Brasil, 2026: o ano em que nos abraçamos e nos separamos,
por Dora Nassif
O Brasil de 2026 concentra, em apenas doze meses, alguns dos momentos mais intensos da nossa vida coletiva. É curioso que a cada quatro anos a gente viva os dois extremos no mesmo calendário.
O Carnaval chega primeiro e faz aquilo que só ele sabe fazer: suspende o cotidiano, classes, vozes e ritmos. É o país se reconhecendo no próprio excesso, na alegria que escapa pelas ruas, na criatividade popular que resiste apesar de tudo. O Carnaval une o povo porque é, antes de qualquer coisa, uma celebração de estar junto. E também porque é democrático. Há Carnaval para quem gosta de festa e para quem prefere cultura, como os desfiles. Para quem busca algo familiar, para quem pode gastar mais dinheiro e para quem não quer ou não pode gastar nada. O Carnaval comporta todos.
Em muitos lugares do mundo se fala que o maximalismo está voltando à moda. No Brasil, ele nunca saiu. Até porque não há como sair daquilo que faz parte da nossa identidade. O excesso, aqui, não é estética passageira, é forma de existir. Cores, afeto, sociabilidade, calor humano. O Brasil é barulho, é encontro, é proximidade. É gente que fala alto, que toca, que ri junto. Somos um país maximalista porque somos intensos, e isso atravessa a cultura, a festa, o futebol e também a política.
Logo depois vem a Copa do Mundo, e aí o Brasil se transforma de novo. O futebol, que para nós nunca foi só esporte, vira linguagem comum. A camisa da seleção deixa de ser política. Volta a ser afeto. Volta a ser infância, memória, superstição, abraço em desconhecido. Caminhamos pelas ruas e só vemos verde e amarelo, não como símbolo de disputa, mas de orgulho.
Somos tão apaixonados por futebol que até os índices de criminalidade diminuem durante os jogos. Quando o Brasil joga, o país para. Quando ganha, explode. Quando perde, chora junto. Dois extremos emocionais vividos coletivamente, sem mediação, sem filtro, sem cálculo. Quando perde, é quase como um luto, diante do sonho do hexa sendo adiado mais uma vez.
Depois, quase sem tempo de respirar, chegam as eleições. E aquilo que antes unia passa a dividir.
O mesmo país que se abraçou na Copa se separa em trincheiras políticas. O verde e amarelo volta a ter dono. A paixão vira raiva. O debate vira julgamento moral. O afeto coletivo se dissolve em desconfiança.
Costuma-se falar muito da síndrome de vira-lata do brasileiro. E sim, ela existe em certos momentos. Mas há algo que me interessa muito mais: o orgulho profundo que temos de ser brasileiros. Um orgulho que também é real, pulsante, cotidiano. O brasileiro acredita que o Brasil faz tudo melhor: futebol, música, cinema, comida. E, sinceramente, eu, como boa brasileira, concordo.
O problema não é essa paixão. O problema é não conseguir carregá-la para o momento mais decisivo da nossa vida democrática.
Em um sonho talvez utópico, eu gostaria que esse sentimento de união e amor pelo Brasil permanecesse depois da Copa e chegasse às eleições. Que votássemos com o mesmo carinho com que torcemos. Que pensássemos no Brasil e na população brasileira ao escolher presidente, sim, mas também deputados e deputadas.
Porque o Brasil não se faz sozinho. O Brasil se faz no Congresso, nas leis aprovadas, nos orçamentos definidos, nas comissões que passam despercebidas enquanto toda a atenção se concentra no Executivo. Saber em quem se vota para deputado não é detalhe técnico. É parte essencial da democracia.
No fim das contas, o que faz o Brasil são os brasileiros. E preservar o Brasil é preservar esse laço coletivo que, curiosamente, sabemos construir tão bem quando a bola começa a rolar. Talvez o maior desafio de 2026 seja simples de dizer e difícil de praticar: aprender a votar com o mesmo amor com que a gente torce. Não votar com violência, nem com ruptura. Votar com diálogo, com escuta, buscando um país melhor. Votar pelo Brasil, e não por projetos que não são nossos.
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
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