21 de maio de 2026

Bad Bunny e a nova “oposição consentida”, por Francisco Ladeira

Supostos críticos que se vendem como “revoltados”, mas, na realidade, são apenas “vozes divergentes” aceitas pelo “sistema”.
Reprodução

Durante a ditadura militar, o MDB foi criado como “oposição consentida” para mascarar divergências políticas.
Bad Bunny é visto como novo símbolo da “oposição consentida” ao imperialismo dos EUA na esquerda brasileira.
Crítica de Bad Bunny a Trump é interpretada como alinhada a rivais democratas, não aos povos latino-americanos.

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A esquerda que dança conforme a música do imperialismo: Bad Bunny e a nova “oposição consentida”

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por Francisco Fernandes Ladeira

Durante a ditadura militar brasileira, o regime vigente, para criar uma máscara de “tolerância” às divergências, autorizou a constituição de uma “oposição consentida”: o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). De maneira análoga, a hegemonia do imperialismo estadunidense também permite determinadas críticas, desde que não representem ameaças reais à ordem vigente.

No plano cultural interno, essa “oposição consentida” aos valores ianques é representada pelo rock and roll e suas variantes, como o movimento hippie. São músicos e público que, em muitas ocasiões, se apresentam como “anarquistas” – nem de direita, nem de esquerda; apenas antissistema. Ficam em cima do muro, mas, quando esse muro balança, geralmente caem para a direita. São jovens que contestam a “caretice”, e não a “desigualdade social” do “sistema”.

No atual cenário político, a esquerda brasileira (pelo menos em sua maioria) tem adotado determinados “heróis” que nada mais são do que a nova “oposição consentida” ao imperialismo estadunidense. Supostos críticos que se vendem como “revoltados”, mas, na realidade, são apenas “vozes divergentes” aceitas pelo “sistema”.

Como bem pontuou o professor Wilson Ferreira em texto no site Cinegnose, o novo “herói” das forças progressistas é o cantor porto-riquenho Bad Bunny. O motivo: durante uma apresentação no intervalo da partida mais importante do futebol americano, ele teria “desafiado” o presidente Donald Trump ao declarar que o termo “América” não se refere aos Estados Unidos, mas ao continente que ocupa praticamente todo o hemisfério ocidental. Especificamente, o ponto que mais causou frisson na esquerda brasileira foi Bad Bunny ter citado os nomes dos países americanos. No cenário, estavam presentes todos os estereótipos sobre o “quintal estadunidense”: a América Latina, vista como simples fornecedora de commodities – tanto materiais quanto humanas. Uma espécie de Carmen Miranda 2.0, que em outros tempos era motivo de crítica por parte da esquerda e hoje é motivo de orgulho.

No entanto, alguém minimamente reflexivo deveria se perguntar: se o esporte é um dos maiores soft powers geopolíticos, será que o “sistema” autorizaria algum tipo de crítica que o ameaçasse, mesmo que minimamente? Além disso, Trump, o “para-raios” da vez, pertence a uma ala minoritária dentro do imperialismo estadunidense – tão perigosa quanto a ala majoritária, representada pelo Partido Democrata. Portanto, a suposta crítica feita por Bad Bunny a Trump não é em nome dos povos oprimidos da América Latina, mas de seus “rivais” democratas.

Não bastasse toda essa confusão política, houve até uma deputada que sugeriu que o Congresso Nacional concedesse o título de cidadão honorário do Brasil a Bad Bunny. Isso é o que acontece quando a esquerda substitui a luta de classes pela guerra cultural identitária. Ela se torna uma “oposição consentida”, correia de transmissão da ala protagonista do imperialismo.

***

Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)

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