central nesse mecanismo. Vazamentos oriundos de sua própria perícia alimentam reportagens destinadas a corroer a credibilidade de ministros do supremo, mas ministros específicos, escolhidos. O padrão ficou evidente desde a primeira denúncia publicada pelo Globo, assinada por repórter da casa, Malu Gaspar, sobre um contrato ligado a Alexandre de Moraes e uma mensagem atribuída ao diretor do Banco Central. Ali já se desenhava o roteiro: material sigiloso, produzido sob custódia federal, escorria para a imprensa com endereço certo.

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli concentram as investidas. Não por acaso.

Moraes ocupa hoje posição decisiva no enfrentamento ao crime organizado que fincou raízes na Faria Lima. É ele quem sustenta, no plano judicial, a retaguarda necessária às investigações da própria Polícia Federal nessa frente. Toffoli, por sua vez, detém a chave de um arquivo que muitos prefeririam ver destruído: a chamada Caixa Amarela, que contém restos mortais radioativos da Lava Jato original.

Esse acervo, guardado desde os tempos da 13ª Vara Federal de Curitiba, sob o comando de Sergio Moro, reúne material obtido por meios ilícitos. Gravações clandestinas. Registros de chantagens contra desembargadores. Indícios que remetem, segundo Tony Garcia, ex-informante da operação e responsável direto por parte dessas gravações, a vínculos entre a Lava Jato e agências de segurança norte-americanas. Garcia afirmou em entrevistas que a divulgação integral da Caixa Amarela exporia a extensão dessas conexões internacionais. Documentários já abordaram o tema, embora ainda falte documentação formal e conclusiva.

Independentemente de erros que Moraes e Toffoli possam ter cometido, o que os converteu em alvos prioritários foi as posições que assumiram. Foram torpedeados mais pelas virtudes do que pelos vícios. Moraes, por liderar o cerco judicial ao extremismo digital e ao capital especulativo que o financia. Toffoli, por obter e guardar provas capazes de desmontar a narrativa heroica da Lava Jato.

O esquema opera com precisão cirúrgica. A Polícia Federal produz laudos e relatórios. Fragmentos desses documentos chegam a jornalistas selecionados. A publicação gera comoção. A comoção pressiona o tribunal. O tribunal recua ou se divide. E o ciclo se alimenta.

Quando o ministro Toffoli indicou quatro peritos de reputação inatacável para acompanhar os trabalhos, a reação foi reveladora. Um desses especialistas desenvolveu sistema forense adotado por mais de quarenta países. Profissional de credenciais indiscutíveis. A nomeação deveria ter blindado o processo contra manipulações. Em vez disso, acelerou a ofensiva.

Num primeiro momento, o delegado-geral Andrei Rodrigues pareceu ter sido surpreendido pelo enquadramento que se armava dentro de sua própria instituição. A hipótese era plausível: a Polícia Federal é organismo vasto, com núcleos que operam com grau considerável de autonomia. Mas a sequência dos fatos dissipou qualquer dúvida sobre a natureza coordenada dos vazamentos.

O que se vê, portanto, é a reedição de um modelo testado e aperfeiçoado. A Lava Jato original destruiu reputações, paralisou empresas, desorganizou a política e entregou o país a um projeto autoritário. Fez tudo isso sob aplausos, protegida pelo verniz da moralidade pública. Agora o mesmo aparato se reorganiza, mira o Supremo e conta, outra vez, com a conivência de setores da imprensa e a omissão de quem deveria fiscalizar os fiscais.

A máquina já está em movimento. Resta saber quem terá disposição para desligá-la antes que o estrago se repita.

Os vazamentos cessaram naquele exato momento. Cessaram, e a campanha passou a girar em torno do material já divulgado, repetitiva, sem fôlego novo. Tentaram fabricar um álibi para blindar os conselheiros do BRB. Foi quando surgiu, do nada, um relatório de duzentas páginas sobre conversas atribuídas a Toffoli. Ninguém sabia a origem. Ninguém tinha visto o documento na íntegra. Mesmo assim, a condenação pública veio instantânea.

Logo depois, apareceu a história da compra do resort pela família do ministro, num terreno próximo a uma represa, adquirido por valor supostamente abaixo do mercado. Ninguém apresentou laudo que definisse o preço justo. Pouco importou. O massacre midiático já estava em curso.

