Venezuela nas trilhas de Monroe: a hegemonia americana e a disputa de influência no hemisfério ocidental
por Rasem Bisharat
A Venezuela encontra-se hoje diante de uma encruzilhada histórica aguda, em meio ao crescente questionamento sobre se Washington teria, de fato, reavivado a Doutrina Monroe em uma formulação contemporânea, por meio da qual busca reimpor sua influência sobre o hemisfério ocidental. Com o amanhecer de 3 de janeiro, os Estados Unidos da América realizaram amplos ataques militares em território venezuelano, atingindo múltiplos alvos, incluindo a capital Caracas e seus arredores, em uma escalada sem precedentes no curso das relações entre os dois países nas últimas décadas.
O aspecto mais marcante desse cenário não foi apenas a magnitude dos ataques, mas o que se seguiu a eles: um anúncio político chocante, no qual o presidente Trump declarou que forças norte-americanas haviam detido o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, transferindo-os para fora do país. Essa narrativa rapidamente desencadeou uma onda de controvérsias e dúvidas, diante da ausência de confirmações independentes ou de detalhes jurídicos claros sobre a operação. Por sua vez, o governo venezuelano classificou o ocorrido como uma agressão flagrante à soberania do Estado, afirmando que o que aconteceu representa uma grave violação de todas as normas internacionais e exigindo esclarecimentos sobre o paradeiro do presidente Maduro.
Entretanto, esses desdobramentos não parecem constituir um incidente militar isolado ou uma reação circunstancial, mas sim o capítulo mais recente de uma longa série de políticas norte-americanas em relação à Venezuela em particular e à América Latina em geral. O cenário atual traz novamente à tona um debate mais amplo sobre a natureza do papel dos Estados Unidos na região e levanta uma questão fundamental: estaria Washington buscando redesenhar o mapa de sua influência regional por meio da reativação do princípio de Monroe, formulado no século XIX, porém com instrumentos e métodos compatíveis com a realidade do século XXI?
A Doutrina Monroe e as transformações da influência americana
Em 1823, o presidente norte-americano James Monroe lançou a pedra fundamental do que mais tarde ficaria conhecido como a Doutrina Monroe, por meio de uma declaração diplomática densa em significado, resumida na expressão: “A América para os americanos”. Em sua aparência inicial, o princípio baseava-se em uma equação equilibrada: a rejeição de qualquer intervenção europeia nos assuntos do hemisfério ocidental, em troca da abstenção dos Estados Unidos de intervir nos conflitos e políticas europeias. Contudo, essa formulação, que à época parecia defensiva, rapidamente adquiriu conotações distintas à medida que os equilíbrios de poder se alteraram.
Com o final do século XIX e o início da ascensão dos Estados Unidos como uma potência internacional atuante, a interpretação da Doutrina Monroe passou de um instrumento de dissuasão externa a um manto legitimador da intervenção direta nos assuntos dos países da América Latina. Já na primeira metade do século XX, o princípio converteu-se em uma referência não declarada para uma série de políticas que incluíram o apoio a golpes de Estado, a pressão sobre governos eleitos e a concessão de cobertura política a regimes militares, sob rótulos amplos como a “proteção da segurança nacional” ou a “prevenção da infiltração estrangeira”.
Com o crescimento do poder norte-americano no final do século XIX e no início do século XX, a Doutrina Monroe foi transformada em um instrumento de influência. Durante a presidência de Theodore Roosevelt, sua interpretação foi ampliada para incluir o direito dos Estados Unidos de intervir com o objetivo de “proteger a ordem e a estabilidade” nos países latino-americanos, o que posteriormente ficou conhecido como o Corolário Roosevelt.
