A morte do cão comunitário Orelha, após agressões sofridas na Praia Brava, em Florianópolis (SC), provocou comoção nacional e repercussão internacional e reacendeu o debate sobre a relação entre maus-tratos a animais e outras formas de violência, como a doméstica e a interpessoal.
Orelha vivia há mais de dez anos na região e era cuidado por moradores e frequentadores da praia. Devido à gravidade dos ferimentos, o animal precisou ser submetido à eutanásia. As investigações ainda estão em andamento, e a Polícia Civil apura a participação de quatro adolescentes no caso.
Em artigo publicado no The Conversation Brasil, Renata Toma, pesquisadora associada da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, ressalta que episódios de violência contra animais não devem ser vistos como fatos isolados, uma vez que pesquisas nacionais e internacionais indicam que agressões a animais podem funcionar como sinais de alerta para situações mais amplas de violência dentro de lares e comunidades.
Estudos mostram que mulheres e crianças vítimas de violência doméstica frequentemente relatam que animais de estimação também sofrem agressões ou são usados como instrumentos de ameaça e coerção. Organizações internacionais que estudam o tema defendem uma atuação integrada entre profissionais da saúde humana, da assistência social e da medicina veterinária para identificar e interromper ciclos de violência.
“Nesse cenário, se um veterinário percebe que um animal apresenta sinais de ter sido agredido, o caso seria notificado. E possivelmente outros profissionais – como assistentes sociais – poderiam ser acionados para garantir que outras formas de violência na casa possam ser identificadas e prevenidas, caso necessário”, sugere Toma.
No entanto, a falta de integração entre essas áreas dificulta ações preventivas e intervenções precoces.
A literatura científica também aponta possíveis associações entre violência contra animais e traços de psicopatia, embora ressalte que esse tipo de comportamento não seja determinístico. De acordo com pesquisadores, a violência animal é um fenômeno complexo, influenciado por fatores como experiências na infância, contextos sociais que normalizam a agressão e a exposição precoce à violência.
Crianças e adolescentes que testemunham ou vivenciam maus-tratos a animais têm maior probabilidade de desenvolver comportamentos agressivos ou apresentar problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. Quando o animal possui vínculo emocional com a criança, o impacto psicológico tende a ser ainda mais profundo.
Pesquisadores também destacam que a violência contra animais pode refletir dinâmicas sociais mais amplas de dominação e exclusão, não se restringindo a comportamentos individuais. Nesse contexto, práticas violentas acabam sendo naturalizadas tanto contra animais quanto contra grupos humanos vulneráveis.
A forte comoção gerada por casos como o de Orelha está relacionada, segundo especialistas, ao vínculo emocional que muitas pessoas estabelecem com animais domésticos, frequentemente considerados membros da família. Pesquisas indicam que a maioria dos tutores vê seus pets como parte do núcleo familiar, o que intensifica reações de empatia e indignação diante de atos de crueldade.
Apesar disso, a revolta nem sempre se transforma em ações concretas. A percepção dos animais como propriedade, a fragmentação das iniciativas de proteção e a falta de estrutura institucional — incluindo perícia veterinária acessível — dificultam mudanças efetivas.
Para pesquisadores da área, o caso Orelha deve servir como um marco para o fortalecimento das políticas públicas de proteção animal, a revisão da legislação e a ampliação da atuação conjunta entre profissionais da saúde humana e animal. A expectativa é que a comoção gerada pelo episódio resulte em medidas estruturais capazes de prevenir novas situações de violência.
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