Memória em cena: cinema brasileiro e a construção da memória e verdade sobre a ditadura no Brasil
por Elson Luiz Mattos Tavares da Silva
Ao receber o prêmio de melhor ator em filme de drama no Globo de Ouro, pelo filme Agente Secreto, no último domingo (11/01), Wagner Moura sintetizou, em poucas palavras, uma dimensão central do debate contemporâneo sobre o passado autoritário brasileiro: “O Agente Secreto é um filme sobre a memória, ou a falta dela, e um trauma geracional. Eu acho que se o trauma pode ser passado através de gerações, os valores também podem”. A afirmação, proferida no momento de maior visibilidade internacional da obra — que também foi consagrada como melhor filme de língua não inglesa —, ultrapassa o campo da experiência individual do ator e oferece uma chave interpretativa potente para compreender a convergência atual entre cultura, memória e ação estatal no Brasil.
O recente protagonismo do cinema brasileiro em premiações internacionais, reforçado pelo percurso de Ainda Estou Aqui — que recebeu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 e destacou a atuação de Fernanda Torres, Globo de Ouro como Melhor Atriz em Filme de Drama em 2025 —, insere-se, assim, em um contexto mais amplo de elaboração pública do passado autoritário. Trata-se de um movimento no qual narrativas artísticas, políticas culturais e iniciativas institucionais passam a dialogar de forma mais explícita com os efeitos prolongados da repressão, do silenciamento e da violência promovidos pelo Estado durante a ditadura militar, bem como com a necessidade de transmissão intergeracional de valores democráticos.
Agente Secreto constrói sua narrativa a partir da trajetória de um homem comum progressivamente capturado por engrenagens opacas de vigilância, perseguição e coerção estatal. Ambientado no período ditatorial, o filme acompanha o envolvimento do personagem em uma rede de espionagem, delações e controle político, na qual a fronteira entre legalidade e arbítrio se dissolve. A obra expõe, de forma tensa e intimista, os mecanismos cotidianos do autoritarismo de Estado — a produção do medo, a normalização da violência institucional, o uso da informação como instrumento de dominação e a corrosão dos vínculos sociais. A atuação de Wagner Moura confere densidade humana a esse processo, tornando visível o impacto subjetivo da repressão e o modo como o trauma se inscreve nos corpos, nas escolhas e nas memórias individuais.
O percurso recente dessas produções confirma aquilo que a historiografia do cinema e os estudos da memória vêm apontando há décadas: o cinema ocupa um lugar destacado na representação e na refiguração dos passados traumáticos. Para além de sua dimensão consagrada como espetáculo artístico, ele assume uma função específica no campo da memória e da história ao revisitar processos de violência de Estado, atuando como vetor de memória e não apenas como entretenimento (Morettin; Napolitano, 2018). Trata-se de uma linguagem capaz de condensar afetos, narrativas e disputas simbólicas, alcançando públicos amplos e atravessando gerações.
Nesse sentido, O Agente Secreto se inscreve de maneira contundente nesse campo. Ambientado nos anos finais da ditadura militar brasileira, o filme acompanha a trajetória de um homem comum progressivamente enredado pelas engrenagens da repressão, da vigilância e da suspeita permanente por parte do Estado. A narrativa não se constrói a partir de grandes eventos oficiais, mas do cotidiano atravessado pelo medo, pelo silêncio imposto e pelas ambiguidades morais que marcam os anos de exceção. Ao fazê-lo, o filme ilumina as marcas subjetivas deixadas pela violência política e explicita como o trauma não se encerra com o fim formal do regime, mas reverbera no tempo, afetando corpos, vínculos e escolhas. Essa abordagem reforça a compreensão do cinema não apenas como repositório de memórias já elaboradas, mas como produtor ativo de sentidos sobre o passado, em diálogo permanente com disputas historiográficas e com memórias dominantes ou recalcadas (Morettin; Napolitano, 2018).
