4 de junho de 2026

Mídia veste a saia justa semiótica na “extração” de Maduro da Venezuela, por Wilson Ferreira

O jornalismo tenta esconder o fato de que a nova ordem mundial não segue roteiros de Hollywood, mas a lógica crua dos negócios.

Nicolás Maduro foi “extraído” da Venezuela em operação dos EUA, surpreendendo a mídia corporativa e progressista.
Trump apoia Delcy Rodriguez para governo de transição na Venezuela, ignorando a oposição tradicional.
Cobertura jornalística destaca confusão semântica e factual diante da guinada geopolítica e ação empresarial dos EUA.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

no Cinegnose

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Mídia veste a saia justa semiótica na “extração” de Nicolás Maduro da Venezuela

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Nem derrubado, nem preso: Nicolás Maduro foi “extraído” da Venezuela como um boneco em uma máquina de garra de shopping. Entre o entusiasmo e a perplexidade, o jornalismo brasileiro — do corporativo ao progressista — parece ter perdido o dicionário diante da “extração” de Maduro. Enquanto as redações se equilibram em saias justas semânticas para diferenciar “autocratas” de “ditadores”, a realidade geopolítica de Donald Trump atropela narrativas estabelecidas: em vez de ungir a oposição tradicional, o magnata americano aposta em um “chavismo sem Maduro” sob o comando de Delcy Rodriguez. Diante de uma transgressão que “caminha de andador”, a mídia se vê atônita, tentando conceituar um fluxo de eventos que seu antigo arcabouço já não alcança. O que resta é uma curiosa salada semiótica onde o jornalismo tenta esconder o fato de que a nova ordem mundial não segue roteiros de Hollywood, mas a lógica crua dos negócios. 

“Tempos interessantes”, diria a escritora irlandesa Noise Dolan em seu “Tempos Interessantes”, romance feminista afiado e marxista de amor e cinismo.  

Tão caótico quanto a vida da protagonista (uma recém-formada se muda para Hong Kong para dar aulas de inglês para alunos ricos sem ter um plano pessoal preciso) é a perplexidade da mídia (seja a corporativa ou a progressista) diante da ação dos EUA na Venezuela.  

Nesse momento, o jornalismo (seja corporativo ou progressista) está diante de uma guinada geopolítica do Império tão caótica, desde a onda dos tarifaços, que o seu glossário ou arcabouço semântico não está conseguindo conceitualizar o fluxo dos acontecimentos. 

Por exemplo, nem consegue nomear o ponto de partida de toda a crise na Venezuela: o que aconteceu com Nicolas Maduro? Foi “derrubado?” Ou foi “preso?” Ou, então, será que foi “sequestrado?”, questionaria alguém de viés mais progressista. 

Não! Simplesmente ele foi “extraído”, cuja melhor analogia pode ser feita com aquelas máquinas de shopping em que um boneco de pelúcia é sacado por uma garra controlada externamente por um usuário em um dispositivo de grua – voltaremos a esse ponto à frente. 

O viés reativo da cobertura midiática revelou essa “interessante” perplexidade: de um lado, o jornalismo corporativo do grupo Globo, aqui e ali, mobilizando algum “colonista” (como Miriam Leitão) para lamentar a “violação do direito internacional”, a “segurança internacional” ou até lembrar a existência da “Carta da ONU” etc. 

Mas no todo, o clima era de entusiasmo com a narrativa do “ditador acuado e contra a parede”, frisando que esse é “o destino de todos os ditadores”. Chegando a mostrar o veterano jornalista, Jorge Pontual, diretamente de Nova York, celebrando um “novo futuro” para a Venezuela. 

E, claro, sempre fazendo questão de colocar imagens de Lula recepcionando Nicolaas Maduro com tapete vermelho e aperto de mão, em Brasília, em 2023, para o encontro do Mercosul – é a mais-valia semiótica para as eleições presidenciais, mostrando que, mesmo involuntariamente, Trump já está operando nas eleições brasileiras. 

E, do outro, o viés da CNN revelado pela forma como repercutiu o editorial do New York Times, condenando a operação de Trump como “ilegal e infeliz”. E destacando que tudo foi menos uma ação política e muito mais empresarial. 

Mas quem é o “autocrata” ou “ditador” na história? Algumas vezes, o jornalismo corporativo crava o ex-presidente Maduro como “ditador”. Outras vezes, como “autocrata”.  

Mas Trump não está muito distante disso. E o jornalismo do Grupo Globo (que mais comemora o suposto fim do chavismo) é o que mais se enrola nessa taxonomia do caos geopolítico.  

Por exemplo, desde que os agentes federais de imigração mataram uma mulher que, segundo Trump, “cometia ato terrorista”, em Minneapolis (EUA), o jornalismo da Globo está semanticamente confuso. Não podem cravar no presidente dos EUA a pecha de “ditador” – essa é exclusiva de Maduro. Então… toca a dizer que “Trump é um autocrata em vias de se transformar num ditador”… 

Ficaria muito estranho e não pegaria bem para o distinto público comemorar a “queda” do “ditador da Venezuela”, derrubado por outro ditador! A não ser que se acredite no provérbio “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. 

