18 de junho de 2026

A Venezuela golpeada pelo imperialismo, por Roberto Bitencourt da Silva

Trata-se de uma rendição do governo da presidente interina Delcy Rodriguez aos imperativos estadunidenses. É inegável.
Delcy Rodriguez e Chris Wright - Reprodução Youtube

Operação militar dos EUA ocorreu em Caracas com aval do governo local, simbolizando domínio ianque sobre a Venezuela.
Chavismo enfrenta revés com rendição do governo interino de Delcy Rodriguez a exigências dos EUA, incluindo abertura ao capital petrolífero.
Resistência popular e consciência crítica venezuelana são apontadas como trunfos para enfrentar o imperialismo estadunidense.

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A Venezuela golpeada pelo imperialismo 

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por Roberto Bitencourt da Silva

É muito triste tomar conhecimento do que se passa na Venezuela. Neste sábado uma operação militar dos EUA foi realizada em Caracas, com a anuência do governo sul-americano. Uma verdadeira humilhação. A mensagem do exercício das Forças Armadas dos EUA é clara: a Venezuela está sob inequívoco domínio ianque.

Após quase trinta anos desempenhando o especial e aguerrido papel de protagonista no enfrentamento mais agudo contra o imperialismo made in USA, senão em escala mundial, ao menos continental, o chavismo venezuelano enfrenta o seu mais difícil revés.

Medidas oficiais de governo e do parlamento têm sido adotadas para reverter as conquistas sociais e econômicas duramente alcançadas pela maioria popular, contudo motivo de celebração pelos veículos de comunicação imperialistas do ocidente (1). Terrível.

Trata-se de uma rendição do governo da presidente interina Delcy Rodriguez aos imperativos estadunidenses. É inegável. Uma derrota doída para o nacionalismo anti-imperialista e socializante do chavismo.

As condições e as evidências dessa derrota têm sido exploradas por analistas políticos de países vizinhos e por vozes sintonizadas com o chavismo. Basicamente, duas opções para o chavismo são identificadas: 

a) enfrenta(va) o imperialismo e afunda(va) o país em uma guerra civil encarniçada, com o adendo de uma destruição da infraestrutura e de uma matança por bombardeio aéreo estadunidense, além de plausível massacre de lideranças políticas e sociais chavistas. Que se recorde a Palestina e a Líbia. 

b) De outro lado, mantém-se o governo formalmente composto por chavistas, evitando a devastação imediata e material do país, porém atendendo a exigências do governo Trump, como a abertura concedida a uma mais intensa participação do capital estadunidense na exploração do petróleo. 

A segunda alternativa foi acolhida. A “negociação” entre o pescoço e a corda. Um presidente, de direito, Nicolás Maduro, sequestrado e preso em cárcere estadunidense.

Essa situação, é importante lembrar, decorre da força histórica e política acumulada do bolivarianismo venezuelano: tentativas de golpes, influência nas eleições, apoio sistemático à oposição, brutais sanções econômicas, saque dos bens e do patrimônio do estado venezuelano no exterior, levando à prática do castigo coletivo reservado ao povo, terrorismo midiático etc., nada disso fez a balança pesar, em quase 30 anos, a favor dos EUA. Somente a violação espetacularizada do direito internacional, com o uso e as ameaças adicionais de mais uso da força militar atroz, para causar um sério revés ao chavismo.

O que acontecerá adiante no tempo ainda está totalmente em aberto. Governos, líderes e partidos políticos, tudo isso passa. A Venezuela, no entanto, tem uma matéria-prima, forjada pelo chavismo, que é seu maior trunfo: a consciência crítica, a enorme capacidade política engenhosa e a grande mobilização e destemor das forças populares e trabalhadoras. Com esse recurso, nenhuma vitória episódica do poder, notadamente imperialista, pode ser tratada como irreversível. 

Como destaca o pensamento do grande economista André Gunder Frank (no livro “ReOrientar”, ed. Insular), a América Latina sempre esteve à margem do sistema mundial. Quando incorporada a ele, foi periferia destruída, vitimada e espoliada pela Europa, uma região que era então periferia no circuito econômico global. Éramos periferia da periferia. Hoje somos periferia – tratados como quintal – do imperialismo estadunidense, um centro agressivo e declinante do sistema global.

Quem está a margem sempre sofre mais o tacão do poder. Mas, é também de onde surgem as capacidades mais vigorosas de contestação e resistência à tirania dos que se investem da condição de donos do mundo.

Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF) e mestre em Ciência Política (UFRJ), presidente da Adesfaetec, seção sindical do Andes-SN. 

(1) Venezuela: 3 exemplos de presidente está desmantelando modelo econômico chavista – BBC News Brasil
https://share.google/iAhOVNcTty3iaZZAW

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