20 de junho de 2026

A política externa de Trump e seus efeitos na relação com a Europa, por Rasem Bisharat

Um dos aspectos mais perigosos da política externa de Trump é o crescente confronto com as normas e instituições internacionais.
Reprodução Flickr

A política externa de Trump reativa a Doutrina Monroe para intervir na América Latina e expandir a influência dos EUA.
EUA adotam postura confrontacional contra China e Rússia no hemisfério ocidental, intensificando tensões geopolíticas.
Crise na Groenlândia ameaça relação euro-americana e impulsiona Europa a buscar autonomia estratégica e defesa própria.

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A política externa do presidente Donald Trump e seus efeitos na relação com a Europa

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por Rasem Bisharat

A política externa dos Estados Unidos, no contexto do retorno de Donald Trump ao cenário executivo, atravessa uma transformação estrutural significativa em sua orientação e em seus instrumentos, refletindo um distanciamento crescente dos marcos que regeram o comportamento norte-americano desde o fim da Guerra Fria. Em vez de apoiar-se em alianças tradicionais, instituições multilaterais e na legitimidade jurídica internacional, Washington avança em direção a uma abordagem mais direta e coercitiva, baseada na imposição de interesses pela força, na redefinição de zonas de influência e no tratamento do sistema internacional a partir de uma lógica competitiva de soma zero.

Essa inflexão não se limita a uma mudança no discurso político, mas se materializa em políticas práticas voltadas para regiões sensíveis do hemisfério ocidental, como a América Latina e o Ártico, levantando questionamentos fundamentais sobre o futuro do sistema internacional, a estabilidade das alianças ocidentais e os limites da capacidade norte-americana de impor sua hegemonia em um mundo que testemunha a ascensão de competidores estratégicos e a erosão do consenso liberal internacional.

Nacionalismo expansivo e retorno à lógica da força: uma reativação seletiva da Doutrina Monroe

O núcleo da política externa de Trump pode ser descrito como um nacionalismo expansivo de caráter revanchista (revanchist), que evoca mais a lógica do século XIX do que o espírito do sistema internacional contemporâneo. Nesse contexto, ocorre uma reinterpretação da Doutrina Monroe — historicamente formulada para impedir a intervenção europeia no hemisfério ocidental —, transformando-a de um princípio defensivo em um instrumento de justificação para a intervenção direta dos Estados Unidos, tanto política quanto militarmente, nos países da América Latina.

Essa doutrina deixa de ser utilizada como um marco de proteção da soberania regional e passa a funcionar como uma cobertura ideológica para restabelecer a hegemonia norte-americana em seu entorno geográfico imediato e para criar interesses diretos dos Estados Unidos dentro de Estados soberanos, mesmo que isso exija a superação de governos existentes ou a imposição de fatos consumados mediante o uso da força. Tal abordagem reflete uma concepção segundo a qual o chamado “espaço vital norte-americano” deve submeter-se à vontade de Washington, e não à lógica de parcerias equitativas nem às normas do direito internacional, reintroduzindo assim a noção de “quintais” e a instabilidade crônica e as tensões regionais prolongadas que dela decorrem.

Da contenção à confrontação: diante da ascensão chinesa e da presença russa

As políticas externas de Trump também emanam de uma visão claramente confrontacional diante da rápida ascensão da China e do retorno da Rússia ao cenário da competição internacional. Em vez de lidar com essa realidade por meio de estratégias de contenção, equilíbrio ou dissuasão mútua, Trump concebe a influência chinesa e russa no hemisfério ocidental como uma ameaça direta à hegemonia norte-americana, especialmente em regiões que historicamente estiveram dentro da esfera de influência dos Estados Unidos.

Essa percepção manifesta-se com clareza em:

  • América Latina, onde Washington considera que a penetração econômica chinesa e o apoio russo a determinados regimes constituem uma incursão inaceitável em sua esfera de influência tradicional.
  • O Ártico, que, em decorrência das mudanças climáticas e da abertura de novas rotas marítimas, transformou-se em um novo palco de competição geopolítica, no qual convergem os interesses norte-americanos, russos e chineses em uma corrida por recursos e posições estratégicas.

