Feliz é…
O que é ser feliz? Acredito que não existe pergunta mais difícil de responder. O psicanalista austríaco Sigmund Freud, em seu livro “Mal-estar na Civilização” (1930), aponta a busca da felicidade como “fim último do homem” e como sua “demanda fundamental”. Freud, em todo o trabalho que faz na tentativa de definir o sentido mais estrito da palavra felicidade, a relaciona à busca de experiências de intenso prazer; mesmo fazendo a ressalva que o mundo conspira contra essa felicidade.
O mundo criou uma norma, que chamamos de fálica, aquilo que é “contabilizável”, como ter um carro, uma casa, fama, sucesso… A felicidade geralmente passa por conquistas relacionadas a isso, cada sujeito escolhe algo. Lembro bem do filme “Titanic” (1997): quando todos estão prestes a morrer, cada um escolhe sua grande simbologia, um enche o bolso de jóias, os músicos vão tocar, o comandante vai para a cabine, os velhinhos se deitam abraçados, e o Jack (Leonardo DiCaprio) vai salvar a Rose (Kate Winslet). Todos ali, inconscientemente, procuram se agarrar no que contabilizam como felicidade.
A revista Super Interessante traz uma reportagem, datada de fevereiro de 2012, na qual primeiro fala de um mínimo de necessidades básicas que precisam ser satisfeitas, para só depois podermos pensar na felicidade fálica, a das conquistas. Acrescenta que ela é algo muito pessoal, vem da sua ideia de mundo, do que tem valor pra você e de como você mesmo percebe a questão. Claro que essa sua ideia de mundo não veio do nada e sim da mamãe, enquanto amava papai (ou a pessoa que representou a função paterna) e dessa forma te ensinava como deve ser alguém que merece ser amado. Ainda na reportagem da revista, um trecho diz:
“Pesquisadores das universidades de Cardiff e Warwick, na Grã-Bretanha, defendem que, para se considerar feliz, basta apenas que você seja um pouco mais rico que seu vizinho. Eles entrevistaram mais de 80 mil pessoas e descobriram que elas se diziam mais ou menos felizes de acordo com a posição que julgavam ocupar em uma escala de riqueza, e não com o valor absoluto de suas posses. Ser o mais rico da rua, por exemplo, já é o suficiente para que a pessoa se considere bem afortunada – mesmo que ela more em um bairro simples, na periferia. Segundo os autores, isso pode explicar por que o crescimento da renda de um país pode não ter efeito na felicidade média do povo: em tese, não adiantaria muito estar ganhando mais, se os vizinhos e os amigos também estivessem”
Esse pensamento, “sou feliz se tenho mais que o outro”, faz sentido dentro da lógica de Freud: “eu quero aquilo que não tenho, mas primeiro preciso saber que existe”. Cria-se o sofrimento óbvio de quem nada tem e não tem nem de onde partir. Por exemplo, o ladrão não rouba o tênis porque precisa cobrir os pés, rouba aquele tênis que diz quem você é, que marca um lugar de valor em nossa sociedade.
Também os “reis do camarote” têm seus problemas, pois ter tudo é não ter o que desejar ou conquistar; lembro aqui a frase do escritor irlandês Oscar Wilde: “Quando os deuses querem nos punir eles atendem às nossas preces”.
Eu gostaria de ter tudo, mas nascer tendo tudo pode ser uma maldição. Um sujeito sem ter o que desejar pode representar alguém no limiar da depressão. (por isso, como a revista diz acima, o dinheiro não traz felicidade e muita gente rica acaba nas drogas como fuga, deprimida ou com comportamentos destrutivos).
Freud em 1920 descobre que é a falta que move o homem; que primeiro precisamos sentir que queremos algo, para então nos movermos com esse objetivo e finalmente gozarmos do sucesso ou da conquista.
Se na teoria da psicanálise o nosso destino é a morte, pois é o único momento em que não sentimos falta de nada, entendemos que a felicidade não existe como algo a ser atingido, um fim. “Sou feliz” seria catatonia, como uma alga que fica parada gozando de ser/estar feliz.
Temos uma angústia, algo que nos move, que nos transforma nesse sujeito sempre desejante, querendo mais, inventando demandas para tapar uma perda que jamais será preenchida: nunca voltaremos para o útero materno (talvez a morte seja o que existe de mais próximo).