E o resultado concreto? Toffoli saiu do caso. Em seu lugar, assumiu o ministro André Mendonça, evangélico, figura cara ao bolsonarismo, num cargo estratégico para as eleições de 2026. Com o processo nas mãos, pode direcionar o inquérito ao sabor de conveniências políticas. O esquema reproduz a velha lógica da Lava Jato, agora sob nova roupagem.

Na primeira instância, em Brasília, o juiz designado para a Operação Master é um dos mais radicais daquele período. Foi ele quem mandou reter o passaporte de Lula. Foi ele quem ordenou o fechamento do Instituto Lula. Dois centros nevrálgicos de possível manipulação de informações ficaram, portanto, sob o controle de agentes comprometidos com o mesmo campo ideológico. Lavajatismo requentado. O terceiro vértice é Davi Alcolumbre, presidente do Senado, atolado até o pescoço em conexões com o Banco Master, e que também ficou de posse desse material.

A segunda frente se abre no Tribunal Superior Eleitoral, com a ministra Cármen Lúcia.

O Globo repetiu o roteiro da primeira vez, ponto por ponto. Naquela ocasião, uma nota curta na coluna de Anselmo Gois insinuou que a ministra comprara um imóvel por valor subavaliado de alguém ligado a Carlinhos Cachoeira. Cármen Lúcia aderiu ao jornal de imediato. Durante meses, o Globo usou a cenoura para atraí-la. Cada frase sua virava manchete. A mineiridade, enaltecida como virtude rara.

Tudo voltou agora. Tudo. Basta folhear as edições das últimas três semanas para constatar a profusão de entrevistas com a ministra, o jeitinho mineiro celebrado, a mesma liturgia laudatória de antes. E o que fez Cármen Lúcia com esse capital simbólico renovado? Proferiu um discurso desmedido, ameaçando o desfile de uma escola de samba de Niterói. Alegou que o carnaval poderia dar margem a manobras eleitoreiras, que “grandes riscos” estariam em jogo, que o tribunal não ficaria quieto.

Absurdo flagrante. Uma escola de samba não tem vínculo com o governo federal, não guarda relação com o PT. Homenageia um personagem público, Lula, como tantas agremiações já homenagearam figuras de todos os matizes. Imputar propaganda eleitoral a um enredo carnavalesco extrapola qualquer leitura razoável da legislação. Um estudo detalhado sobre as normas eleitorais para fácil demonstra o tamanho dessa distorção.

O temor chegou a tal ponto que o próprio PT orientou seus militantes a não fazerem o gesto do “L” durante os desfiles. O ridículo perdeu o limite.

Eis o quadro. O Tribunal Superior Eleitoral, peça decisiva no tabuleiro de 2026, está nas mãos de uma ministra que, no auge da Lava Jato, jogou de todos os modos possíveis a favor da operação. De todos os modos. E a Polícia Federal, que produziu o dossiê de duzentas páginas contra Toffoli, agora prepara outro, desta vez mirando Alexandre de Moraes.

A Polícia Federal já não obedece ao delegado-geral Andrei Rodrigues. Quem manda, de fato, é a Associação dos Delegados. O partido político mais influente do Brasil não tem sigla registrada no TSE, mas opera com eficiência superior à de qualquer legenda. Tomou o freio nos dentes.

A explicação é simples e antiga. Nenhum dos abusos cometidos durante a Lava Jato resultou em punição para os responsáveis. Funciona como na ditadura: o excesso impune se repete, ampliado. Os 150 delegados mobilizados para investigar fraude veterinária no Paraná, com estardalhaço calculado para abalar a exportação de carne brasileira, não responderam pelo jogo de cena. A delegada cuja truculência empurrou o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina ao suicídio, em outubro de 2017, seguiu carreira sem arranhão. Nada aconteceu. E quando nada acontece, tudo se repete.

Agora chega a Lava Jato 2, vestida com outro nome.

O caso do Banco Master tem a mesma estrutura tentacular da operação curitibana: desdobramentos para todo lado, vazamentos seletivos, alvos escolhidos a dedo. Quem decide o que vira escândalo e o que permanece como mera investigação? Quem controla o fluxo de informações para a imprensa? Basta observar a cobertura recente. Sobre a relação do centrão com o Master, silêncio absoluto. Toda a artilharia se concentrou em três figuras: o ministro Dias Toffoli, o ministro Alexandre de Moraes e um simples diretor do Banco Central, Galípolo não, o tal Helios, acusado de pressionar conselheiros do BRB para absorver a carteira do Master.

