Pouco lembradas nos registros oficiais, as vítimas da ditadura militar que não integravam organizações políticas nem atuavam na militância são o foco do romance Entre Montanhas e Predições, do escritor Felipe de Caux. A obra, lançada a partir de extensa pesquisa histórica, usa a ficção para retratar como a repressão atingiu famílias comuns, especialmente em regiões pobres do interior do país, deixando marcas profundas que atravessaram gerações.
Em entrevista ao TVGGN Justiça da última sexta-feira (24), o autor explicou que o livro é uma ficção ambientada no contexto da ditadura no Brasil, centrada em uma família do interior do norte de Minas Gerais, região historicamente marcada pela pobreza e pela exclusão. Segundo o autor, a narrativa busca dar visibilidade a personagens que “não eram militantes, não participavam ativamente de movimentos políticos, mas acabaram entrando em choque com o regime”.
A trama acompanha a história de um dos filhos do casal protagonista, jovem leitor assíduo que ingressa na faculdade de direito, ambiente que, à época, concentrava debates políticos e resistência ao regime. De forma arbitrária, ele passa a ser perseguido após ter o nome citado sob tortura por outra pessoa presa. “Era comum naquele período que, sob tortura, alguém dissesse qualquer nome. Não dá nem para condenar quem delatava”, afirmou o autor.
Preso sem provas concretas, o personagem é submetido à tortura e acaba morrendo na prisão. A partir daí, o romance passa a tratar de um dos temas mais sensíveis do período: o dos desaparecidos políticos e da dor das famílias que nunca receberam respostas oficiais. No livro, a mãe do jovem inicia uma busca incansável por informações, inspirada em relatos reais de mulheres que passaram a vida escrevendo cartas e procurando autoridades, sem jamais saber o destino dos filhos.
Felipe de Caux destaca que a ausência de informação, muitas vezes, foi tão cruel quanto a própria violência física. “Não saber o que aconteceu, quando aconteceu, se realmente morreu, é uma dor que dura a vida inteira”, disse. No romance, essa angústia é traduzida por meio do realismo fantástico, recurso literário que mistura elementos simbólicos ao cotidiano, sem romper com a realidade histórica.
Um dos episódios mais marcantes da obra ocorre quando a mãe, Madalena, passa a “ver” o filho em casa após o desaparecimento, compreendendo, a partir dessa experiência, que não precisava mais procurá-lo vivo, mas sim buscar o seu corpo. Para o autor, o uso de metáforas e imagens simbólicas ajuda a dar força narrativa a sentimentos difíceis de expressar apenas de forma realista.
Embora o livro retrate cenas de tortura e repressão, de Caux afirma que optou por não aprofundar o ponto de vista dos torturadores. “A história é contada a partir das vítimas. Os agentes da repressão aparecem como parte de um sistema que desumanizou quem estava do outro lado”, explicou. Entre esses personagens estão interrogadores e até médicos que acompanhavam as sessões de tortura para manter presos vivos, prática documentada em relatos históricos.
O romance também aborda outros dramas sociais enfrentados pela família ao longo do tempo, como violência, homofobia, vícios e morte infantil, reforçando a ideia de que a ditadura se somou a um contexto já marcado pela desigualdade. “A ditadura é uma parte da história, não o livro inteiro. Ela atravessa a vida dessas pessoas como atravessou a vida de tantas famílias pobres no Brasil”, afirmou o escritor.
Ao revisitar esse período sob a ótica dos anônimos, Entre Montanhas e Predições busca contribuir para a preservação da memória histórica e para a compreensão dos impactos silenciosos da repressão. “Muitas pessoas que nunca pensaram em política acabaram entrando em confronto com o Estado e, em alguns casos, foram empurradas para a luta simplesmente para sobreviver”, concluiu o autor.
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