A história moderna da região é repleta de exemplos que evidenciam essa transformação. Na Guatemala, em 1954, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) apoiou um golpe de Estado que derrubou o presidente Jacobo Árbenz, após considerar que suas reformas agrárias representavam uma ameaça direta aos interesses da empresa norte-americana United Fruit. No Chile, em 1973, Washington contribuiu política e economicamente para desestabilizar o governo socialista do presidente eleito Salvador Allende, abrindo caminho para o golpe do general Augusto Pinochet e para a entrada do país em um longo período de regime militar repressivo. Já no Panamá, em 1989, os Estados Unidos passaram à intervenção militar direta, por meio de uma invasão em larga escala que derrubou o presidente Manuel Noriega, em uma operação então descrita como uma das mais amplas ações norte-americanas na América Central. Somam-se a isso intervenções militares no México (1846–1848), em Cuba (1898–1902, 1961), na Nicarágua (1912–1933), na Guatemala (1954), na República Dominicana (1965), bem como o apoio a governos militares no Brasil, na Argentina, na Bolívia e em El Salvador, além da Guatemala e da Colômbia, entre os anos de 1960 e 1990.
Esses fatos, entre muitos outros, demonstram que as intervenções norte-americanas assumiram múltiplas formas e se valeram de discursos variáveis: desde o combate ao comunismo durante a Guerra Fria, passando pela proteção dos investimentos estrangeiros, até justificativas relacionadas à segurança e à estabilidade regional. Contudo, o denominador comum permaneceu constante: a legitimação da influência e da intervenção por meio de formulações de caráter securitário e político, inspiradas na essência da Doutrina Monroe, ainda que sua linguagem e seus contextos tenham se modificado ao longo do tempo.
Do “perigo soviético” à “guerra contra as drogas”: pretextos renovados para uma influência permanente
Com o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética, parecia, à primeira vista, que um dos principais argumentos que justificavam a intervenção dos Estados Unidos na América Latina havia desaparecido. Contudo, o discurso mudou, enquanto o objetivo central permaneceu inalterado: preservar uma influência norte-americana hegemônica em uma região na qual Washington não aceita a presença de concorrentes reais. Nesse contexto, os Estados Unidos reformularam suas narrativas, substituindo o discurso do “combate ao comunismo” por rótulos de maior aceitação internacional, como o combate ao tráfico de drogas, a luta contra o terrorismo e a proteção da segurança nacional.
Nos últimos anos, esse discurso assumiu um caráter prático e progressivamente intensificado no caso venezuelano. Em dezembro de 2025, o presidente Trump anunciou que seu país havia realizado o primeiro ataque conhecido em território venezuelano, alegando que o alvo era uma instalação utilizada para o carregamento de drogas. No entanto, essa versão não foi respaldada por confirmações independentes nem por detalhes jurídicos claros, o que abriu um amplo debate sobre a legitimidade desse tipo de operação e seus limites legais à luz do direito internacional.
Paralelamente, Washington intensificou sua presença militar na região por meio do envio de uma grande frota naval às águas do mar do Caribe, em um movimento que muitos observadores interpretaram como algo que vai além do combate ao narcotráfico, refletindo uma escalada militar evidente e uma mensagem direta de dissuasão dirigida à Venezuela, em um momento em que a região vivencia uma crescente sensibilidade geopolítica.
Venezuela: a riqueza petrolífera no centro do conflito geopolítico
Essa escalada não pode ser dissociada da posição estratégica da Venezuela no mapa energético mundial. O país detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, além de outras riquezas naturais que o tornam um alvo permanente nos cálculos das grandes potências. A partir dessa perspectiva, o retorno de Washington a uma política de pressão econômica e no terreno é visto como parte de uma disputa de influência mais ampla, e não como um simples desacordo político circunstancial.
Essa pressão materializou-se em uma série de medidas, entre as quais se destacam a imposição de tarifas ou restrições a países que comercializam petróleo venezuelano, incluindo a China e outros grandes compradores, além do endurecimento das sanções econômicas, que agravaram os encargos sobre o governo e cujos efeitos se estenderam às camadas populares dentro do país.
Em síntese, essas políticas parecem entrelaçar-se com um conflito internacional mais amplo entre os Estados Unidos, de um lado, e potências emergentes como a China e a Rússia, de outro, em uma região que Washington historicamente considerou como uma esfera de influência estratégica que não pode ser deixada fora de seu controle.