Nesse marco, a política dos Estados Unidos evolui de uma estratégia de contenção de longo prazo para uma abordagem dissuasória ofensiva, baseada na pressão direta, na exibição de poder e na tentativa de impedir que os rivais consolidem sua presença, mesmo ao custo de intensificar as tensões internacionais e aumentar o risco de confrontação.

Confronto com as normas internacionais: erosão da legitimidade e ampliação dos cenários de conflito

Um dos aspectos mais perigosos da política externa de Trump é o crescente confronto com as normas e instituições internacionais. As intervenções militares e as ameaças públicas de anexação ou imposição de controle revelam um padrão cada vez mais acentuado de desprezo pelo direito internacional e pelos mecanismos de resolução de conflitos.

O impacto desse comportamento não se limita às regiões diretamente afetadas, mas estende-se à erosão do sistema internacional como um todo, uma vez que:

  • Enfraquece a confiança nas normas que regulam as relações entre os Estados;
  • Abre espaço para que outras potências justifiquem políticas expansionistas semelhantes sob o argumento da “reciprocidade”;
  • E normaliza a imposição de fatos consumados pela força como instrumento político legítimo.

Dessa forma, os Estados Unidos passam de um Estado que afirma proteger a ordem internacional a um ator central que contribui para desmontar os fundamentos sobre os quais essa ordem foi estabelecida após 1945. Nesse sentido, as políticas externas de Trump podem ser descritas como uma política de poder unilateral, expansiva e pós-liberal, que mina o sistema que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir.

O impacto nas relações euro-americanas: uma comoção estratégica sem precedentes

A Groenlândia é muito mais do que um território geograficamente remoto; no contexto das novas políticas norte-americanas, converteu-se em um teste de estresse decisivo para a relação transatlântica. O território encontra-se sob soberania dinamarquesa, e a Dinamarca não é um ator marginal no sistema ocidental, mas um Estado plenamente soberano, membro ativo da OTAN e parceiro da União Europeia, apesar do estatuto jurídico especial da Groenlândia. Essa interconexão jurídica e política transforma qualquer possível ação norte-americana sobre o território em uma questão essencialmente europeia, e não em um conflito bilateral passível de ser contido por negociações discretas.

Nessa perspectiva, qualquer movimento militar dos Estados Unidos na Groenlândia seria percebido na Europa como uma agressão direta contra um Estado europeu e como uma violação flagrante do princípio da soberania que sustenta a ordem internacional moderna. Ademais, tal ação constituiria um precedente sem paralelo na história da aliança atlântica, superando em gravidade todas as disputas anteriores entre as duas margens do Atlântico, inclusive a crise de Suez de 1956, que marcou, à época, o ápice das tensões entre os aliados ocidentais.

O resultado previsível desse cenário não seria uma mera crise diplomática passageira nem uma escalada midiática temporária, mas um colapso profundo da confiança política entre a Europa e Washington. Uma confiança construída ao longo de décadas sobre a premissa de que os Estados Unidos eram o fiador último da segurança europeia seria corroída de forma dificilmente reversível, abrindo caminho para uma reavaliação abrangente da natureza da relação transatlântica e dos limites da dependência europeia em relação ao parceiro norte-americano em uma fase internacional marcada pelo aumento da incerteza e pelo declínio das certezas estratégicas.

Fragmentação interna europeia sem colapso da posição geral

A reação europeia não se manifestaria como uma frente completamente homogênea, mas a tendência geral do posicionamento europeu inclinar-se-ia claramente para a rejeição. As capitais escandinavas, lideradas por Copenhague e Estocolmo, juntamente com Berlim, Paris e Madri, interpretariam qualquer ação norte-americana desse tipo como uma ameaça direta aos fundamentos da ordem europeia, e não como uma simples disputa política conjuntural. Para esses Estados, o movimento dos Estados Unidos representaria uma violação substantiva do princípio da soberania e das normas de segurança coletiva que sustentaram a estabilidade europeia durante décadas.

