Soledad Barrett presente no 8 de janeiro*
por Urariano Mota
No 8 de janeiro no centro do Recife, lembrei Soledad. Mas como a minha voz embargava, escrevi num papel para que o animador da concentração de protesto lesse:
“Em 8 de janeiro de 1973, houve 6 assassinatos de patriotas, traídos pelo Cabo Anselmo. Entre eles estava Soledad Barrett, grávida do Cabo Anselmo. Aqui no Recife!”. Sem poder falar, apenas ergui a mão enquanto o animador lia. O público aplaudiu a sua memória.
As linhas que rascunhei rápido num panfleto expressavam o que pensei falar. Diante do microfone, eu falaria o que recordo agora.
Os escritores raramente conseguem ser bons de fala. Eles são menos ruins quando escrevem. E mais difícil fica esta fala quando me refiro a crimes brutais acontecidos no Recife que amamos e queremos. Neste 8 de janeiro, quando no Brasil inteiro temos manifestações a favor da democracia, como uma lembrança do que os fascistas tentaram há três anos, nós, democratas, escritores e cidadãos temos mais razões para lembrar neste dia.
Pois foram aqui os assassinatos bárbaros contra militantes socialistas, pessoas honradas e dignas, destruídos em seus corpos em 8 de janeiro de 1973. Como esquecê-los? Como apagá-los de nossas vidas? Mas como uma ameixa de hemorragia sobre os assassinatos esteve o da guerrilheira brava cujo nome era poético desde o nascimento, Soledad. Soledad Barrett, a mulher que todos aprendemos a amar, quanto mais compreendemos a sua memória. Sobre Soledad escrevi primeiro “Soledad no Recife”, em que assumi o narrador apaixonado por sua vida, que estava embaraçada pelo Cabo Anselmo. Até o fim Anselmo, quando o canalha a entregou para a morte ao nazista Fleury. Depois, Soledad retorna no romance “A mais longa duração da juventude”, onde conto atos inomináveis de deboche e traição do Cabo Anselmo contra ela.
Mas agora, amigas e amigos, nossa tarefa de escritor e homem público é de continuar a memória e denúncia dos crimes fascistas da ditadura no Brasil. O que numa palavra de ordem, de ordem da consciência quer dizer: Soledad, não morreste em vão. Jarbas, Pauline, Eudaldo, Evaldo, José Manoel, vocês não morreram em vão. O povo do Recife rejeita, repudia e pede uma punição definitiva contra os crimes cometidos contra todos os patriotas.
Presente, presente, presente…..
Mas como a minha voz não estava no meu domínio, pois ela se misturava a uma emoção vexatória que não me deixava falar, apenas rascunhei: em 8 de janeiro de 1973, houve 6 assassinatos de patriotas, traídos pelo Cabo Anselmo. Entre eles estava Soledad Barrett, grávida do Cabo Anselmo. Aqui no Recife.
Em resumo: Soledad, presente.
* Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/soledad-barrett-presente-no-8-de-janeiro/
Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.
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