O Brasil é latino, mas insiste em não se reconhecer
por Dora Nassif
Minha viagem pela Colômbia não tem sido turística. Não é sobre pontos famosos, roteiros prontos ou cartões postais. Tenho conhecido o cotidiano, o ritmo dos pueblos, o dia a dia das pessoas, justamente aquela dimensão da vida que mais se assemelha ao Brasil profundo, o do interior, da música popular, das festas, da conversa longa, da garra cotidiana. É nesse Brasil, tantas vezes invisibilizado, que me reconheço ao atravessar cidades colombianas.
Os pueblos colombianos se parecem muito com o interior brasileiro. Tesalia, em Huila, poderia estar em Minas Gerais. As casas baixas, o ritmo desacelerado, o orgulho da própria história, a arte espalhada pelos muros. Em um mural, a frase “Que viva la música de mi pueblo” poderia estar escrita em qualquer cidade do interior do Brasil onde a cultura ainda não foi transformada em produto, mas permanece viva, compartilhada, orgulhosa de si.
A música é talvez onde essa semelhança se revela com mais clareza. A música popular colombiana ecoa o sertanejo raiz brasileiro, com histórias do campo, da saudade, do amor simples, do trabalho e da vida cotidiana. Antes da indústria cultural e das plataformas digitais, a música já era identidade, memória e pertencimento. Aqui, como lá, as pessoas não apenas escutam, elas dançam, vivem e se reconhecem no som.
Essa conexão não é pontual nem coincidência. A latinidade também se manifesta nos ritmos. A lambada amazônica dialoga com o merengue e a cumbia caribenha. O forró encontra no vallenato colombiano um quase irmão, ambos guiados pela sanfona, pela dança agarrada e pela música que nasce da estrada e do encontro. O maracatu conversa com os tambores afrocaribenhos e com o candombe do Prata, compartilhando ancestralidade africana, corpo coletivo e resistência. São ritmos diferentes, mas oriundos de um mesmo tronco cultural, moldado por povos indígenas, africanos e camponeses latino-americanos.
Curiosamente, enquanto o Brasil reverencia a Europa como referência cultural, grande parte da música e da dança das quais mais se orgulha nasce de influências africanas e indígenas, assim como ocorre na Colômbia e em tantos outros países latino-americanos. Nossa identidade cultural não é importada, ela é construída no Sul, no corpo, no território e na memória coletiva.
Também compartilhamos feridas. Narcotráfico, desigualdade social, violência estrutural e Estados ausentes. Mas compartilhamos, sobretudo, as respostas criatividade, solidariedade, alegria como forma de sobrevivência e orgulho do próprio povo. Há algo profundamente latino nessa capacidade de celebrar mesmo em meio à escassez, não por alienação, mas por resistência.
Talvez o choque cultural mais revelador não esteja na semelhança, mas no contraste entre como o Brasil é visto fora e como se vê por dentro. Em pueblos com menos de dez mil habitantes, camisetas da seleção brasileira aparecem com naturalidade. O futebol brasileiro é admirado, celebrado e reconhecido como linguagem comum. O Brasil, aqui, é símbolo. Enquanto isso, dentro do próprio país, persiste um forte preconceito contra a América Latina, visível especialmente na forma como imigrantes latinos, como os bolivianos, são associados à pobreza, ao atraso e à marginalidade. Rejeita-se no outro aquilo que se recusa a reconhecer em si.
Compartilhamos florestas, como a Amazônia, com países vizinhos. Compartilhamos o amor pelo futebol com argentinos, uruguaios e colombianos. Compartilhamos festas populares, calendários de celebração, devoções e comidas feitas para reunir. O San Pedro de Huila dialoga diretamente com as festas juninas brasileiras, e o carnaval do Brasil encontra ecos no carnaval de Barranquilla. Até com aqueles que costumamos chamar de rivais, dividimos cidades espelho, como Buenos Aires e São Paulo, elitizadas e populares, vibrantes e desiguais, profundamente contraditórias.
Vivemos um momento em que a América Latina volta a ocupar o centro das atenções globais. O Brasil tem atraído cada vez mais visitantes, assim como países como a Colômbia, que se consolidam como destinos importantes na região. Ao mesmo tempo, nossos recursos naturais, culturais e humanos despertam interesse e cobiça. Há pressões externas que tentam nos dividir, nos isolar e nos fazer acreditar que podemos avançar sozinhos.
Não podemos. Nenhum país latino atravessa esse momento isolado.
Reconhecer-se latino não diminui o Brasil, fortalece. Nos conecta, nos insere e nos protege. Talvez seja hora de o Brasil olhar menos para o Norte e mais para os lados. Porque não há lugar no mundo com mais garra, mais tempero, mais calor humano e mais vontade de viver do que a América Latina. E o Brasil é parte indissociável disso, goste ou não.
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
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José de Almeida Bispo
22 de dezembro de 2025 9:54 pmSinto dizer: especialmente o Brasil ao sul do paralelo 20. Desde João Ramalho.