Cenas da vida educacional brasileira (ou: o ocaso da educação nacional)
por Euclides Roberto Novaes de Sousa
[para o contexto dessa exposição, siga os links ao final]
I – O erro na lousa
Aparentemente uma lição inicial: três itens descritos na lousa indicam o que fazer, para os alunos de uma sala de aula, numa escola da Rede Pública. Evidentemente que os instrutores (recuso-me a chamá-los de professores) não fizeram sua própria lição de casa, que é saber bem a ortografia da língua pátria. Mas só conhece bem a ortografia quem lê. Então nossos instrutores devem mesmo ser bons patriotas…
Mas o brasileiro é bem zeloso neste aspecto, quanto aos erros alheios, diga-se. E uma câmera de TV (! Como assim!?) “flagrou” o erro, tornando-se ele público e também assim a vergonha de os instrutores serem corrigidos.
Mas vamos abstrair essa materialidade. Vamos admitir que não houvesse sido escrito, na lousa, essas gralhas. Aquilo está correto? Pedagogicamente correto? Corretamente civil? Não consigo imaginar quaisquer abordagens relacionadas à educação que pudessem começar com aquelas lições. A não ser uma introdução de aula de História, na seção “Golpe Militar”…
A verdadeira lição aqui: cuidado para não ficarmos apenas na crítica superficial. Escola Cívico-Militar é um absurdo em si mesmo, uma excrecência da excrecência do entulho autoritário. Era só o que restava, após décadas de esforço em estabelecer uma sociedade moderadamente democrática.
II – O erro no livro didático
Segundo ato, mesmo filme “Educação”. Um erro considerado grosseiro – embora datas não o sejam tanto assim, mas períodos com toda razão – indica uma década incorreta para situar a 2ª Guerra Mundial. O texto introdutório a uma pergunta começa com um título interessante: “O que fazer?” Realmente, o que fazer ante essa desgraçada ignorância? Mais uma reflexão a ser feita sobre ficar apenas na crítica superficial. Se uma simples periodização de um fato amplamente conhecido pelos educadores aparece assim, tão gratuitamente, que dirá no restante do livro (apostila), onde os equívocos podem se apresentar não tão evidentes. Sem questionar ainda a formulação dos problemas ali propostos, os objetivos metodológicos e outros.
Uma primeira reflexão nos conduz às diretrizes e divisão de tarefas na área de ensino – isto é, os deveres dos Estados e União. É manifesto que os governos estaduais, ao adotarem o modelo “Escola Cívico-Militar” não estão seguindo nenhuma diretriz estabelecida nacional e constitucionalmente, isto é, federal. Há um claro desacordo com princípios educacionais e pedagógicos. E ao errar em livros didáticos não está cumprindo com sua parte na divisão de tarefas, ferindo de outra forma o pacto federativo na área.
Já escrevi aqui em outro momento sobre os aspectos teratológicos de nossa arquitetura jurídica – um descompasso entre a Constituição (mutilada) e a Legislação (fragmentária e muitas vezes casuística), que favorece em nada um ambiente verdadeiramente democrático. Na Educação estamos construindo este monstro, dado que os governos estaduais persistem em destruir qualquer arranjo que se queira harmonioso. As cenas descritas acima, recentes, são fatos corriqueiros que atestam essa desarticulação. De nada adianta adoção de grandes princípios de um lado se do outro a ordem é fechamento de escolas e proletarização de docentes.
Já passou da hora de aprendermos a lição. Não só alunos: pais, professores, diretores de escola… já que governadores nunca a aprenderão. Pelo contrário, a destruição sempre estará ao alcance deles.
Cabem ainda duas questões a serem respondidas: o que fazia uma rede TV privada na Escola Pública, ali, naquele exato momento? De quem é a empresa que confeccionou a tal apostila?
Contexto:
https://revistaforum.com.br/brasil/escola-civico-militar-professor-escreve-descancar-e-cotinecia-veja-video/ [dois policiais aposentados apresentam uma lição inicial na lousa, numa escola da rede pública no interior, com dizeres incorretos, gramaticalmente]
https://revistaforum.com.br/brasil/governo-tarcisio-gasta-quase-r-29-milhoes-em-apostila-com-erro-historico-crasso/ [erro de periodização numa apostila, denunciada por um deputado; apostila amplamente distribuída à rede pública por todo o Estado de SP]
Euclides Roberto Novaes de Sousa – É servidor público estadual, graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia, com especialização em Textos em Língua Portuguesa e amante de Literatura.
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