Ninguém menciona o resto.

O ano eleitoral desponta com o tabuleiro completo. A parceria entre imprensa e Polícia Federal já se firmou. Os vazamentos correm no ritmo habitual. A ministra Cármen Lúcia, à frente do Tribunal Superior Eleitoral, controla o calendário e os limites do processo eleitoral. Todos os atores ocupam suas posições, e não adianta buscar interpretações benignas para o arranjo.

Podem dizer que o ministro Lewandowski atuou como conselheiro do Master sem praticar nenhum ato em favor do banco. Podem provar? Não importa. A lógica da Lava Jato nunca foi provar. Foi insinuar, vazar e destruir reputações antes do julgamento. Uma inteligência artificial solta durante o carnaval do grêmio recreativo já misturou, numa narrativa delirante, Banco Master, o escândalo do INSS e o presidente Lula. O jogo ficará cada vez mais turvo.

O objetivo central permanece o mesmo de dez anos atrás: desmoralizar o devido processo legal. Toda a investida contra o Supremo Tribunal Federal mira esse alvo. Sem o devido processo legal, qualquer pessoa vira réu por aclamação popular.

Toffoli pode ser acusado de quinhentas irregularidades. Pode até ter cometido algumas. Mas enquanto houver rito processual, existe defesa, contraditório, possibilidade de absolvição. Elimine o rito e o que sobra é o linchamento, a condenação por manchete, a justiça de redes sociais.

Deus me livre.

E Cármen Lúcia? A declaração recente da ministra não foi aviso. Foi ameaça. Uma ameaça descabida, dirigida ao governo, preparando o terreno para constranger a candidatura de Lula ou cercear as condições da disputa antes mesmo de ela começar. Não se trata de zelo institucional. O gesto carrega intenção política, e convém chamá-lo pelo nome.

O cenário está montado. Resta saber se o país vai assistir, outra vez, ao mesmo espetáculo de arbítrio travestido de combate à corrupção, ou se desta vez alguém terá a coragem de interromper o roteiro antes do terceiro ato.

Houve a tal reunião sigilosa entre ministros, supostamente gravada. Gravada por Toffoli, dizem. Talvez tenha sido. Talvez não.

O episódio evoca outro, mais antigo: o do suposto grampo envolvendo Demóstenes Torres e Gilmar Mendes. Atribuíram a escuta clandestina a Paulo Lacerda, então diretor da Agência Brasileira de Inteligência. Conseguiram sua demissão. Prova concreta do grampo, nenhuma. E o conteúdo alegado era de uma banalidade quase cômica: um elogiando o outro, sem qualquer informação comprometedora. Grampo sem áudio, como se disse à época. Fantasma perfeito.

O caso da gravação atribuída a Toffoli pode seguir caminho semelhante. Existiu ou não existiu, pouco altera o efeito político. O fato consumado é a imputação. Uma vez lançada, a acusação já cumpre seu papel, independentemente de confirmação. O mecanismo reproduz a lógica que imperou durante a Lava Jato: o processo como espetáculo, a denúncia como sentença antecipada.

Exatamente o mesmo esquema.

Em outro capítulo da mesma trama institucional, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, rejeitou os pedidos de prisão preventiva formulados pela Polícia Federal contra o deputado federal Euclides Petersen, do Republicanos de Minas Gerais, e contra Ahmed Mohamed Oliveira Andrade, ex-titular da pasta da Previdência. Os requerimentos surgiram no bojo de nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em benefícios previdenciários. Mendonça também analisou a situação de José Carlos Oliveira, que chefiou o Ministério do Trabalho e Previdência durante o governo Jair Bolsonaro. Ao ex-ministro, impôs o uso de tornozeleira eletrônica, mas recusou a medida extrema da prisão.

A decisão revela um padrão cauteloso. O ministro optou por restrições proporcionais, sem acolher o rigor máximo pedido pela autoridade policial. Conteve o ímpeto punitivo sem liberar os investigados de qualquer vigilância. Equilíbrio difícil, num cenário em que cada gesto do Judiciário carrega peso político imediato.

