5 de junho de 2026

A máscara do salvador, por Katherine Vargas Vargas

Frantz Fanon, em "Pele negra, máscaras brancas", explica que o colonialismo não manda apenas por fora, também se infiltra por dentro.
Reprodução

Na América Latina, há um hábito de pedir intervenção externa quando governos não agradam, refletindo colonialismo mental.
Esse colonialismo faz crer que só o exterior pode corrigir problemas internos, minando a soberania e a democracia local.
A oposição séria deve competir democraticamente, sem apelar para tutelas externas, fortalecendo o debate e a política nacional.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A máscara do salvador: colonialismo mental e o hábito de acreditar que nos ‘arrumam’ de fora

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Katherine Vargas Vargas

Há uma cena que se repete com naturalidade excessiva na conversa pública latino-americana. Quando aqueles que sempre mandaram sentem que o país lhes escapou das mãos, quando o país não entrega o resultado que uma parte deseja, surge o atalho. “Que intervenham”. “Que venham colocar ordem”. “Só eles podem”. Essa ideia, na Colômbia, no Brasil e no México, não surge apenas como um arroubo das redes. Foi se instalando como horizonte imaginário, como uma saída que alguns contemplam com seriedade e, o mais grave, com certa tranquilidade moral. E essa tranquilidade merece ser questionada, não por patriotismo declamatório, mas por rigor político. Aqui não está em jogo apenas a simpatia ou antipatia em relação a um governo, mas a capacidade de uma sociedade de se reconhecer como sujeito de sua própria história.

O ponto de partida é simples. Quando uma cidadania ou uma elite política se habitua a pensar que o que vem de fora é melhor por definição, e que apenas alguém de fora pode consertar o que aqui “não funciona”, não estamos diante de uma preferência cultural inofensiva. A isso costuma-se chamar colonialismo mental, e não como insulto, mas como diagnóstico. É um modo de perceber o mundo no qual a autoridade, a racionalidade e a eficácia são imaginadas como situadas fora, enquanto o que é próprio aparece como defeituoso por natureza.

Frantz Fanon, em “Pele negra, máscaras brancas”, explica que o colonialismo não manda apenas por fora, também se infiltra por dentro. Nos acostumamos a acreditar que o valioso está no “centro”, fora, e que para ser respeitado é preciso pensar, falar e agir como quem manda. Por isso ele fala de uma “máscara”, a necessidade de vestir o que é alheio para sentir-se aceito. E não é preciso trazer sua época ao pé da letra para ver o mesmo mecanismo hoje. Basta observar como, quando a política não agrada, alguns deixam de pensar em soluções entre nós e passam a pedir tutela, como se apenas alguém de fora pudesse consertar o país.

Na Colômbia, no Brasil e no México essa atitude aparece com um rosto reconhecível. São pessoas que não apenas desconfiam de um governo, mas desconfiam do país como possibilidade. Não se limitam a se opor, mas, no fundo, renunciaram à ideia de que o conflito se resolve aqui, com nossas regras, com nossas disputas e com nossa capacidade de nos corrigir. Para essas pessoas, o problema já não é político, mas civilizatório. Como se a política local fosse um defeito de fábrica e a democracia um acidente tolerável apenas se produz o resultado esperado.

Por isso é tão revelador o recurso imediato ao rótulo de “ditador” quando um presidente é incômodo para a oposição, mesmo que tenha sido eleito pela maioria. A palavra cumpre uma tarefa concreta. Tornar necessário o que, de outro modo, seria inaceitável. Sem ditadura, uma intervenção dos Estados Unidos seria ilegítima. Com a ditadura instalada no relato, tudo se autoriza na cabeça de alguns, inclusive que alguém de fora venha meter a mão. A política deixa de ser disputa de projetos e se transforma em um relato de salvação com uma figura externa que “coloque ordem”, que “restaure”, que “corrija”.

Essa lógica não apenas degrada o debate, também corrompe a ideia de oposição. Uma oposição séria não recorre a atores externos para impor sua agenda. Faz controle com provas, organiza alternativas, propõe reformas, persuade, constrói maiorias, disputa eleições, aceita derrotas e tenta novamente. Uma oposição que prefere pedir intervenção ou tutela externa não está elevando o padrão democrático, está confessando que seu projeto não tem paciência nem musculatura para competir no terreno democrático. E, sobretudo, está transmitindo uma mensagem devastadora. Que, se as pessoas votam diferente, então a decisão deve ser “arrumada” de fora.

Algo que inquieta é que esse hábito não nasce apenas de conjunturas políticas. Vem de um aspiracionismo mais profundo, alimentado pelo consumo cultural estadunidense sem filtro crítico, quando o que vem de fora deixa de ser referência e se torna medida. Aí esse modelo imposto acaba sendo visto como “o correto” e o que é próprio fica sempre sob suspeita. E, sem perceber, acabamos nos educando para duvidar de nós mesmos.

Quando alguém se acostuma a duvidar do que é próprio, começa a ver o país como um problema sem conserto. Então qualquer desacordo político, qualquer frustração com o rumo do governo ou qualquer derrota eleitoral vira pretexto para pedir que alguém de fora venha colocar ordem. Perde-se a paciência para fazer o difícil, que é discutir com argumentos, construir acordos, sustentar o debate e mudar as coisas com regras. É mais confortável buscar um salvador do que aceitar que nenhum país se conserta sem política, sem trabalho e sem tempo.

Por isso o dilema não é se gostamos ou não do governo de turno. O dilema é se vamos continuar reagindo por reflexo, como se tudo o que não funciona ou não agrada se resolvesse buscando um “interventor”. Se isso se normaliza, o custo não é pago por um presidente. É pago pela democracia, porque se troca a disputa pela tutela, a política pela correção externa, e a soberania popular pela ideia de que a vontade cidadã só vale quando não incomoda.

A pergunta, então, é direta. Queremos sociedades capazes de ter diferenças sem se romper? Capazes de fazer oposição com seriedade, sem renunciar ao país? Capazes de entender que a oposição faz parte do projeto nacional e não de uma mão externa que vem “colocar ordem”? Ou, ao contrário, vamos continuar carregando a ideia de que entre nós não somos capazes de construir um país melhor, mesmo quando esse “nós” deveria incluir quem pensa diferente?

Talvez o primeiro passo seja assumir o que incomoda. Construir um país melhor não é uma tarefa reservada aos de fora. É uma tarefa nossa, sim, com a oposição incluída. E enquanto não recuperarmos essa convicção básica, seguiremos usando a máscara do salvador. Uma máscara que tranquiliza quem não quer assumir responsabilidades, mas que, no fim, acaba esvaziando aquilo que dizem defender.

Katherine Vargas Vargas – Advogada colombiana, Mestra em Direitos Humanos, Interculturalidade e Desenvolvimento e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilha.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados