5 de junho de 2026

O caso Manuel Fiel Filho, por Luís Nassif

Fiel foi assassinado em 17 de janeiro de 1976, poucos meses após o assassinato de Herzog, em 25 de outubro de 1975.
Reprodução

Manuel Fiel Filho foi assassinado em 17/01/1976, marcando um ponto de virada na repressão da ditadura militar.
General Ednardo D’Ávila Mello foi demitido após a morte de Fiel Filho, evidenciando descontrole nos porões militares.
DOI-CODI operava como Estado paralelo, com cadeia de comando, ordens, relatórios falsos e proteção institucional.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O assassinato do metalúrgico Manuel Fiel Filho foi o ponto de virada da repressão na ditadura. Fiel foi assassinado em 17 de janeiro de 1976, poucos meses após o assassinato de Herzog, em 25 de outubro de 1975.

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Na época, eu e minha irmã Regina nos cotizamos para comprar um apartamento para nossos pais. Fomos dar em um edifício da rua Abílio Soares, cujos fundos dava para o DOI-Codi da rua Tutóia.

O vendedor era um dentista muito simpático, que tinha dois apartamentos no prédio. Era pai do economista Gesner de OIiveira e do advogado Márcio de Oliveira. Além de simpático, era bom de prosa.

Em um dos contatos, para acertarmos a compra, ele me levou até a cozinha. Apontou a pia e disse:

  • Sabe quem passou uma noite chorando ali? Meu cunhado, general Ednardo.

O episódio ocorreu nos dias em que foi descoberto o assassinato de Manuel Fiel Filho. Ednardo chorava e se dizia vítima de uma armação, para tirar-lhe o comando do 2o Exército.

Ali ficou claro que os porões tinham saído do controle das Forças Armadas. Alto comando, generalato, hierarquia? Tudo foi para o espaço, com os porões aprontando o que queriam, ao largo do comando militar.

Após a morte de Manuel Fiel Filho, o então presidente Ernesto Geisel fez algo raríssimo na ditadura: no dia 23 de janeiro Geisel demitiu Ednardo D’Ávila de Mello do comando do 2o Exército. Em seguida, ele foi mandado para a reserva.

Após a morte de Herzog, Geisel havia determinado que ninguém mais morreria sob custódia. Segundo os livros de Elio Gaspari, no entanto, não reprimiu os assassinatos de opositores, mas fora da jurisdição militar. A filha de Geisel, Amália Luci, rompeu com Gaspari – a quem havia entregue os arquivos do pai – julgando-se traída.

O levantamento posterior mostrou uma ampla cadeia de comando por trás dos assassinatos.

Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra

  • Cargo: comandante do DOI-CODI/SP (1970–1974)
  • Situação:
    • Não comandava mais o órgão no dia da morte de Herzog, mas:
    • Criou o método operacional que continuou em uso
  • Histórico:
    • Primeiro militar oficialmente reconhecido como torturador pela Justiça brasileira (2012)
    • Responsável por estruturar a repressão no período mais violento

CHEFIA NA ÉPOCA DAS MORTES

Major Audir Santos Maciel

  • Cargo: comandante do DOI-CODI em 1975–76
  • Responsabilidade direta:
    • Estava no comando durante:
      • Morte de Herzog
      • Morte de Manuel Fiel Filho
  • Relatórios oficiais:
    • Assinou versões falsas de “suicídio”
  • Status:
    • Nunca foi punido criminalmente

OFICIAIS OPERACIONAIS (citados em depoimentos)

Capitão Ramiro César dos Santos

  • Atuava diretamente em interrogatórios
  • Citado por ex-presos políticos como torturador

Tenente José Ferreira

  • Apontado em relatos como participante de sessões de tortura

Sargento Marival Chaves

  • Ex-agente do DOI-CODI
  • Tornou-se denunciante nos anos 1990
  • Confirmou:
    • Execuções
    • Ocultação de cadáveres
    • Ordens vindas do comando

RESPONSÁVEIS SUPERIORES (cadeia de comando)

General Ednardo D’Ávila Mello

  • Comandante do II Exército
  • Caiu após a morte de Fiel Filho

General Milton Tavares de Souza

  • Chefe do CIE (Centro de Informações do Exército)
  • Protegia a ala linha-dura

O ponto central

Não foram “excessos individuais”.

Era uma estrutura organizada, com ordens, hierarquia, relatórios falsificados e proteção institucional. 

O DOI-CODI funcionava como Estado paralelo dentro do Estado.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. +almeida

    19 de janeiro de 2026 6:56 pm

    Imaginemos um cenário com Bolsonaro vitorioso em 2022. O que seria do Brasil hoje? Onde, talvez, ele poderia estar enterrado vivo? Onde seria o cemitério clandestino, em que possivelmente estariam sepultadas a democracia, a liberdade, a constitução, as leis, a saúde pública, a educação pública, a ciência, o avanço tecnológico, a cultura, a arte, a nossa soberania, as nossas riquezas e a nossa dignidade? Quanto tempo a dobradinha Bolsonaro servo e Trump ditador levaria para tornar o nosso Brasil, em um imenso e trágico celeiro de terra arrasada?

  2. fabricio coyote

    19 de janeiro de 2026 8:20 pm

    hj não é diferente: os milicos golpistas continuam a receber soldo, o capetão boçlnaro entre eles, enquanto os golpistas civis perderam tudo. não há à Constituição que após o trânsito em julgado, coisa julgada, servidor possa manter o cargo, seja ele civil ou milico. quem manda é o poder civil.

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