10 de junho de 2026

Falhas de auditoria, conflito de interesses e omissão regulatória: o tripé da crise financeira

Pareceres frágeis, conflitos entre auditores e clientes e fiscalização tardia abriram espaço para distorções no mercado, diz advogado sobre caso Master
Foto:: Rovena Rosa/Agência Brasil

A crise envolvendo o Banco Master revela uma engrenagem estrutural de falhas que atravessa todo o sistema financeiro: deficiência de compliance interno, fragilidade nos processos de auditoria, conflitos de interesse entre empresas e avaliadores técnicos, além da incapacidade regulatória do Estado em acompanhar a velocidade de transformação do mercado.

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As análises fazem parte da entrevista concedida pelo advogado tributarista e especialista em Governança e Compliance, Luís Garcia, ao GGN, sobre o caso e seus impactos estruturais no sistema bancário brasileiro. Confira a entrevista na íntegra abaixo.

Ele parte da crítica à ideia de que a responsabilidade estaria restrita aos órgãos de fiscalização, algo que, segundo ele, não se sustenta diante da realidade do sistema.

“É evidente que a fiscalização do Banco Central, da CVM e das autoridades precisa ser intensificada. Mas é fundamental também cobrar altos padrões de compliance das instituições privadas, das auditorias e das agências de risco. Se você tem controles internos reais, documentação adequada, processos de verificação e testes efetivos, você evita muita coisa. O problema é que, muitas vezes, as autoridades chegam quando já é tarde demais, quando o prejuízo já é irreversível.”

Garcia destaca que o compliance não pode ser tratado como um selo formal ou um discurso de marketing institucional, mas como uma estrutura concreta de proteção ao sistema financeiro. Para ele, a ausência de controles básicos, especialmente em carteiras de crédito, é um sinal claro de colapso dos mecanismos internos de governança.

“Quando você tem uma carteira de crédito de grande volume, você precisa fazer testes mínimos: quem recebeu os recursos, onde estão os registros, quais são os documentos, quais são os fluxos de pagamento. Isso é básico em auditoria. Não existe carteira de crédito sem TED, sem Pix, sem lastro identificável. Quando isso não aparece, estamos falando de uma falha gravíssima.”

Auditorias sob suspeita

Um dos pontos centrais levantados por Luís Garcia é o papel das empresas de auditoria e das agências de risco na construção de uma falsa sensação de segurança no mercado.

“O que chama atenção é que os valores envolvidos eram muito altos. A deterioração da instituição já era visível ao longo do tempo. Mesmo assim, relatórios continuaram dando aval técnico. Isso levanta o questionamento sobre falha metodológica, ausência de critérios claros e imperícia.”

Para ele, o argumento de que auditorias trabalham apenas com os números entregues pelas instituições não se sustenta. “O papel da auditoria não é apenas ler números. É ter postura cética. É perguntar o que está por trás do número.”

Conflito de interesses e omissão regulatória

Garcia também aponta para um problema estrutural no modelo de funcionamento do sistema financeiro: a combinação entre conflito de interesses privados e fragilidade regulatória do Estado.

“Existe um conflito de interesses evidente. A empresa é contratada pelo cliente, cresce com o cliente e depende do cliente. Quanto mais o negócio do banco explode, maior o contrato da auditoria. Isso cria uma relação de dependência que compromete a independência.”

Segundo ele, essa não é uma discussão nova. Já estava presente nas grandes fraudes corporativas do início dos anos 2000, como o caso Enron, que levaram à criação de marcos regulatórios como a Lei Sarbanes-Oxley.

“Foi aí que surgiram mecanismos como separação entre consultoria e auditoria, rodízio obrigatório de empresas auditoras, regras mais rígidas de independência. Tudo isso existe justamente para reduzir esse tipo de contaminação. Quando esses mecanismos falham, o sistema inteiro fica vulnerável.”

Para o advogado, o problema se agrava quando essa fragilidade privada encontra um Estado que não consegue acompanhar a velocidade do mercado.

“A criatividade do mercado foi mais rápida do que a capacidade regulatória do Estado. Novos instrumentos financeiros, novos modelos de investimento, novas estruturas jurídicas surgiram mais rápido do que as regras e a fiscalização conseguiram acompanhar.”

Ele cita fundos, FIDCs, sociedades de cotas de participação e modelos híbridos que operam em zonas cinzentas da regulação.

“Falta estrutura, falta investimento em fiscalização, falta atualização regulatória. A velocidade de criação desses mecanismos superou a capacidade de controle.”

No caso das fintechs, o problema se aprofunda na tentativa de democratizar o crédito e ampliar o acesso ao sistema financeiro. “Houve uma flexibilização excessiva. Muitas fintechs passaram a operar como bancos sem a mesma carga regulatória. Isso abriu espaço para migração de operações que antes tinham mais dificuldade do ponto de vista de lavagem de dinheiro e fraude.”

Além das falhas privadas, Luís Garcia aponta uma defasagem estrutural do poder público na capacidade de fiscalização. “A criatividade do mercado foi mais rápida do que a capacidade regulatória do Estado. Novos instrumentos financeiros, novos modelos de investimento, novas estruturas jurídicas surgiram mais rápido do que as regras e a fiscalização conseguiram acompanhar.”

Para ele, a saída não está apenas em mais fiscalização estatal, mas em reconstruir a lógica de governança do sistema financeiro, com controles internos robustos, independência técnica real e mecanismos efetivos de responsabilização.

“Não é um caso específico. É uma engrenagem que envolve instituições financeiras, auditorias, agências de risco, reguladores e o próprio modelo de organização do mercado. Quando todos esses elos falham ao mesmo tempo, o sistema entra em colapso silencioso. Compliance não é discurso. É estrutura. É processo. É controle real. Sem isso, qualquer sistema financeiro se transforma em um ambiente propício a fraude, captura institucional e prejuízos coletivos.”

Assista à entrevista completa abaixo:

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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4 Comentários
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  1. evandro

    31 de janeiro de 2026 10:04 am

    Parece que a Globo quer mostrar serviço.

    https://www.facebook.com/share/v/1GfmZsethQ/

  2. J.Marcelo

    31 de janeiro de 2026 11:07 am

    A justiça é culpada quando não bloqueia os bens.pessoais dos responsáveis pelos.golpe,é prática MUITO COMUM fecharem os olhos para o q SEUS IRMÃOS de organização fazem de errado,uns protegen os outros ao custo de oassat por cima da Lei do Brasil,para eles valem mais as SUAS PRÓPRIAS LEIS,aff pronto,falei !!!Obs.:Se colocar todo o efetivo da pf contra a zona imposta ao País por Tener e Bolso ainda não vai dar conta e tudo culpa do Lula e dos escândalos vindouros AFF !!!

  3. marcio gaúcho

    31 de janeiro de 2026 12:06 pm

    O dinheiro compra tudo. Até pareceres de empresas de auditorias internacionais renomadas. Uma certificação que não certifica mais nada, quando o objeto é criminoso. Ainda mais, se forem de origem norte-americana, onde prepondera o quanto se paga, o quanto se lucra. Laudos falsos dessas empresas de auditorias já provocaram prejuízos bilionários pelo mundo todo!

  4. evandro

    2 de fevereiro de 2026 8:53 am

    Auditorias sob suspeitas? Com o caso Americanas ainda me soltam um “sob suspeitas”?

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