Isentão e as agressões dos Estados Unidos à Venezuela
por Francisco Fernandes Ladeira
Sempre que a geopolítica passa a ser o assunto do momento, um conhecido ator do debate público ressurge com força total: o isentão. Ele parte de uma premissa verdadeira – a de que um foco de tensão geopolítica é algo complexo – para, na prática, não se posicionar em defesa dos povos oprimidos do planeta. Essa postura, ainda que se apresente como neutra, acaba por apoiar as políticas agressivas do imperialismo estadunidense e de seus aliados. Além disso, o isentão recorre constantemente à chamada “Teoria dos Dois Demônios”, que propaga uma falsa simetria ao tratar opressores e oprimidos como igualmente “maus”.
O tema da vez é a agressão dos Estados Unidos à Venezuela e o consequente sequestro do presidente Nicolás Maduro. Para quem se considera minimamente humanista, não há outro posicionamento possível: é preciso condenar mais esse crime de guerra de Washington, independentemente de qualquer fator.
Mas o isentão, diante desse quadro, faz questão de se apresentar como “crítico” e “reflexivo”. Diferentemente dos meros mortais, ele não emite opinião no calor do momento; sua análise seria fria, “neutra” e “objetiva”. O isentão não apenas condiciona seu apoio ao povo venezuelano, como também repete os mesmos lugares-comuns e mentiras da grande mídia. Um exemplo é Ricardo Kertzman, colunista do Estado de Minas e da revista IstoÉ.
Para esconder sua submissão ao imperialismo, Kertzman, ao comentar a agressão estadunidense, escreveu em seu perfil no Facebook que “nem elogia o bufão americano (Trump), nem lamúria pelo assassino venezuelano (Maduro)”. Ele quer que os dois presidentes “se explodam”. Ideologicamente, ambos representariam os “extremos” que o isentão supostamente condena: extrema direita e extrema esquerda. Como diz o meme: “nem direita, nem esquerda” acaba sendo igual a direita.
Aliás, rotular Maduro de “ditador” é a cartada típica do isentão. Suas “análises” nas redes sociais seguem geralmente o mesmo roteiro: “o que Trump fez é condenável, mas a Venezuela é uma ditadura e Maduro é sanguinário”.
Utilizando uma expressão que ficou popular durante a pandemia de Covid-19, o isentão é um sommelier da resistência ao imperialismo. Ele só apoia um determinado grupo ou governo caso este cumpra uma série de pré-requisitos. Quer idealizar uma resistência perfeita e sem defeitos. Platão ficaria surpreso com tantas condições.
O mesmo ocorre em relação a outros atores geopolíticos que se opõem ao imperialismo. Maduro é apenas o nome em evidência. O isentão não se posicionou contra o genocídio palestino, pois o Hamas seria “terrorista”. Não condenou as agressões de Israel ao Irã no ano passado porque os aiatolás comandam uma “ditadura teocrática”. China e Coreia do Norte seriam “ditaduras comunistas”. A Rússia de Putin, uma autocracia. E assim vai. Tudo vira desculpa para não apresentar uma oposição contundente ao imperialismo.
O isentão é o famoso “em cima do muro”. Muitos se vendem como “anarquistas”. Mas todo mundo sabe que esse muro é frágil; quando balança, sempre cai para a direita – ou, no jargão geopolítico, cai do lado do imperialismo.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto. Autor dos livros “A ideologia dos noticiários internacionais” (volumes 1 e 2)
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