A potência política dessas obras torna-se ainda mais evidente quando articulada ao debate sobre nação e pertencimento. Benedict Anderson demonstrou que as nações são “comunidades imaginadas”, construídas social e culturalmente por meio de narrativas compartilhadas, e não por laços diretos entre seus membros (Anderson, 2020). Embora seu foco tenha recaído sobre a imprensa e a linguagem, essa chave interpretativa permite compreender o cinema como um dispositivo central na produção desses sentidos coletivos. Filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto contribuem para reconstituir narrativas comuns sobre a ditadura militar, especialmente em um contexto no qual a memória desse período entrou em disputa aberta com projetos autoritários e negacionistas. Ao reinscrever o trauma da repressão no imaginário social, essas obras ajudam a recompor laços de solidariedade e a reafirmar valores democráticos fragilizados, sobretudo entre gerações que não vivenciaram diretamente os anos de arbítrio.
No caso específico de Ainda Estou Aqui, essa dimensão é particularmente evidente. O filme opera como um gesto pedagógico e político ao recolocar a experiência da ditadura no centro da narrativa nacional, em um momento em que políticas educacionais e culturais frequentemente se mostram reféns de uma lógica imediatista e descolada do compromisso com a formação cidadã. Ao articular memória, afeto e pertencimento, a obra contribui para a reconstrução de uma comunidade política consciente de seu passado e, portanto, mais capaz de defender a democracia no presente.
Essa compreensão encontra respaldo clássico na reflexão de Marc Ferro, para quem o cinema não apenas reflete a história, mas “a constrói, tornando-se um agente ativo na formação da memória nacional e na consolidação de mitos fundadores” (Ferro, 1992). Ao assumir esse papel ativo, o cinema se converte em campo privilegiado de disputa simbólica, capaz tanto de reforçar silêncios quanto de romper pactos de esquecimento.
Ao alcançar ampla circulação e reconhecimento internacional, Agente Secreto projeta para além das fronteiras nacionais debates que, durante décadas, permaneceram fragmentados no espaço público brasileiro. O filme não apenas revisita o passado, mas evidencia como as estruturas do autoritarismo deixaram marcas duradouras na vida social, nos afetos e nas instituições. Nesse sentido, o cinema opera como um dispositivo cultural de memória, capaz de tornar sensível aquilo que muitas vezes permanece abstrato nos registros históricos e administrativos: a experiência vivida da repressão e seus efeitos intergeracionais.
Esse reconhecimento cultural ocorre em paralelo a um conjunto de políticas públicas que vêm sendo retomadas e fortalecidas no âmbito do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A criação, em 2023, da Assessoria Especial de Defesa da Democracia, Memória e Verdade representou um marco institucional ao reconhecer a necessidade de estruturar, no Executivo Federal, uma agenda permanente voltada à memória e à verdade sobre o período ditatorial. É nesse contexto que se insere o projeto Lugares pela Memória, concebido como uma política pública de alcance nacional voltada à identificação, ao reconhecimento e à institucionalização de espaços vinculados à repressão e às múltiplas formas de resistência ao autoritarismo de Estado.
O projeto organiza-se em frentes complementares que abrangem o mapeamento e a sinalização de locais de memória, a construção de referenciais conceituais sobre o que se entende por “lugar de memória” no contexto brasileiro e o apoio à implementação de memoriais em espaços emblemáticos. Ao longo de 2024, consultorias especializadas foram contratadas por meio de parceria entre o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o que possibilitou a divulgação inicial de cinquenta locais na página do Observatório dos Direitos Humanos. As pesquisas seguem em curso e, nos próximos meses, centenas de novos locais deverão ser incorporados ao mapa, ampliando significativamente o conhecimento público sobre a extensão territorial da repressão e da resistência no país.
Além disso, prevê-se a organização dos resultados dessas pesquisas em inventários mais robustos, capazes de sistematizar informações históricas, documentais e territoriais, demarcando avanços substantivos dessa política. Ao longo de 2026, parte dos locais mapeados deverá receber placas de sinalização, que registrarão tanto espaços centrais para a história política brasileira quanto locais vinculados à Operação Condor — ação repressiva coordenada entre países da América do Sul. As placas relativas a esses locais decorrem de decisão adotada no âmbito do Mercosul e seguem padronização comum aos países membros, reforçando a dimensão transnacional do autoritarismo e das respostas memoriais a ele associadas.