A resposta venezuelana e as repercussões regionais da escalada
Diante da escalada norte-americana, o governo do presidente Nicolás Maduro procurou rapidamente consolidar sua narrativa, anunciando a rejeição categórica a qualquer ação militar externa e considerando as medidas dos Estados Unidos como uma violação flagrante da soberania nacional e uma ruptura com as normas do direito internacional. Nesse contexto, as autoridades declararam estado de emergência e convocaram uma ampla mobilização popular, em uma mensagem destinada a enfatizar que o país enfrenta uma agressão externa, e não apenas uma crise diplomática passageira.
Em nível regional, os acontecimentos não passaram sem repercussão. Brasil, Cuba, México e Colômbia condenaram a agressão; Cuba e Colômbia solicitaram a realização de uma sessão de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas para examinar a escalada e suas consequências, em uma tentativa de conter a situação por meio dos canais diplomáticos. O presidente colombiano, Gustavo Petro, classificou o ataque como uma agressão à soberania da América Latina e alertou para uma possível crise humanitária decorrente da escalada, além de convocar uma reunião de emergência do Conselho de Segurança para discutir os desdobramentos. Por sua vez, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva expressou uma forte condenação ao ataque norte-americano, considerando que os bombardeios militares constituem uma transgressão inaceitável e uma violação da soberania da Venezuela, e apelou às Nações Unidas por uma resposta firme ao que descreveu como uma grave violação. Ele também enfatizou que seu país está disposto a facilitar o diálogo entre as partes para resolver a crise por meios diplomáticos.
Em contrapartida, as posições de outros países da região variaram, indo desde um apoio explícito à posição norte-americana, como no caso da Argentina, onde o presidente argentino Javier Milei expressou seu apoio à ação dos Estados Unidos, afirmando que os acontecimentos representam um avanço para a liberdade na região — uma postura que reflete as divisões existentes na América Latina em relação à crise.
Conclusão: um contexto histórico que transcende o momento presente
O que ocorre hoje na Venezuela não pode ser compreendido fora de seu contexto histórico mais amplo, nem dissociado de um longo histórico de intervenções norte-americanas na América Latina. É verdade que o discurso dos Estados Unidos mudou ao longo das décadas e que os temas predominantes passaram a concentrar-se no combate às drogas ou ao terrorismo; contudo, os padrões de comportamento e a mentalidade estratégica de caráter imperial revelam a persistência de uma visão que considera o hemisfério ocidental como um espaço vital que deve ser mantido sob controle.
Nesse marco, o cenário atual pode ser entendido como uma evidência de que os Estados Unidos não encerraram o capítulo da Doutrina Monroe, mas a reproduziram em uma forma mais moderna e menos explícita: uma transição do conceito direto de “quintal” para a concepção de uma esfera de influência permanente, cujos limites são administrados por meio de instrumentos políticos, econômicos e de segurança mais sofisticados. Nesse sentido, a Venezuela não parece ser um caso excepcional nem um alvo isolado, mas sim uma mensagem política dirigida ao conjunto do continente, por meio da qual Washington testa os limites da dissuasão e da aceitação regional.
Dessa forma, a questão colocada na América Latina vai além de saber se os Estados Unidos intervirão ou não, para se transformar em uma indagação mais profunda e urgente: até que ponto os países da região são capazes de romper a lógica do “quintal” e construir uma margem de decisão autônoma em um mundo no qual a unipolaridade está em declínio, enquanto os instrumentos de hegemonia ainda não desapareceram?
Em conclusão, pode-se afirmar que o que acontece hoje na Venezuela não constitui um episódio isolado nem uma exceção passageira, mas um novo capítulo de uma narrativa que se estende por mais de um século e meio, refletindo a mudança e a adaptação das ferramentas norte-americanas ao longo do tempo, sem que isso altere a essência de sua abordagem em relação à região.
Rasem Bisharat – Doutor em Estudos da Ásia Ocidental e pesquisador em assuntos latino-americanos
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