Depois de mais de 25 anos de negociações, o Mercosul e a União Europeia assinaram neste sábado (17) em Assunção, no Paraguai, um acordo de livre comércio histórico.
O tratado, apontado como o maior entre blocos econômicos no mundo, busca reduzir tarifas comerciais, integrar mercados e aumentar o fluxo de investimentos e exportações entre os dois lados do Atlântico.
A assinatura contou com a presença de autoridades europeias como a presidente da Comissão Européia, Ursula von der Leyen, e lideranças dos países do Mercosul, embora o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva tenha delegado o representante do Brasil ao evento oficial, o chanceler Mauro Vieira.
O que muda e quando começa a valer
Apesar da celebração diplomática, o acordo não entra automaticamente em vigor com sua assinatura. Ele ainda passa por um processo político e legislativo rigoroso nos dois blocos.
Na União Europeia, o texto será analisado pelo Parlamento Europeu e pode necessitar de ratificação adicional em parlamentos nacionais, dependendo de interpretações jurídicas e exigências legais. No Mercosul, o tratado precisa ser aprovado nos Congresso Nacionais.
Segundo o vice‑presidente e ministro do Desenvolvimento do Brasil, Geraldo Alckmin, o governo espera que, com as aprovações necessárias, o acordo possa começar a vigorar no segundo semestre de 2026. A ideia é que, depois de aprovados os mecanismos internos e as “leis de internalização”, o tratado entre imediatamente em vigor.
Porém, especialistas e análises de fontes internacionais apontam que prazos mais longos são prováveis, dado que partes do acordo dependem de aprovações regionais e nacionais que podem se estender até final de 2026 ou além, e que alguns segmentos só terão efeitos gradualmente ao longo de 10 a 15 anos.
Impactos do acordo
A consolidação desse acordo pode criar uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, conectando cerca de 720 milhões de consumidores e abrindo novas oportunidades de comércio entre a América do Sul e o principal bloco econômico europeu.
A TV GGN discutiu o tema no Projeto Brasil da última quinta-feira [confira abaixo]. O acordo firmado entre Brasil e União Europeia, além de ter relevância geopolítica como contraponto ao isolacionismo dos Estados Unidos, levanta questões importantes sobre disparidades setoriais entre os dois blocos.
Entre os pontos mais sensíveis estão a propriedade intelectual, especialmente em medicamentos, e as regras de compras governamentais, que regulam licitações e financiamentos públicos. Embora o acordo abra algumas oportunidades para empresas europeias, o Brasil manteve restrições em áreas estratégicas, garantindo proteção a setores nacionais e permitindo certa autonomia em políticas de incentivo à produção e pesquisa local.
Do ponto de vista econômico, a assimetria entre os blocos é evidente: a indústria europeia é muito mais competitiva, enquanto o Brasil mantém força principalmente na agricultura. Isso significa que, embora o acordo possa beneficiar certos setores com redução de custos de insumos, há riscos para a indústria nacional, especialmente em áreas como química e metalmecânica.
O desafio, segundo especialistas, será equilibrar essas diferenças, protegendo setores estratégicos sem comprometer a inserção do país no comércio global.
Abaixo, você confere a discussão na TV GGN, no programa Projeto Brasil:
Fábio de Oliveira Ribeiro
18 de janeiro de 2026 7:59 amEsse foi o melhor vídeo que eu vi até agora sobre os impactos do acordo UE-MERCOSUL. Os especialistas entrevistados por Luis Nassif deram um panorama compreensível das novidades introduzidas pelo acordo e dos impactos que ele pode ter no Brasil. A maior capacidade industrial europeia foi mencionada, mas eu senti falta de um tema específico: objetos de luxo e arte (arte falsificada incluída). A maior vantagem comparativa da Europa é justamente a manufatura de produtos de luxo e de arte, em alguns casos realizada por artesão em empresas pequenas utilizando tecnicas industriais tradicionais antigas. Esses produtos tem grande valor agregado e um custo proibitivo até mesmo para a empobrecida população europeia e americana. No Brasil eles certamente farão muito sucesso, especialmente se as tarifas de importação forem baixas. Objetos de arte e arte falsificada produzidos na Europa certamente entrarão no Brasil, sendo incerto o sucesso da exportação de produtos artísticos brasileiros para a Europa. Os europeus levarão vantagem nesse aspecto, mas essa vantagem é enganosa porque a produção de objetos de luxo e de arte (arte falsificada incluída) utilizando técnicas industriais tradicionais antigas não ajudará a Europa a desenvolver Tecnologias da Informação e da Computação para a concorrer com a China e os EUA. O mesmo pode ser dito da importação e consumo desses produtos no Brasil. Então esse talvez seja um tema específico para outra discussão conduzida por Luis Nassif.