Um conjunto de documentos encaminhados ao Ministério Público lança luz sobre um dos segmentos mais sensíveis da mobilidade paulista: a gestão da arrecadação tarifária do transporte metropolitano. No centro das denúncias está a relação entre a Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Bilhetagem e Arrecadação de Passagens (ABASP) e a Autopass, empresa responsável pela operação do sistema de bilhetagem eletrônica da Região Metropolitana de São Paulo.
As acusações apontam para uma combinação de conflitos de interesse, concentração societária e fragilidades de governança que, se confirmadas, podem caracterizar um caso clássico de captura privada de uma atividade essencialmente pública.
A mudança silenciosa
Até poucos anos atrás, a arrecadação das tarifas do sistema metropolitano estava vinculada ao Consórcio Metropolitano de Transportes (CMT). Em 2019, entretanto, foi criada a ABASP, entidade privada formada pelos concessionários do chamado Sistema Pneus — os operadores de ônibus intermunicipais da Região Metropolitana de São Paulo.
O aspecto mais relevante da operação foi a adesão, desde a fundação, das duas principais empresas públicas do sistema: Metrô e CPTM, na condição de “associados especiais”. Com isso, a nova associação passou a concentrar a arrecadação tarifária de um sistema financiado por milhões de usuários e sustentado por contratos públicos.
Na prática, uma função estratégica da administração do transporte coletivo migrou para uma estrutura privada controlada pelos próprios operadores. A adesão de ambas mostra ligações do governo Tarcísio de Freitas com a montagem.
O contrato de 20 anos
Segundo a documentação analisada, o estatuto da ABASP previa a criação de um Comitê Técnico de Bilhetagem, responsável por avaliar tecnologias, modelos operacionais e emitir pareceres técnicos vinculantes antes de grandes decisões.
Ocorre que esse comitê não teria sido instalado antes da principal contratação da entidade.
Em abril de 2020, a ABASP aprovou um contrato de vinte anos com a Autopass para operação integral do sistema de bilhetagem, em um modelo conhecido como full service provider. Não houve estudos comparativos de mercado nem processo competitivo capaz de demonstrar que a Autopass seria a melhor alternativa tecnológica ou econômica.
A questão central, porém, não está apenas na contratação.
A “dança das cadeiras”
A análise da estrutura societária revela uma impressionante sobreposição de cargos entre a entidade contratante e a empresa contratada.
Entre os nomes citados aparecem Fernando Manuel Mendes Nogueira, José Roberto Iasbek Felício, Luiz Augusto Saraiva e José Romano Netto, que teriam ocupado simultaneamente posições de comando na ABASP, na Autopass e em empresas controladoras da estrutura societária da operadora de bilhetagem.
Em outras palavras, dirigentes que participavam das decisões da associação responsável pela contratação estariam também vinculados aos grupos econômicos beneficiados pelo contrato.
Caso confirmada, a situação levanta dúvidas sobre a existência de mecanismos efetivos de prevenção de conflitos de interesse.
Quem controla a Autopass?
A estrutura societária tornou-se mais visível apenas em 2025, durante um processo concorrencial eletrônico.
A Autopass pertence integralmente à Mondopass S.A., controlada majoritariamente pelo fundo Mondo FIP. Esse fundo, por sua vez, está ligado à Mondo Holding, cujos acionistas são justamente famílias de empresários do transporte coletivo metropolitano.
A documentação identifica participação de grupos empresariais ligados a empresas como Metra, Miracatiba, Viação Arujá, Vila Galvão, Urubupungá, Cidade Caieiras, Viação Osasco, Pirajuçara, Raposo Tavares, Transdutra e outras operadoras do sistema.
A conclusão apresentada é direta: parte dos fundadores da ABASP seria, simultaneamente, beneficiária econômica da empresa contratada para operar a bilhetagem.
Dependência financeira
Os números financeiros apresentados ajudam a compreender o tamanho da relação entre as duas entidades.
Segundo as demonstrações financeiras citadas, o contrato com a ABASP respondeu por 91% da receita da Autopass em 2023 e por 73% em 2024. Trata-se de um grau de dependência incomum para uma empresa que opera um dos maiores sistemas de bilhetagem do país.
Ao mesmo tempo, a própria ABASP registrou déficit superior a R$ 106 milhões em 2023, levando os auditores independentes a apontarem incertezas quanto à sua continuidade operacional. Ainda assim, representantes do Metrô e da CPTM teriam aprovado as contas, recomendando apenas a adoção de medidas de recuperação financeira.
As perguntas que permanecem
O caso coloca uma série de questões que merecem esclarecimento das autoridades e dos próprios envolvidos:
- Por que a arrecadação do sistema foi transferida para uma associação privada?
- Por que o Comitê Técnico previsto no estatuto não teria sido constituído antes da contratação?
- Houve efetivamente análise de alternativas de mercado para a bilhetagem?
- Os conflitos de interesse foram formalmente declarados?
- Qual é a remuneração efetiva da Autopass pelo serviço?
- Qual o papel desempenhado por Metrô e CPTM em todas as etapas do processo?
São perguntas relevantes porque a bilhetagem não é apenas um serviço tecnológico. Ela representa o coração financeiro do sistema de transporte metropolitano.
Quem controla a arrecadação controla o fluxo de recursos que abastece operadores, concessionários e parte significativa da infraestrutura de mobilidade da maior região urbana do país.
O debate de fundo
Mais do que uma controvérsia contratual, a denúncia levanta uma discussão mais ampla sobre governança pública.
Nas últimas décadas, tornou-se comum a criação de estruturas privadas para administrar funções antes executadas diretamente pelo Estado. Em muitos casos, o modelo trouxe ganhos de eficiência. Em outros, abriu espaço para zonas cinzentas em que a distinção entre interesse público e interesse privado se tornou cada vez mais difícil de identificar.
A investigação agora em curso poderá esclarecer em qual dessas categorias se enquadra o caso da bilhetagem paulista.
Até lá, permanece uma questão fundamental: como uma atividade que movimenta bilhões de reais em tarifas e afeta diariamente milhões de passageiros passou a ser administrada por uma estrutura privada controlada pelos próprios operadores do sistema?
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