A força da beleza *
por Urariano Mota
Eu não quero me referir à beleza física, ou à beleza dos afortunados que possuem a delicadeza e a força de traços que encantam a vista. Mas entendam, por favor, que não faço aqui uma desculpa, ou uma fuga porque não tive a sorte de ser agraciado pelos deuses do Olimpo, lá no alto da sorte, que não tenho. E notem agora o que faz a maior maravilha do ser humano: os feios podem ser bonitos! Não é paradoxo. Não é por força de belas roupas ou maquiagem. Não é isso. Os feios podem ser bonitos pela graça e força da arte. As feias que Vinícius de Moraes num verso infeliz escreveu “as muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, nesse verso infeliz que o poeta do amor cometeu, não reside a beleza de todas as mulheres. Explico melhor.
Se alguém olhar uma foto da cantora Ella Fitzgerald, gorda e imensa, e ficar só na foto, poderá dizer, “que mulher feia”. Mas se ouvir Ella Fitzgerald cantando Tenderly, por exemplo, não terá mais jeito o seu julgamento errado. A pessoa se renderá à beleza que antes, burramente, julgava feia. Ella Fitzgerald é a cantora que inspira a abertura do meu romance “A mais longa duração da juventude”, quando o narrador compra um disco da magnífica sem ter nem um toca-discos, uma vitrolinha portátil sequer, sem ter nada que pudesse ouvi-la. Mas o narrador acariciava a capa do disco e se dizia, “ela será a minha negra que frita peixe em Água Fria. Ela vai me acompanhar nas noites de solidão no quarto quente da pensão. Eu amo Ella Fitzgerald. Meu reino por Ella Fitzgerald!”. E com ela termino o romance, quando Ella canta para todos os resistentes à ditadura no Recife.
Como diria o nosso imenso poeta João Cabral de Melo Neto quando falava em entrevista: “Compreende? Compreende?”. E mais: de onde vem a beleza do feio Miles Davis, que mais de uma mulher já disse que era o homem mais bonito do mundo? Hem? Vem da sua linda e feliz música. Ele, que uma vez num jantar na Casa Branca, nos Estados Unidos, para onde ele foi somente para prestigiar o gênio Ray Charles, de quem era amigo, mas recebeu na mesa de jantar esta pergunta de uma madame:
– O que você faz para ser convidado aqui para este jantar?
Ao que o genial músico respondeu:
– Olhe, eu fiz pelo menos 5 revoluções na música. E você, além de ser branca, o que faz para estar aqui?
Miles Davis – So What (Official Video)
Não mexam nunca com um gênio. Picasso também respondeu a um nazista em Paris, que lhe perguntou por que ele havia pintado aquele horror do quadro Guernica, que retrata um ataque nazista à cidade Guernica. O quadro que mostra homens e animais partidos, sem cabeças, com os braços fora do corpo. Então Picasso respondeu:
– Não fui eu que fiz. Foram vocês que fizeram este horror.
Em mais um capítulo do belo feio, o inesquecível poeta Charles Baudelaire escreveu no imortal poema em prosa “Os olhos dos pobres”, quando fala à amada: “você pergunta por que eu já não a amo”. E descreve um jantar de luxo em um restaurante de luxo que ele ofereceu à bela amada. Mas lá fora, na porta do restaurante sob o frio, uma família miserável de músicos tocava para pedir esmola. E a ex-bela reclamou: “Por que não tiram essa gente horrível daqui?”. E com essa pergunta o grande poeta responde à frase do começo “você pergunta por que eu já não a amo”. Lindo.
Haveria e há mais sobre a beleza que invade outros domínios, além da poesia. Ainda ontem, Marcelo Araujo narrou o segundo gol do Sport contra o Retrô. Uma obra-prima de jogada de Lipão.
SPORT 2×0 Retrô Campeonato Pernambucano 2026 Gol de Lipão Narração: Romualdo Marques Rádio CBN
E Marcelo Araújo soube valorizar o gol no ato, em cima da jogada. Aquele gol foi também uma obra de arte conseguida por um jogador muito jovem, promessa do futebol brasileiro. E o que dizer da beleza dos dribles do jogador de pernas tortas, que o mundo chamou de Garrincha? Mas isso fica para outra oportunidade.
Para terminar, destaco um vídeo que circula no Facebook: é um trecho do grande filme “Sociedade dos poetas mortos”. Nele, o ator Robin Williams, no papel de um inspirado e inspirador mestre, fala para os alunos: (Abre aspas)
“Eu tenho um segredo para vocês. Aproximem-se”.(Fecha aspas)
E continua, cercado pelos alunos, com estas palavras (Abre aspas):
“Nós NÃO lemos e escrevemos poesia porque é bonito ou fofo. Nós lemos e escrevemos poesia porque fazemos parte da raça humana. E a raça humana está repleta de paixão. A poesia, a beleza, o romance e o amor são as coisas que valem a pena viver. Você está aqui, a vida existe, e você pode contribuir com um verso”. E termina com estas palavras (abre aspas): “Qual será o seu verso?” (Fecho aspas)
Mas nós, que não temos a graça da beleza física nem o talento de escrever um verso como Baudelaire ou João Cabral, bem podemos nos abrigar na felicidade de amar a beleza em todas as suas formas e forças. E, principalmente, se for Ella Fitzgerald, ao cantar Tenderly. Aqui, acompanhada por outra fera do belíssimo feio que o mundo chama de Louis Armstrong:
(Crônica lida em 15/01/2026 no programa de Marcelo Araujo, na Rádio Jornal do Recife)
*Vermelho A força da beleza – Vermelho
Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.
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