Mas então não existe a atriz, linda, magra e rica tomando champagne, que está na capa da Revista Caras, por exemplo? Acredito que ela comeu muito alface, teve muito esforço na academia e deu seu jeito para estampar a revista. Numa entrevista, uma atriz famosa brasileira que engordou para um papel e foi muito criticada por isso (Cristiana Oliveira) declarou: “Essa sou eu, se não viver de dieta e na academia”. Brad Pitt tem dublê de tornozelo; enfim, todos temos faltas, precisamos delas para seguir em frente, para esquecer neuroticamente que o aniversário é um ano mais perto da morte e comemorar de forma feliz, com bolo, festas e velas.
Não existe um estado de felicidade plena, mas momentos felizes; e a forma mais segura de termos muitos desses momentos é investirmos nossa energia (libido) em muitos campos distintos:
-Termos uma boa escolha profissional, para que esta nos dê dinheiro e bem estar,
-Saudável e respeitosa relação com os filhos e a capacidade de entender que a vida deles é outra e as escolhas serão diferentes. Aliás, o conceito de felicidade deles pode ser bem diferente do seu,
-Investir nos seus amigos, ligar, sair, todo mundo quer ser convidado e amado, mas lembre-se que às vezes precisamos estar na posição daquele que busca, mas em outras precisamos ser aquele que demonstra afeto (e convida os outros pra sair).
Em resumo: descubra o maior número de coisas que lhe dão prazer: arte, cinema, sexo, escrever, ser famoso, não ser famoso, teatro, bater papo, cerveja, champagne, comida… tudo pode ser fonte de felicidade. O grande cuidado é não investir sua energia toda num alvo só, a isso chamamos compulsão, que vai da bebida ao chocolate, passa pelo dinheiro, recai sobre o sexo e pode parar na necessidade de estar sempre “amando”. A compulsão é uma tentativa de tampar tanto a angústia, de chegarmos num estado de não sentí-la (e esse só se alcança na morte) que flertamos com essa morte; e isso aparece na obesidade mórbida, na solidão do avarento, na compulsão sexual ou amorosa, na cirrose da bebida ou até no cara que sobe o monte Everest sem oxigênio simplesmente para saber que é capaz (vários corpos estão lá).
É um desafio, mas ser feliz é ter equilíbrio e saber escolher e diversificar onde investir. Felicidade é algo tão passageiro, que precisamos da dor para depois lembrarmos do que é ser feliz.
Claro que o objeto amoroso é um capitulo a parte: quero alguém que seja o espelho de mim e que, com suas qualidades, aponte as minhas, ou quero aquele que me cuida e me ampara? Quantos flertes, baladas, aplicativos, cutucadas no Facebook para poder encontrar alguém que eu acredite ser essa pessoa?
Não existe relação sexual da forma como a entendemos (não transo com você, transo com a fantasia que eu tenho de você), afinal nunca conheci alguém que conhecesse totalmente seu parceiro, apenas pessoas que acreditavam nisso. Creio que o amor e a felicidade (nesse caso) signifiquem encontrar alguém que esteja mais ou menos perto da fantasia que fazemos dela e que, assim sendo, tenha menos chance de nos decepcionar.
Em nossa sociedade, um dos grandes objetivos da vida virou achar sua “cara metade”. Freud até compara que, se na escolha do trabalho tivéssemos o mesmo cuidado que na escolha do amor, teríamos na profissão eterna fonte de satisfação. Existe um discurso de que só é feliz quem tem seu “pé de orelha”. Eu acredito mais no poeta Vinícius de Moraes (“que seja infinito enquanto dure”) e que possamos estar sempre com pessoas que nos acrescentam e estimulam. Você não quer morrer sozinho e por isso quer alguém para sempre? Entendo seu medo, mas imagine se sua “cara metade” morre 15 anos antes de você? Não imagino dor maior. No fim, estamos todos sós, a felicidade é o “durante”.
Essa chamada geração Y ou até F5 (os nascidos de 1990 em diante) são tão protegidos pelos pais e tão mascarados pelas redes sociais, onde todos são “felizes”, que têm tido tremenda dificuldade prática em realmente sentir, amar e ser feliz fora do seu “avatar de internet”.
Teremos que repensar os conceitos do que chamamos felicidade e relacionamento.
A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.
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