Em contraste, os países da Europa Oriental, em particular a Polônia e os Estados Bálticos, ver-se-iam presos a um dilema estratégico complexo. Por um lado, seria difícil aceitar ou justificar uma agressão norte-americana contra um Estado europeu; por outro, seriam dominados pelo temor real da perda ou do enfraquecimento do guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos, considerado por esses países a primeira linha de defesa diante da ameaça russa. Essa contradição traduzir-se-ia em posturas cautelosas e vacilantes, orientadas a conciliar a rejeição à ação norte-americana com a evitação de uma ruptura aberta com Washington.

Ainda assim, apesar dessa divergência de cálculos e temores, o consenso político europeu na rejeição à ação norte-americana se manteria, ainda que com diferentes graus de intensidade. Contudo, esse consenso não impediria o aprofundamento da fratura dentro da aliança atlântica, pois o episódio revelaria fissuras internas profundas na relação transatlântica e confirmaria que a unidade do Ocidente já não pode ser tomada como garantida, estando sujeita a equilíbrios frágeis e interesses divergentes.

Declínio da autoridade moral norte-americana e impulso europeu rumo à autonomia estratégica

A Europa historicamente aceitou a liderança dos Estados Unidos não apenas em virtude de sua superioridade militar ou de sua influência política, mas porque essa liderança se apresentava como moral e juridicamente legítima. A parceria transatlântica foi construída sobre o pressuposto de que Washington atuava dentro do marco do direito internacional, envolvendo suas políticas em um discurso de proteção da ordem liberal global, respeito à soberania dos Estados e defesa de valores compartilhados.

No entanto, qualquer ação unilateral dos Estados Unidos contra a Groenlândia provocaria uma fissura profunda nessa narrativa. O discurso norte-americano baseado na defesa da soberania da Ucrânia ou na advertência contra a alteração do status quo em Taiwan perderia parte substancial de sua credibilidade nas capitais europeias se viesse acompanhado de um comportamento que contradiz frontalmente esses mesmos princípios. Nesse ponto, a incoerência deixaria de ser teórica ou retórica para tornar-se prática e explícita, enfraquecendo gravemente a capacidade dos Estados Unidos de mobilizar apoio político e moral na Europa.

Essa erosão da autoridade moral norte-americana empurraria a Europa de forma acelerada para a opção da autonomia estratégica, não apenas no âmbito defensivo, mas também nos planos político e diplomático. Reforçar-se-ia a convicção europeia de que uma dependência excessiva da liderança norte-americana já não constitui uma garantia de estabilidade, mas uma fonte potencial de riscos. Em consequência, as políticas externas de Trump não podem ser entendidas como um mero desvio circunstancial ou um episódio excepcional, mas como uma mudança estrutural capaz de redefinir a relação transatlântica e de pôr fim, de fato, ao modelo de liderança norte-americana aceito na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A OTAN: de guarda-chuva de segurança a estrutura nominal

Diante de qualquer passo unilateral dos Estados Unidos para ocupar a Groenlândia, a OTAN passaria de um guarda-chuva de segurança confiável a uma estrutura essencialmente nominal. A credibilidade operacional da Aliança, baseada no compromisso de defesa mútua entre seus membros, seria gravemente enfraquecida, pois o Artigo 5 — que garante a defesa coletiva de qualquer membro atacado — tornar-se-ia objeto de controvérsia e exceções caso o agressor fosse um dos principais membros da própria Aliança. Essa situação corroeria a função central da OTAN como instrumento de dissuasão e levaria os Estados menores e médios a questionar seriamente sua capacidade de confiar na Aliança diante de crises de grande envergadura.

A OTAN continuaria a existir do ponto de vista institucional, mas perderia sua capacidade de unificar o Ocidente e de gerir de forma eficaz a segurança coletiva, aparecendo mais como um arcabouço formal do que como uma força estratégica operativa. Esse deterioro incentivaria os Estados europeus a explorar fórmulas de segurança mais autônomas e flexíveis, nas quais as iniciativas defensivas teriam origem europeia e se baseariam nas capacidades próprias de potências como França e Alemanha, à margem de uma liderança norte-americana que já não seria percebida como uma garantia absoluta.