Curiosa salada semântica: em Maduro, “autocrata” e “ditador” são sinônimos. Mas em Trump há uma sutil diferença: Trump é “autocrata”, mas está em um perigoso limiar (“em vias de”) para virar um ditador pleno. Igual Maduro?

Saias justas factuais 

Saindo do campo das saias justas semânticas (sentida principalmente pelo jornalismo do Grupo Globo, ansiosa em aproximar ditadores latino-americanos de Lula), entramos em outro campo paradoxalmente complicado para jornalistas: o campo factual dos acontecimentos. 

Aqui a perplexidade foi geral, tanto na mídia corporativa quanto na progressista: Donald Trump resolveu apoiar a vice-presidenta de Maduro, Delcy Rodriguez, para iniciar um “governo de transição”. E mais! Delcy ofereceu colaboração aos Estados Unidos em uma agenda de “desenvolvimento compartilhado”, marcando a primeira mudança de tom desde que forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. 

Para os exasperados “colonistas” do jornalismo corporativo, Trump simplesmente dispensou a “líder da oposição venezuelana” Corina Machado de estar à frente de uma eventual transição. E, junto com ela, Edmundo Gonzalez, supostamente vítima de uma fraude eleitoral. E, para a mídia, o presidente verdadeiro. 

Em outras palavras: diante da incredulidade das mídias, o que Trump decidiu foi uma espécie de continuidade de um chavismo sem Maduro.  

Assim como em Zelensky, o jornalismo corporativo tinha feito um grande investimento semiótico em Corina Machado – o último lance foi a construção narrativa da “fuga arriscada” da Venezuela para receber o prêmio Nobel da Paz na Noruega. Envolveu disfarces, barco em mar revolto e ajuda internacional, após ser impedida de sair do país pelo governo Maduro. Sua filha recebeu o prêmio em Oslo, enquanto ela, ainda em trânsito, deu entrevistas, confirmando o apoio dos EUA e sua luta pela democracia venezuelana.   

Como fez com Zelensky, Trump também mandou Corina e Edmundo Gonzalez às favas: “Ela é uma mulher muito simpática. Mas não tem o apoio nem o respeito do país”. 

Trump sabe que a “mídia OTAN”, ainda ressentida com o fim da geopolítica da globalização dos democratas de Biden e Kamala, inventou esses personagens híbridos de ficção e realidade. Nada mais a ver com o seu estilo de sobrepor os negócios à política: primeiro criar uma crise, para depois negociar sempre em vantagem. 

O atônito jornalismo corporativo até tentou racionalizar o apoio de Trump a uma espécie de continuidade do governo chavista. 

Primeiro, sugerindo uma retaliação contra o prêmio Nobel da Paz ganho pela venezuelana e cobiçado por ele no ano passado – “Ela não deveria tê-lo vencido. Mas isto não tem nada a ver com a minha decisão”, disse o republicano. Mas para o viés cognitivo da mídia é tentador simplificar um cenário complexo de guinada geopolítica e de transformações da cadeia de produção de valor do capitalismo em um simples capricho de uma personalidade narcisista. 

E, mais tentador ainda, sugerir que Trump estaria com “demência frontotemporal”, como noticia o Portal Band News sobre um “alerta” de um tal de doutor Frank George, psicólogo e neurocientista PhD do Centro para o Bem-Estar Cognitivo e Comportamental da Universidade de Boulder, no Colorado – clique aqui.  

Tudo a partir de um texto que viralizou nas redes sociais e em plataformas como Substack e LinkedIn – para o jornalismo atual, motivo suficiente para ser publicado como notícia “científica”. 

Transgressão caminha de andador 

Por falar em viés cognitivo, é flagrante como a cobertura jornalística da “extração” de Nicolas Maduro da Venezuela na calada da madrugada reportou os acontecimentos com um a espécie de fascínio ficcional: uma suposta ação norte-americana rápida, precisa e cirúrgica típica de um filme hollywoodiano do tipo das operações da “Força Delta” (Comando Delta, 1986) em que Chuck Norris e Lee Marvin salvam um avião de passageiros sequestrado por terroristas árabes. Eles fazem parte do esquadrão de elite “Delta Force”, convocado pelo Presidente dos Estados Unidos para ajudar no resgate. 

Agora, substituída pela “Operação Resolução Absoluta” na Venezuela, formada por espiões da CIA e tropas de elite da… Delta Force… 

O que só reforça todos os estereótipos latino-americanos gerados pelos EUA – repúblicas bananeiras completamente vulneráveis a ataques cibernéticos que podem vir de qualquer parte: “celulares de seguranças, tablets de assessores, talvez até geladeiras e aparelhos de ar-condicionado “inteligentes” nas instalações presidenciais”, como teoriza o historiador Fernando Horta – clique aqui.   

