10 de junho de 2026

Do Brasil ao Irã: revoluções coloridas e as viúvas do autoritarismo, por Francisco Ladeira

As revoluções coloridas têm como objetivo desestabilizar governos por meio de manifestações de massa em nome de reivindicações abstratas
Foto: Alireza Mohammadi/ AFP - Reprodução

EUA usam “guerra híbrida” com revoluções coloridas para desestabilizar governos hostis, apoiando manifestações de massa.
No Brasil, as Jornadas de Junho de 2013 visavam derrubar o PT, com apoio de setores da esquerda e viúvas da ditadura militar.
No Irã, protestos atuais também envolvem viúvas do regime autoritário do xá, com apoio do filho exilado e mídia ocidental.

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Do Brasil ao Irã: revoluções coloridas e as viúvas do autoritarismo

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por Francisco Fernandes Ladeira

No contexto geopolítico atual, uma das principais estratégias do imperialismo estadunidense contra governos considerados hostis aos seus interesses é a chamada “guerra híbrida”: uma combinação entre revoluções coloridas e guerras não convencionais.

Conforme análise do jornalista Andrew Korybko, nesse novo modelo de guerra, as revoluções coloridas – planejadas com antecedência e apoiadas em ferramentas de propaganda, estudos psicológicos e redes sociais – têm como objetivo desestabilizar governos por meio de manifestações de massa em nome de reivindicações abstratas, como democracia e liberdade.

Nessas “revoluções”, o modus operandi imperialista consiste em apoiar tacitamente determinadas convocações (feitas por mídias tradicionais ou novas) para que a população se manifeste “espontaneamente” contra um mandatário ou “regime” – disfemismo usual para rotular inimigos de Washington e seus aliados.

No entanto, embora essas mobilizações se apresentem como “favoráveis” à democracia, para atingir o objetivo de derrubar o governo hostil, as revoluções coloridas precisam contar, via de regra, com os setores mais obscuros da sociedade, não raro saudosistas de períodos autoritários. Afinal, é essencial noticiar que “a população” está nas ruas, seguindo o habitual discurso metonímico.

No Brasil, o caso mais emblemático de revolução colorida são as Jornadas de Junho de 2013, que contaram, inclusive, com o apoio de setores da esquerda que gritavam “Fora Todos” e “Não vai ter Copa” – alguns por oportunismo eleitoreiro, outros por estupidez política mesmo.  

Na época, o objetivo era tirar o PT do poder e preparar a volta do PSDB à presidência. O primeiro objetivo concretizou-se com o golpe três anos depois. O segundo, como se viu, não se tornou realidade. Parafraseando Drummond: no meio do caminho havia a extrema direita, mais especificamente o bolsonarismo.

Para engrossar as mobilizações de junho – que, no início, focavam em problemas urbanos, mas depois foram direcionadas contra o governo Dilma – valia convocar todos os setores, incluindo as viúvas da ditadura militar. A cadela do fascismo, sempre no cio (lembrando Brecht), foi tirada da coleira – não quis mais voltar e chegou à presidência da República. Hoje, quem a soltou finge não ter nada a ver com isso.

Neste início de ano movimentado, o Irã também tem sido alvo de uma revolução colorida. Apesar das diferenças em relação ao Brasil – pois lá o imperialismo almeja não apenas derrubar um governo, mas mudar o “regime” –, um ponto é comum a ambos os exemplos: o setor inconveniente.

Se por aqui foram as viúvas da ditadura militar, no país persa são as viúvas da ditadura do xá Reza Pahlavi, regime caracterizado por repressão da polícia secreta, corrupção, desigualdade social crescente e violações dos direitos humanos. Além disso, do exílio nos Estados Unidos, o próprio filho do xá tenta capitalizar as manifestações, posicionando-se como um eventual líder do Irã “pós-regime”.

Diante disso, a mídia ocidental faz malabarismos discursivos para explicar como mobilizações supostamente a favor da “democracia” e contra o “autoritarismo” da “ditadura islâmica” têm, como setor mais estridente, ironicamente, viúvas de um regime historicamente autoritário.

E, assim como no Brasil, essa cadela parece não querer voltar para a coleira.

***

Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)

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  1. Rui Ribeiro

    20 de janeiro de 2026 8:15 am

    O articulista excreveu:
    “No Brasil, o caso mais emblemático de revolução colorida são as Jornadas de Junho de 2013, que contaram, inclusive, com o apoio de setores da esquerda que gritavam “Fora Todos” e “Não vai ter Copa” – alguns por oportunismo eleitoreiro, outros por estupidez política mesmo”.

    Concordo com o articulista em relação às “revoluções coloridas” mundo afora. Elas não foram espontâneas. Mas aqui no Brasil, as jornadas de 13 de junho eram autênticas, espontâneas. Aí a extrema direita começou a disputar o movimento.

    De acordo com a Ia do Google:

    O Movimento Brasil Livre (MBL) não existia formalmente durante as manifestações de junho de 2013, tendo sido fundado apenas no final de 2014.
    No entanto, as manifestações de 2013 foram o catalisador para o surgimento do grupo e de outras alas da direita, que posteriormente absorveram e transformaram o sentimento de indignação popular daquele período em pautas conservadoras e de oposição ao PT.
    Aqui estão os pontos chave sobre a relação entre o cenário de 2013 e o MBL:

    Origem no processo: Embora não organizasse os atos de junho de 2013 (que tiveram caráter difuso e, inicialmente, pautas de esquerda com o Movimento Passe Livre – MPL), líderes que viriam a fundar o MBL se beneficiaram da insatisfação social gerada, especialmente a pauta “contra a corrupção” que ganhou força nas ruas.
    Diferença de pautas: As manifestações de 2013 começaram contra o aumento da tarifa de ônibus e evoluíram para críticas gerais à qualidade dos serviços públicos. O MBL foi criado depois, com uma agenda clara de defesa do livre mercado, redução do Estado e, principalmente, o impeachment da então presidente Dilma Rousseff.
    Conexão com a “Nova Direita”: O movimento, que se consolidou na esteira dos protestos, aproveitou a vitória na reversão da tarifa e o ambiente anti-PT para levar pautas de direita às manifestações nos anos seguintes.

    Em resumo: o MBL não participou como movimento em 2013, mas o clima de “revolta” de junho de 2013 é considerado o ponto de partida que permitiu a ascensão do grupo no ano seguinte”.

    Não que os Ayatolahs sejam flores que se cheirem, mas no Irã não há espontaneísmo dos manifestantes. Mas o Luiz Felipe Desponderado é um colorido. É contra a suposta carnificina feita no Irã mas não contra a hecatombe perpetrada por U$rael na Faixa de Gaza, porque, segundo ele, se U$rael perder, é o fim dos Judeus $ionistas. Tem uma jornalista da Folha que tem essa mesma opinião. Eles são contrários à matança de Ucranianos e de Iranianos mas não movem uma pena para defender os Palestinos e as populações dos demais países que estão em guerra mundo afora.

    Seletividade,

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