Paralelamente ao avanço dessas ações territoriais, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania vem promovendo a retomada sistemática da análise dos requerimentos de anistia política, após um longo período de paralisação ou tratamento fragmentado desses processos. A atuação da Comissão de Anistia tem permitido o reconhecimento formal de perseguições sofridas por milhares de pessoas em razão de sua atuação política, sindical, estudantil, cultural ou comunitária, bem como a reconstituição administrativa de trajetórias interrompidas pela repressão estatal.
Um marco relevante desse processo foi a concessão de anistias coletivas a grupos historicamente atingidos de forma sistemática pela ação do Estado durante a ditadura. Destacam-se, nesse sentido, as anistias concedidas aos povos indígenas Krenak e Guarani-Kaiowá, que reconheceram oficialmente violências, deslocamentos forçados, prisões arbitrárias e outras formas de perseguição sofridas por essas comunidades. Também foram reconhecidas coletivamente as violações cometidas contra os camponeses da comunidade de Pedra Lisa e contra a Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro, evidenciando que o autoritarismo de Estado incidiu de maneira profunda sobre populações rurais, periféricas e historicamente marginalizadas.
Outra frente de atuação diz respeito à retificação de certidões de óbito de pessoas mortas em decorrência da repressão política. A partir de resolução do Conselho Nacional de Justiça, passou a constar nesses documentos a causa da morte como “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política”, bem como o reconhecimento oficial do local da morte quando identificado. A entrega dessas certidões retificadas às famílias representa um gesto institucional de grande densidade simbólica, ao inscrever nos registros civis uma formulação explícita que nomeia a responsabilidade estatal pelas mortes ocorridas no período ditatorial.
Essas ações dialogam diretamente com narrativas como as apresentadas em Ainda Estou Aqui, que evidenciam o impacto prolongado da violência estatal sobre famílias e trajetórias individuais, e com Agente Secreto, que revela os mecanismos cotidianos de vigilância, perseguição e controle que estruturaram o autoritarismo de Estado. O apoio do MDHC à implementação de memoriais em espaços emblemáticos, como o imóvel conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis, e a antiga Auditoria Militar em São Paulo, reforça essa convergência entre cultura, território e política pública.
Retomando a afirmação de Wagner Moura, é possível afirmar que as políticas de memória desenvolvidas no Brasil contemporâneo partem justamente do reconhecimento de que o trauma não elaborado tende a se perpetuar, enquanto a memória trabalhada pode se converter em valor coletivo. Ao mapear lugares, reconhecer vítimas, corrigir registros oficiais e institucionalizar espaços de lembrança, o Estado contribui para interromper ciclos de silêncio e para criar condições de transmissão intergeracional não apenas da dor, mas também de valores democráticos, de dignidade humana e de não repetição. Nesse sentido, o reconhecimento internacional do cinema brasileiro na noite anterior não apenas celebra uma conquista artística, mas ecoa e reforça um processo mais amplo: o de transformar a memória em fundamento ético do presente e em compromisso com o futuro.
Referências:
MORETTIN, Eduardo; NAPOLITANO, Marcos (orgs.). O cinema e as ditaduras militares: contextos, memórias e representações audiovisuais. São Paulo: Editora Intermeios, 2018.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
FERRO, Marc. Cinema e História. Tradução de Flávia Nascimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 45.
Elson Luiz Mattos Tavares da Silva – Historiador, doutorando, e mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com a dissertação ” Memórias Resistentes: As construções das memórias das ditaduras no Brasil e na Argentina a partir da preservação de edifícios da repressão” (2018). Foi membro da Comissão da Verdade “Marcos Lindenberg” (2013-2016) e colaborador com as pesquisas para a Comissão Camponesa da Verdade no estado de São Paulo (2013). Integrou também o comitê científico do Projeto “A responsabilidade de empresas por violações de direitos durante a Ditadura” (2021). Atualmente é servidor no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
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