O homem domina o tabuleiro. Tem acesso integral ao inquérito que tramita no Supremo. Alcolumbre, por sua vez, dispõe do material remetido ao Senado. E há ainda aquele magistrado de primeira instância, o mais aferrado ao espírito da Lava Jato entre todos os juízes, recebendo a documentação na ponta. A fresta de esperança reside na Comissão de Assuntos Econômicos, conduzida por Renan Calheiros, que ali desenvolve um trabalho menos atropelado.

Havia mencionado os pontos de vazamento e deixei escapar um. Alguém me lembrou: Alessandro Vieira, senador lavajatista de cepa radical. É daqueles que apanha o primeiro indício e o espalha como se fosse denúncia consumada. Dizem que é delegado. Curioso. Não apura coisa alguma.

O ano promete emoções em série. E convém ter em mente uma premissa: não existe favoritismo para Lula. Ele reúne, sim, todas as credenciais. A trajetória, o peso simbólico, o fato de representar a última trincheira contra a brutalidade combinada do lavajatismo e do bolsonarismo, gêmeos siameses na essência. Nada disso, porém, lhe garante blindagem.

A opinião pública carece de filtro para distinguir o procedente do fabricado. Essa deficiência será decisiva nos meses vindouros. Há informação demais circulando, deputado demais falando. Se vier à tona a famosa caixa amarela da décima terceira vara federal de Curitiba, os escândalos ali contidos farão o caso Epstein corar, e seus e-mails parecer fichário de escola dominical.

Até agora, ninguém enxerga uma estratégia clara do governo. Talvez ela exista nos bastidores. Se existir, precisa mapear cada ponto nevrálgico por onde avança a Lava Jato 2: Cármen Lúcia, André Mendonça, Alessandro Vieira, o próprio Alcolumbre, o Centrão (que arde de vontade de embaralhar todas as cartas numa confusão monumental). Some-se a isso o ecossistema de redes sociais, que tritura qualquer análise séria, e a cobertura dos grandes veículos, com destaque para o Globo, que amalgama fatos sem relação de causa e efeito num caldo indistinto. O que chega ao cidadão comum é essa massa amorfa, sem contexto, sem gradação de responsabilidades.

O jogo exigirá sangue-frio e visão estratégica de primeiríssima ordem.

Lula ensaia uma aproximação com o centro. Enquanto isso, a mídia se reorganiza de maneira reveladora. Um caso emblemático: Reinaldo Azevedo. Já foi a ultradireita mais nociva do comentário político brasileiro, depois migrou para uma posição institucionalista relevante. Ontem celebrou a contratação pelo Metrópoles. Pelo Metrópoles. Fora demitido da UOL dentro do movimento de afastar vozes desalinhadas com o golpismo midiático em curso.

Até analistas de bom calibre, gente com traquejo político, andam visivelmente acuados. A dúvida agora é como Reinaldo se comportará num veículo que hoje opera na linha de frente do antilulismo.

Para quem conhece a engrenagem da mídia, basta molhar o dedo e sentir a direção do vento. Os sinais convergem, com nitidez crescente, para a formação de uma nova frente anti-Lula. Ainda não estão plenamente visíveis para quem observa de fora, mas para quem vive o meio a tendência já se desenha sem ambiguidade.

Se alguém encarna a tal terceira via, esse alguém é Lula. O que se entende por terceira via? Alguém que não radicalize, que fortaleça as instituições. Não há figura mais compatível com esse perfil na política brasileira contemporânea. Lula não é de esquerda no sentido programático do termo. Opera nas frestas do capitalismo brasileiro, tentando aprimorá-lo. Aparece uma brecha, entra o Bolsa Família. Aparece outra, entra um programa de crédito popular. O que move a rejeição a ele não é divergência ideológica. É preconceito social, cru e irracional, de proporções descomunais. E essa irracionalidade vai transbordar ao longo do ano, pouco importando a análise fria das consequências.

Quais consequências? Significa abrir caminho para um Tarcísio, um Flávio Bolsonaro. Sabemos o que isso representa como sabemos que dois e dois são quatro. Mesmo assim, parte da elite prefere esse desfecho a qualquer gesto de apoio a Lula.

Cheira a maçã podre. Cheira muito.