Autonomia defensiva europeia e o início de uma corrida armamentista

Como consequência natural do declínio da confiança europeia nos Estados Unidos e da diminuição da eficácia da OTAN, a Europa avançaria rumo a uma autonomia defensiva real, apoiada em suas próprias capacidades e em seus mecanismos internos de cooperação. Os Estados europeus, liderados por França, Alemanha, Roma e Madri, buscariam reduzir sua dependência de um guarda-chuva norte-americano cuja credibilidade teria sido comprometida e concentrariam seus esforços na reconstrução, quase do zero, da arquitetura defensiva europeia. Isso incluiria o desenvolvimento de forças europeias unificadas, capazes de se desdobrar rapidamente diante de crises regionais, o fortalecimento das indústrias militares locais para reduzir a dependência de tecnologia e equipamentos dos Estados Unidos, bem como a criação de redes de inteligência independentes que permitam à Europa coletar informações e avaliar ameaças sem passar por Washington.

Essa inflexão não seria meramente técnica, mas acarretaria profundas implicações políticas e estratégicas. Reforçaria o senso de soberania europeia e dotaria os Estados de maior capacidade para tomar decisões autônomas em matéria de defesa e segurança, à margem de imposições ou condicionamentos externos. Ao mesmo tempo, esse afastamento parcial da liderança norte-americana abriria espaço para uma nova corrida armamentista europeia, na qual os Estados competiriam para desenvolver suas capacidades militares a fim de proteger seus interesses nacionais e regionais, incluindo armamentos avançados, capacidades aéreas e navais e cibersegurança, com o objetivo de evitar qualquer lacuna estratégica que pudesse ser explorada por potências externas.

Conclusão

As políticas externas do presidente Donald Trump demonstram que a transformação em curso do comportamento norte-americano não pode ser reduzida a uma simples mudança de estilo ou de discurso circunstancial, mas reflete uma redefinição profunda do papel dos Estados Unidos no sistema internacional, baseada na primazia da força, na diminuição do compromisso com as alianças e na erosão dos referenciais jurídicos e institucionais que constituíram o fundamento da estabilidade ocidental desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Essa inflexão, embora decorra de cálculos internos dos Estados Unidos, acarreta implicações estratégicas diretas para a Europa, que se vê diante de uma nova realidade na qual a cobertura norte-americana já não representa uma garantia absoluta de segurança nem de estabilidade.

Nesse contexto, a relação euro-norte-americana transforma-se de uma parceria sustentada na confiança e na integração estratégica em uma relação marcada pela cautela e pela reavaliação. A possibilidade de que Washington recorra a políticas unilaterais, inclusive em detrimento dos interesses de seus aliados, coloca a Europa diante de uma questão existencial relativa aos limites da dependência da liderança norte-americana e à viabilidade de um modelo de segurança concebido em circunstâncias históricas que já não existem. Sob essa perspectiva, a opção pela autonomia estratégica europeia não surge como um luxo político nem como uma aspiração teórica, mas como uma trajetória inevitável, imposta pelas transformações geopolíticas e pela erosão da certeza atlântica.

Em consequência, o futuro da Europa sob essas políticas dependerá em grande medida de sua capacidade de transformar o desafio em oportunidade: uma oportunidade para construir um papel internacional mais independente, reforçar sua coesão interna e desenvolver seus instrumentos defensivos e políticos de modo a garantir a proteção de seus interesses sem ficar subordinada a vontades externas voláteis. As políticas de Trump, independentemente de suas motivações, podem representar um momento decisivo que impulsione a Europa a sair da sombra da liderança norte-americana e a passar da condição de ator dependente em matéria de segurança para a de ator estratégico pleno em um sistema internacional que avança de forma constante rumo a uma multipolaridade mais competitiva e menos estável.

Rasem Bisharat – Pesquisador e analista, especializado em assuntos latino-americanos e palestinos, doutor em Estudos da Ásia Ocidental.

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