Uma das operações turbulentas montadas por Nelson Tanure, o caso Ambipar é um dos grandes escândalos do mercado de capitais brasileiro.
Em 2023 e 2024 as ações da Ambipar experimentaram momentos de grande euforia, com alta de mais de 1.000% em um ano. A máxima histórica foi em dezembro de 2024, com um valor de mercado em torno de R$ 25 bilhões. Depois, viraram pó. Nos dois momentos, a XP lucrou, em cima de investidores desavisados.
A lógica do mercado é simples. Sempre que uma ação tem um processo acelerado de alta, quando bate no teto tende a haver um ajuste de preço que derruba as cotações.
Para o investidor não interessa o preço em si, mas a variação futura do valor da ação. Portanto, a estratégia correta é aplicar no ciclo de alta e vender quando se pressente o início do ciclo de queda.
Em 15.03.2024 a XP lançou o COE IPCA com papéis da Ambipar. COE, ou Certificado de Operações Estruturadas, é um produto de investimento que mistura renda fixa + derivativos para criar um rendimento “sob medida”.
O que são os COES
Antes de começar o jogo, a XP já ganhou. Recebe entre 5% a 10% do valor captado, invisíveis ao investidor no extrato.
Exemplo: em R$ 300 milhões captados, a XP teria embolsado entre R$ 15 a R$ 30 milhões já na largada.
Há uma assimetria de riscos: se dá lucro, corretora e clientes ganham; se dá prejuízo, apenas o cliente perde.
E os COE têm uma cabalística: são ativos de risco. Quando lançou os COEs da Ambipar, o XP registrou-os como de alto risco. Mas quando os papéis foram a mercado, passaram a ser oferecidos por consultores financeiros a seus clientes, sem alertar para o risco.
Ou seja, a XP se blindou registrando os COEs como investimentos de alto risco. E os investidores arcaram com o prejuízo ao serem informados pelos assessores de que eram papéis sem risco, mesmo constando como “investidores conservadores” na plataforma da XP.
Em fins de 2024, o valor da Ambipar chegava a R$ 25 bilhões. E já começava o rali de queda quando, em 22.04.2025, a XP lançou o COE CDI.
A XP lançou o COE CDI antes que muitos investidores percebessem a deterioração financeira da companhia. Investidores individuais ainda acreditavam em uma recuperação das cotações. Definitivamente, não uma empresa com o corpo de analistas de uma XP.
O COE foi vendido quando a ação já estava em tendência de queda, após uma bolha especulativa, em um momento de alta incerteza sobre:
– dívida
– caixa
– sustentabilidade do crescimento
À medida que a crise se aprofundou em 2025, esse valor despencou, transformando o risco embutido nos COEs em quase calote e provocando perdas fortíssimas em preço de mercado dos títulos subjacentes.
Após deterioração do risco de crédito da Ambipar, a XP liquidou os COEs antecipadamente em outubro de 2025, resultando em resgates de apenas 6,88% do valor investido e perdas de até 93% para os clientes. A corretora foi acusada de omissões sobre riscos, gerando reclamações e ações judiciais.
Existem até ações coletivas pedindo R$ 100 milhões em indenizações por COEs vendidos (não só Ambipar, mas Ambipar é um dos casos mais emblemáticos).
Como a XP lucrou duas vezes com o mesmo prejuízo
Quando o prejuízo estava consumado, o que fez a XP? Lançou o fundo Recovery AMB em 23.10.2025. É um fundo multimercado que investe principalmente em títulos de dívida da Ambipar negociados com desconto no mercado secundário. É o que se chama de “distressed debt”, fundo que compra dívidas de empresas em crise (quase quebrando ou já quebradas) por preços muito baixos.
Primeiro venderam a aposta. Depois criaram o fundo para tentar recuperar as perdas. Faturaram nos dois momentos.
A adesão foi mínima, menos de R$ 5,5 milhões de patrimônio.
Questões legais e éticas
Há algumas questões importantes aqui:
- Adequação (suitability): Corretoras têm obrigação legal de vender produtos adequados ao perfil do investidor
- Transparência: Os riscos devem ser claramente comunicados, não apenas constarem em documentos que o investidor pode não ler
- Timing: Lançar um produto complexo baseado em uma ação que já teve valorização extrema levanta questões sobre a intenção
- Conflito de interesses: A corretora ganha com a estruturação, independentemente do resultado para o cliente
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Jicxjo
16 de janeiro de 2026 8:57 amAssistam Inside Job e vejam o que as instituições financeiras americanas fizeram com os investidores na crise do subprime. Apostas contra os clientes baseadas em produtos altamente encapsulados para dissimular a natureza da operação com derivativos.
Aqui a XP apenas repete o método, aposta contra seus próprios clientes. Assessores sem escrúpulos empurram produtos tóxicos aos desavisados, e ainda os incentivam a girar a carteira ao máximo, para maximizarem suas comissões. Outra prática calhorda é incentivarem os clientes leigos a operarem alavancados, pegando empréstimos adivinhem de quem? Da própria XP…
Já há uma infinidade de casos relatados, as ações na justiça se amontoam. Cadê a CVM?
Fernando FFF
16 de janeiro de 2026 12:13 pmSobre a participação de Tofolli, um silêncio supremo do jornalista.
AARONSCHWARTZ
16 de janeiro de 2026 9:40 amNassif todos estes processos OBSCUROS só é possível com a cumplicidade e omissão daqueles q são responsáveis por denunciar ou fiscalizar para q ng passe do limite,a midia dos FALSOS JORNALISTAS DOS DONOS BILIONÁRIOS MIMADOS só querem saber de levar o.seu tam bem,nem falo do judiciário e políticos AFF,mas em uma sociedade em q os próprios prejudicados DEFENDEM os seus “prejudicadores”sejam operários trabalhadores ou empresários do Agro,indústria e etc…Como isto é possível?Lavagem cerebral,diversionismo a mídia coloca um inimigo comum ao qual vale tudo.contra ele enquanto.faz os seus processos obscuros,incentivam a IGNORÂNCIA contra os próprios fatos,estatísticas ao qual dizem o contrário AFF !!!Técnica nazista goebeniana seja na tv ou internet AFF !!!
D. Normandia
16 de janeiro de 2026 5:53 pmExcelente matéria.
Eu fui um dos que ficaram com prejuízos.
Como minoritário meu PM está nas alturas.
Além disso, esses grupamentos são o golpe de misericórdia.
Lamentável.
Evandro
22 de janeiro de 2026 9:28 amVc é o melhor jornalista do Brasil, Nassif.