A forma como o Jornal Nacional e outros veículos atribuíram o episódio diretamente a Toffoli denuncia o jogo em andamento. Lembra a história do grampo sem áudio envolvendo Demóstenes Torres e Gilmar Mendes. Na gravação em que um elogiava o outro, nada mais. Como disse acima, atribuíram tudo à Abin, exibiram aparelhos, criaram um espetáculo. Qualquer técnico sabia que o PABX do Congresso tornava aquele grampo materialmente impossível. Não importou. A narrativa venceu o fato.

O padrão se repete agora. Alguém grava uma reunião, recorta os trechos que possam comprometer Toffoli e os despeja na imprensa. O leitor desavisado conclui de imediato: foi o Toffoli. Pode até ser que ele cometa ingenuidades. Mas entrar numa armadilha dessas, quando se dispõe de poder em todas as direções, soa inverossímil.

Cheira a armação. E o cheiro está forte.

O sujeito que servia café não podia sequer cruzar a porta da sala.

Essa história remonta mesmo ao período em que Nelson Jobim armou o lance para derrubar Paulo Lacerda. A estratégia era simples e ruidosa: alardear a existência de grampos no Supremo Tribunal Federal. Nós inaugurávamos o blog naquela época. Grampo no Supremo. A Veja embarcou com estardalhaço. Sete páginas de capa. Um carnaval editorial, repleto de nomes e acusações. Já no sábado de manhã, porém, em poucas horas, noventa por cento dos citados pela revista desmentiam tudo. “Houve grampo no gabinete do ministro fulano”, proclamava a reportagem. O próprio ministro negava. O que existia, de fato, era um sujeito excêntrico que disparava e-mails sem qualquer relevância.

Jobim conseguiu instalar a CPI do Grampo. Foi ao Congresso e apresentou um relatório que supostamente comprovava a interceptação.

Meia hora depois, quatro engenheiros eletrônicos demoliram o documento. Apontaram o óbvio: o relatório descrevia captação de sons externos para o interior do ambiente, quando grampo de verdade opera no sentido inverso, de dentro para fora. Jobim ainda exibiu um equipamento que atribuía à espionagem. Paulo Lacerda, então diretor da ABIN, repetia que a agência não possuía aparelhos de escuta. O equipamento foi levado à CPI. Um professor de filosofia da USP fez uma descoberta constrangedora: o suposto dossiê técnico reproduzia, palavra por palavra, a página do fabricante na internet, inclusive os erros de português do site original.

Esse tipo de manipulação é a coisa mais fácil de fabricar. Quando o Jornal Nacional chancela a farsa, os demais veículos repetem, os colegas de redação assinam embaixo, o engodo se converte em verdade. Foi um autofone colossal. Demais. Todo o clima que antecedeu a Operação Lava Jato já fermentava ali.

Pano rápido:

Rodrigo Morgado era contador. Usava o fundo Reage para operações ligadas à contabilidade e à lavagem de dinheiro do PCC. O mesmo fundo Reage mantinha vínculos com a Igreja Lagoinha.

A origem do Banco Master passa pela Lagoinha. Esse é o ponto nevrálgico que ninguém investigou. Em 2019, o Banco Master, de Daniel Vorcaro, já acumulava indícios graves de fraude. Ainda assim, durante a gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, a instituição obteve autorização para integrar o Sistema Financeiro Nacional. Fato sem precedente. As pistas se multiplicam em todas as direções. A pergunta que persiste: qual delas prevalecerá? Aquela que a Polícia Federal, em sintonia com a grande imprensa, decidir privilegiar.

Sobre a posição do Ministério de Minas e Energia quanto às terras raras: Lula anunciou a criação de um grupo interministerial para tratar do assunto. Até agora, nenhuma medida concreta veio a público. O ministro de Minas e Energia, aliás, costuma manter excessiva cautela diante do tema.

Salvio Kotter passou formações bem variadas, como Administração de Empresas, Música Erudita, Grego Antigo e Latim. Publicou vários livros, de ficção e não-ficção e é editor da Kotter Editorial, especializada em literatura, filosofia e política.

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Salvio Kotter

Salvio Kotter passou por formações bem variadas, como Administração de Empresas, Música Erudita, Grego Antigo e Latim. Publicou vários livros, de ficção e não-ficção e é editor da Kotter Editorial, especializada em literatura, filosofia e política.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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