18 de junho de 2026

Como a XP ganhou na alta e na queda da Ambipar, por Luís Nassif

Primeiro venderam a aposta. Depois criaram o fundo para tentar recuperar as perdas. Faturaram nos dois momentos.
Reprodução

Ações da Ambipar subiram 1.000% até dezembro de 2024, atingindo R$ 25 bi, e depois caíram drasticamente, prejudicando investidores.
XP lançou COEs com papéis da Ambipar em 2024, vendendo-os como investimentos seguros, apesar do risco alto registrado oficialmente.
Em 2025, XP liquidou COEs com perdas de até 93% para clientes e lançou fundo para recuperar dívidas, gerando ações judiciais e reclamações.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Uma das operações turbulentas montadas por Nelson Tanure, o caso Ambipar é um dos grandes escândalos do mercado de capitais brasileiro.

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Em 2023 e 2024 as ações da Ambipar experimentaram momentos de grande euforia, com alta de mais de 1.000% em um ano. A máxima histórica foi em dezembro de 2024, com um valor de mercado em torno de R$ 25 bilhões. Depois, viraram pó. Nos dois momentos, a XP lucrou, em cima de investidores desavisados.

A lógica do mercado é simples. Sempre que uma ação tem um processo acelerado de alta, quando bate no teto tende a haver um ajuste de preço que derruba as cotações.

Para o investidor não interessa o preço em si, mas a variação futura do valor da ação. Portanto, a estratégia correta é aplicar no ciclo de alta e vender quando se pressente o início do ciclo de queda.

Em 15.03.2024 a XP lançou o COE IPCA com papéis da Ambipar. COE, ou Certificado de Operações Estruturadas, é um produto de investimento que mistura renda fixa + derivativos para criar um rendimento “sob medida”.

O que são os COES

Antes de começar o jogo, a XP já ganhou. Recebe entre 5% a 10% do valor captado, invisíveis ao investidor no extrato.

Exemplo: em R$ 300 milhões captados, a XP teria embolsado entre R$ 15 a R$ 30 milhões já na largada.

Há uma assimetria de riscos: se dá lucro, corretora e clientes ganham; se dá prejuízo, apenas o cliente perde.

E os COE têm uma cabalística: são ativos de risco. Quando lançou os COEs da Ambipar, o XP registrou-os como de alto risco. Mas quando os papéis foram a mercado, passaram a ser oferecidos por consultores financeiros a seus clientes, sem alertar para o risco. 

Ou seja, a XP se blindou registrando os COEs como investimentos de alto risco. E os investidores arcaram com o prejuízo ao serem informados pelos assessores de que eram papéis sem risco, mesmo constando como “investidores conservadores” na plataforma da XP.

Em fins de 2024, o valor da Ambipar chegava a R$ 25 bilhões. E já começava o rali de queda quando, em 22.04.2025, a XP lançou o COE CDI.

A XP lançou o COE CDI antes que muitos investidores percebessem a deterioração financeira da companhia. Investidores individuais ainda acreditavam em uma recuperação das cotações. Definitivamente, não uma empresa com o corpo de analistas de uma XP.

O COE foi vendido quando a ação já estava em tendência de queda, após uma bolha especulativa, em um momento de alta incerteza sobre:
– dívida
– caixa
– sustentabilidade do crescimento

À medida que a crise se aprofundou em 2025, esse valor despencou, transformando o risco embutido nos COEs em quase calote e provocando perdas fortíssimas em preço de mercado dos títulos subjacentes.

Após deterioração do risco de crédito da Ambipar, a XP liquidou os COEs antecipadamente em outubro de 2025, resultando em resgates de apenas 6,88% do valor investido e perdas de até 93% para os clientes. A corretora foi acusada de omissões sobre riscos, gerando reclamações e ações judiciais.

Existem até ações coletivas pedindo R$ 100 milhões em indenizações por COEs vendidos (não só Ambipar, mas Ambipar é um dos casos mais emblemáticos). 

Como a XP lucrou duas vezes com o mesmo prejuízo

Quando o prejuízo estava consumado, o que fez a XP? Lançou o fundo Recovery AMB em 23.10.2025. É um fundo multimercado que investe principalmente em títulos de dívida da Ambipar negociados com desconto no mercado secundário. É o que se chama de “distressed debt”, fundo que compra dívidas de empresas em crise (quase quebrando ou já quebradas) por preços muito baixos.

Primeiro venderam a aposta. Depois criaram o fundo para tentar recuperar as perdas. Faturaram nos dois momentos.

A adesão foi mínima, menos de R$ 5,5 milhões de patrimônio.

Questões legais e éticas

Há algumas questões importantes aqui:

  1. Adequação (suitability): Corretoras têm obrigação legal de vender produtos adequados ao perfil do investidor
  2. Transparência: Os riscos devem ser claramente comunicados, não apenas constarem em documentos que o investidor pode não ler
  3. Timing: Lançar um produto complexo baseado em uma ação que já teve valorização extrema levanta questões sobre a intenção
  4. Conflito de interesses: A corretora ganha com a estruturação, independentemente do resultado para o cliente

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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5 Comentários
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  1. Jicxjo

    16 de janeiro de 2026 8:57 am

    Assistam Inside Job e vejam o que as instituições financeiras americanas fizeram com os investidores na crise do subprime. Apostas contra os clientes baseadas em produtos altamente encapsulados para dissimular a natureza da operação com derivativos.

    Aqui a XP apenas repete o método, aposta contra seus próprios clientes. Assessores sem escrúpulos empurram produtos tóxicos aos desavisados, e ainda os incentivam a girar a carteira ao máximo, para maximizarem suas comissões. Outra prática calhorda é incentivarem os clientes leigos a operarem alavancados, pegando empréstimos adivinhem de quem? Da própria XP…

    Já há uma infinidade de casos relatados, as ações na justiça se amontoam. Cadê a CVM?

    1. Fernando FFF

      16 de janeiro de 2026 12:13 pm

      Sobre a participação de Tofolli, um silêncio supremo do jornalista.

  2. AARONSCHWARTZ

    16 de janeiro de 2026 9:40 am

    Nassif todos estes processos OBSCUROS só é possível com a cumplicidade e omissão daqueles q são responsáveis por denunciar ou fiscalizar para q ng passe do limite,a midia dos FALSOS JORNALISTAS DOS DONOS BILIONÁRIOS MIMADOS só querem saber de levar o.seu tam bem,nem falo do judiciário e políticos AFF,mas em uma sociedade em q os próprios prejudicados DEFENDEM os seus “prejudicadores”sejam operários trabalhadores ou empresários do Agro,indústria e etc…Como isto é possível?Lavagem cerebral,diversionismo a mídia coloca um inimigo comum ao qual vale tudo.contra ele enquanto.faz os seus processos obscuros,incentivam a IGNORÂNCIA contra os próprios fatos,estatísticas ao qual dizem o contrário AFF !!!Técnica nazista goebeniana seja na tv ou internet AFF !!!

  3. D. Normandia

    16 de janeiro de 2026 5:53 pm

    Excelente matéria.
    Eu fui um dos que ficaram com prejuízos.
    Como minoritário meu PM está nas alturas.
    Além disso, esses grupamentos são o golpe de misericórdia.
    Lamentável.

  4. Evandro

    22 de janeiro de 2026 9:28 am

    Vc é o melhor jornalista do Brasil, Nassif.

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