4 de agosto de 2026

O Rio de Janeiro entregue às direitas, com apoio das “esquerdas”, por Roberto Bitencourt da Silva

Vale assinalar que aquilo que chamam de "fascismo" no Brasil é, também, um fruto apodrecido dos artifícios políticos malandros e rotineiros
Reprodução

Facções conservadoras dominam o Rio de Janeiro, com apoio de partidos de esquerda como PT, PDT e PC do B.
Eduardo Paes, ex-prefeito, lidera contrarreforma que prejudica servidores e docentes, aumentando assédio e carga de trabalho.
Eleitores fluminenses mostram alto índice de abstenção e rejeição ao sistema político tradicional, com quase 50% não votando.

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O Rio de Janeiro entregue às direitas, com apoio das “esquerdas”

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por Roberto Bitencourt da Silva

Há décadas, algumas facções políticas conservadoras, determinados setores sociais e econômicos associados a estas facções, desde tempos imemoriais, se lambuzam com o poder das instituições do estado do Rio de Janeiro. Elas ora encontram-se em posições de destaque nas sondagens eleitorais para governador, seja sob o comando do Eduardo Paes, seja do Anthony Garotinho ou de Douglas Ruas (um representante do necropoder militarista reacionário e entreguista).

O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, no momento, tem o seu braço direito (deputado federal Pedro Paulo) encampando o projeto da contrarreforma administrativa em Brasília. Esse projeto parlamentar almeja destruir os serviços públicos e colocar os servidores absolutamente submetidos aos interesses espúrios e clientelistas da politicagem rasteira de oligarquias predatórias.

Paes é um antigo algoz da educação e dos professores. Em quatro mandatos, ele sistematicamente tornou as condições de trabalho docente um inferno, impulsionando a propagação da síndrome de burnout, crises de ansiedade, de depressão etc., desprezando e violando instrumentos legais importantes, como o piso nacional do magistério e a lei do 1/3 de planejamento das aulas.

Impôs, metódica e cotidianamente, sucessivas práticas de assédio moral, exigindo uma miríade de tarefas burocráticas que desidratam o trabalho pedagógico e retiram autonomia laborativa dos docentes. Estimulou a aprovação automática dos alunos e aumentou a carga horária de trabalho dos professores, sem qualquer acordo coletivo, muito menos remuneração adicional.

A superexploração do labor docente, em suas diferentes formas assumidas (baixos salários, aumento da jornada, saúde mental comprometida etc.), ela se alastrou na gestão de Eduardo Paes (ver https://ojs.sites.ufsc.br/index.php/rebela/article/view/5317).

Essa figura politicamente nefasta, depois de Carlos Lacerda, foi quem mais demoliu as casas de pobres e miseráveis das favelas, em seu projeto de gentrificação da cidade. Anos atrás, Eduardo Paes ordenou o seu grupo político a votar favoravelmente pela contrarreforma trabalhista, em apoio decidido ao presidente golpista Michel Temer.

Porta-voz das Organizações Globo e da Firjan, o ex-prefeito carioca conta com o apoio dedicado daquilo que um dia já pôde ser considerado como esquerda: PT, PDT e PC do B. Por anos a fio e uma vez mais. Por sua vez, o Psol deixou de ser referência política alternativa e abandonou a posição de polo combativo, na esteira da diluição das suas propostas e do empobrecimento das iniciativas, que redundaram em assumir o papel de mero satélite do petismo e suas estratégias.

Essa gente pretensamente “rubra” e “canhota” tem contribuído bastante para acabar com a política partidária brasileira, esvaziando programas e diretrizes políticas; depois, não poucos, têm o desplante de alegar que o povo, “O pobre de direita”, não sabe votar, é um ignorante, entre outros impropérios elitistas.

Não é demasiado lembrar que existe muito bom senso, na verdade uma sensatez surpreendentemente espontânea, entre as classes populares, inclusive segmentos mais humildes: nas eleições para prefeito e governador do estado, há tempos, a soma de nulos, brancos e abstenções alcança ponderável expressão: na corrida para o governo do estado, a alienação eleitoral, em 2022, atingiu 37% dos eleitores e, no ano de 2018, 40%. Para a prefeitura do Rio, em 2020, quase 50% e, em 2024, cerca de 43%.

Grossa parte dos cariocas e fluminenses não se identifica com qualquer partido ou liderança; não vota em ninguém! Tem evidente nojo – com toda razão – do sistema político e partidário brasileiro, um sistema useiro e vezeiro do estelionato eleitoral (ainda que as promessas sejam as mais modestas!). Um sistema ainda caracterizado pela inexistência de visões claramente diferentes de país e sociedade, que possam servir de alternativa factível às agruras do capitalismo dependente e periférico.  

Vale assinalar que aquilo que muitos chamam de “fascismo” no Brasil é, também, um fruto apodrecido dos artifícios políticos malandros e rotineiros, que tanto semeiam desilusões e apagam esperanças de amplos setores das massas.

Caudatários da agenda e ativos auxiliares da força eleitoral relativa de líderes e partidos que instrumentalizam os interesses estratégicos das burguesias doméstica e internacional, burguesias privatistas e vende pátria, as esquerdas – que já tiveram significado social e político – sacrificam as necessidades das classes trabalhadoras e populares do Rio no altar dos seus algozes, dos seus antagonistas de classe. Isso sob a pomposa roupagem de uma suposta “frente ampla”.

Muitos valorosos companheiros de luta a favor da educação pública tendem a interpretar que a lógica assumida pela chamada “frente ampla contra o fascismo”, esposada por partidos tidos como de esquerda, está ancorada no princípio da conciliação de classes. Discordo respeitosa, mas veementemente, desse perfil de avaliação.

Historicamente, governos como os de João Goulart (1961-1964), no Brasil, e de Salvador Allende (1970-1973), no Chile, foram experiências arquetípicas da conciliação. O que significava – e ainda deveria significar – impor termos de negociação e de grande pressão popular para ter o que conciliar entre as classes dominantes e subalternas. Ora, absolutamente, esse não é o caso em nosso tempo.

No Rio, e no país como um todo, o que as antigas esquerdas, sob a hegemonia do PT, gostosamente enfronhadas nas estruturas de poder, o que elas têm feito tem um outro nome: capitulação. O “acordo” entre o pescoço e a corda. É disso que se trata.

Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF), professor da SME-Rio e da Faeterj-Petrópolis/Faetec. É presidente da Associação dos Docentes do Ensino Superior da Faetec (Adesfaetec), S.Sind. Andes-SN.

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