Esse é o argumento do “colonialismo 2.0” que parece ignorar (ou acredita ser coisa do passado) o velho “terreno humano”: divisões, traições e acomodação de interesses das potências mundiais [EUA-América Latina, China-Taiwan e Rússia-Ucrânia] em coordenação com o chavismo, como aponta Jeferson Miola – clique aqui

Ainda mais com informações de que no fim de outubro a vice de Maduro, Delcy Rodriguez, esteve no Catar em reuniões com enviados da Casa Branca e foi sondada por emissários de Donald Trump sobre a possibilidade de assumir um governo de transição após a saída de Nicolás Maduro. A resposta nunca foi tornada pública, mas decisões recentes pós “extração” de Maduro do poder, parecem ter caminhado na direção desejada por Washington – clique aqui

O que faz esse humilde blogueiro lembrar de uma afirmação do compositor e filósofo pop Fausto Fawcett, numa entrevista à Live Cinegnose 360 (clique aqui): “atualmente a transgressão caminha de andador”. 

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    12 de janeiro de 2026 8:02 am

    A imprensa livre de isenção até que é favorável a democracia, desde que os governantes não seja de esquerda.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    12 de janeiro de 2026 9:00 am

    Nicolas Maduro é uma totalmente nova espécie de Vercigetorix. Convém lembrar, que a conquista romana da Galia por Julio Cesar levou quase uma década. Consolidada a derrota dos povos celtas locais, cidades romanas e galo-romanas começaram a ser levantadas e as estradas ligando-as entre si e ligando-as a Roma foram traçadas e pavimentadas. Algum tempo depois o comércio entre Gália romanizada e Roma se tornou uma realidade fortalecendo as relações entre o centro do império e sua nova província. No livro que escreveu, Julio César não diz o que fez com os soldados celtas derrotados na Gália. Mas nós podemos imaginar que ele fez o mesmo com eles o que Aulo Hircio afirma que aconteceu na Guerra da Hispânia: onde Julio Cesar mantou cortar fora as mãos e milhares de soldados para eles nunca mais pegarem em armas contra Roma. O colonialismo espanhol e português a partir do século XVI tinha a mesma característica: invasão, consolidação do poder e colonização dos novos territorios conquistadas na África, Ásia e Novo Mundo. Ingleses, Franceses e Holandeses mais ou menos seguiram esse padrão, muito embora com menor ênfase na colonização. Os americanos não fazem cálculos de longo prazo, mas de curtíssimo prazo. Eles querem controle de materias primas ou acesso facilitado petróleo, terras raras, etc. sem colonizar países estrangeiros bombardeados. A reação da população local quase sempre torna colocar tropas no chão um custo adicional que os americanos tendem a rejeitar. Os fracassos no Iraque e no Afeganistão (controlados mediante bases militares fortificadas totalmente cercadas por populações locais insurgentes) são evidentes e não me parece que os americanos consigam sequer pensar em invadir ou colonizar qualquer outro território. Sim… os americanos podem tratar Maduro como se ele fosse um moderno Vercingetorix, mas eles não estão em condições de cortar fora as mãos de todos os soldados venezuelanos. Nem mesmo desarmá-los eles conseguirão. O raciocínio de curtíssimo prazo americano é diferente do raciocínio de longo prazo dos romanos (e depois dos portugueses e espanhois também), mas existe um fator complidador importante: esse raciocínio é deformado pela característica do complexo industrial militar, cujos lucros dependem de operações militares no extrangeiro quer elas resultem ou não em benefícios sustentáveis de longo prazo para os EUA. Ezequiel Bistoletti afirma que falta raciocínio estratégico ao imperialismo americano. Todavia, não é possível ter qualquer tipo de raciocínio estratégico de longo prazo quando o gol é apenas manter fábricas de armamentos produzindo armamentos e distribuindo lucros aos acionistas. A falha fundamental do imperialismo americano é justamente esse: ele não consegue e não pode coordenar duas coisas mutuamente incompatíveis (lucros de curtíssimo prazo das fábricas de armamentos e benefícios de longo prazo de operações militares que necessariamente teriam que ser mais dolorosas e demoradas, envolvendo tropas no chão, colonização e americanização forçada do povo submetido durante várias décadas).

  3. Paulo Dantas

    12 de janeiro de 2026 2:18 pm

    Extraído, sequestrado, preso, convidado, abdusido, caronado ou carregado.

    O fato é que o cabloco está em NYC para ser conden…. ops julgado.

    Iam levar ele para ver um jogo do JETS mas o juiz proibiu a maldade.

    Teve um outro país em que vi o vice dar uma perna de anão no chefe mas não lembro qual agora.

Recomendados para você

Recomendados